Brincar sozinho também pode ser bom

13/05/2026

Jorge é um urso. E Léo é um coelho. E eles são tão, mas tão amigos, que não se desgrudam. 

Não é à toa que o livro deles, assinado por Jon Agee, se chama Jorge e Léo estão sempre juntos (Pequena Zahar, 2026). E a história meio que começa desse ponto mesmo: os dois estão sempre tão juntos que não sabem mais o que é ficar sozinho.

Só que enquanto Léo quer buscar um cantinho tranquilo para tentar descobrir, Jorge insiste em ir junto – porque para ele tudo é mais divertido quando estão os dois. Alguns pais podem ter um sentimento parecido em relação aos filhos. Atire a primeira massinha quem nunca viu a criança entretida sozinha e pensou: “Coitadinha! Não tem ninguém para brincar com ela”. Ou quem nunca ficou angustiado tentando planejar atividades para “manter os filhos ocupados” – especialmente não há outra criança como companhia. 

Mas será que precisa mesmo? 

Para Rita Lous, que é psicóloga e gerente do Setor de Voluntariado do Hospital Pequeno Príncipe (PR), a resposta é não: “brincar sozinho pode ser legal”. Ela lembra que há muitos jogos e brincadeiras que não dependem de companhia, mas que brincar sozinho não deve ser a única forma de brincar. “Assim como somente brincar acompanhado ou depender de outras crianças ou adultos para brincar”, ressalta. 

Jorge e Léo estão sempre juntos

IN-SE-PA-RÁ-VEIS. Assim são os persongens de Jorge e Léo estão sempre juntos (Pequena Zahar, 2026)


O ideal é que toda criança possa explorar diferentes formas de brincadeira - com crianças da mesma idade, de idades diferentes, em pequenos grupos, em grandes grupos, com adultos e também brincando sozinha. “Quando a criança brinca, no seu tempo e em suas escolhas, ela está preenchendo um tempo essencial, com um processo de elaboração psíquica complexo para muitos entendimentos. Permitir que a criança tenha intervalos ‘ociosos’ oportuniza e favorece o avanço em várias áreas do desenvolvimento infantil”, completa a psicóloga. O próprio desejo de driblar o tédio pode instigá-la a buscar soluções, que é um exercício valioso para o desenvolvimento da autonomia e da aprendizagem. 

E a tendência é que quanto mais a criança cresce, menos ela precisa - ou deseja - brincar com pais e cuidadores. “Quando pequena, nos primeiros anos de vida, a criança quer brincar com o adulto. A partir dos 4 anos, mais ou menos, criança passa a se interessar mais pelas outras crianças. Então sim, é importante brincar junto e é importante brincar sozinho”, explica Marjorie Moreira, pediatra do Instituto da Criança e do Adolescente HCFMUSP, especialista em desenvolvimento e comportamento. 

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Deixe a criança ser o sujeito da brincadeira!

As crianças brincam na escola. Brincam com os brinquedos em casa. Brincam com jogos de tabuleiro. Brincam no videogame. Brincadeira pode até parecer tudo igual, mas não é. Na escola, por exemplo, as brincadeiras têm uma finalidade pedagógica, ou seja, são uma ferramenta para que a criança aprenda e desenvolva habilidades. Uma brincadeira com um jogo de tabuleiro pode ensinar a seguir regras, a pensar de forma estratégica e até a lidar com a frustração. E o brincar livre, quando não tem uma proposta, uma regra, um objetivo a ser alcançado?

“O tempo livre, sem atividade programada, permite que a criança crie. Permite que ela seja o sujeito da ação e construa quem ela é, descobrindo do que ela gosta e do que não gosta. Inventando muitas vezes o que o adulto jamais seria capaz de propor.  Se todas as brincadeiras são estruturadas pelo adulto cuidador, a criança pode não se sentir segura para criar ou errar”, explica Marjorie.


Garantir um tempo livre é fundamental, pois a brincadeira faz parte da infância e é determinante para o desenvolvimento da criança. Brincar faz com que a criança aprenda, porém não da forma que muitos pais esperam. Não precisa ser uma atividade que tenha um fim com resultados formais ou que mostre um processo evidente”, Rita Lous, psicóloga


É importante lembrar que deixar a criança brincar sozinha não quer dizer que o adulto esteja ausente. Ter a certeza da presença do cuidador e de que ela está amparada é o que traz segurança para que a criança possa criar, explorar, se arriscar. “É importante a criança errar e tentar novamente em um ambiente seguro, proporcionando pelo adulto cuidador”, explica a pediatra.

Jorge e Léo estão sempre juntos

"Nada pode ser melhor do que estarmos juntos!". Será mesmo?

 

Marjorie lembra outro ponto importante: a criança que se sente pertencente à família não precisa ser “entretida”. Para isso, é preciso criar formas de incluir os filhos na rotina. “Fazer a criança participar do cuidado da casa, do preparo das refeições, do lazer da família. No começo dá trabalho, mas a recompensa é grande”, afirma como pediatra e também como mãe de duas crianças pequenas. 

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Cuidado com o excesso de estímulos 

Se para alguns pais deixar a criança sem companhia para brincar já desperta uma certa angústia, deixar o filho “sem ter o que fazer” pode ser ainda pior. 

Marjorie lembra que especialmente durante a primeira infância, período que vai dos zero aos sete anos, o neurodesenvolvimento é muito intenso e plástico, o que significa que o cérebro tem uma capacidade muito grande de se transformar a partir das experiências vividas. “Nessa fase, uma das áreas mais ativas é o sistema límbico. Esse sistema está relacionado ao prazer, felicidade, recompensa e ação por impulso. É importante que seja assim para as crianças ousarem e explorarem o mundo”, explica. 

Ela explica que não é possível saber exatamente o efeito do excesso de atividades e estímulos para cada criança, mas que as bases do neurodesenvolvimento demandam tempo de criação. Durante os processos de aprendizagem, o cérebro precisa de um tempo de acomodação,“para fazer o ‘download”, como explica Marjorie. “Se as crianças estão sendo estimuladas o tempo todo, não tem a pausa para esse download e elas perdem o interesse tudo rapidamente”, explica. Para Rita, dirigir às crianças muitas demandas e ansiedade “inibe o tempo dela de compreender e elaborar”. 

Vale lembrar que muitas das atividades dirigidas às crianças, para além da escola, não são pensadas apenas para entretê-las ou para funcionar como apoio de cuidado enquanto os pais trabalham. Muitas dessas atividades têm um propósito de preparar a criança para o futuro: aprendendo um novo idioma, se dedicando a um esporte, à música, etc. “Muitas vezes organizamos a vida delas como se fossem mini adultos. Estamos acostumados a trabalhar bem e ter bons resultados e, equivocadamente, tentamos controlar todas as atividades dos nossos filhos para que eles tenham sucesso”, reflete Marjorie. É claro que todos os aprendizados e habilidades podem ser importantes na formação, mas é preciso tanto garantir momentos livres na agenda das crianças quanto ouvir o que ela tem a dizer sobre essas escolhas. “Acredito que a quantidade ideal de atividades está relacionada ao quanto aquela criança está gostando, está feliz. E para isso, precisamos estar atentos aos nossos filhos e conversar com eles sobre o que estamos propondo”, recomenda a pediatra.

Manter esse canal de diálogo com o seu filho, estar aberto para ouvi-lo, demonstrar interesse por ele, pelo que ele pensa, sente, quer, também são formas de reforçar sua presença na vida dele. Estar junto é algo muito além de estar fisicamente presente o tempo todo. Ou de compartilhar uma brincadeira. Às vezes, seu filho só precisa saber que você está ali - mesmo quando você estiver longe. 

E à medida que as crianças crescem, e se tornam mais independentes, dar o espaço para que elas possam criar seus próximos caminhos seja uma boa forma de estar junto. Até lá, deixe que seu filho vá ensaiando, por meio da brincadeira, os mundos que ele mesmo um dia vai criar.


(Texto: Naíma Saleh)

 

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