E como foi que começou?”: três livros, três mitos de origem, três leituras inesquecíveis

20/05/2026

Sonho, dança, canto, linguagem. Antes e depois, passado, presente e futuro. Fora e dentro. Há um som que ouvimos dentro de nós ao ler estes três livros que acabam de sair pelo selo Companhia das Letrinhas. Do Òrun ao Àiyé – a criação do mundo, de Waldete Tristão e Rodrigo Andrade, Nsamba, de Maitê Freitas e Carol Fernandes, e A história de nós, de Nikkolas Smith, levam ao leitor ou leitora um reconhecimento da ancestralidade humana e, para nós brasileiros, uma reparação histórica. 

O poder destas três histórias tem a ver com um poder encoberto pelo racismo nos estudos das nossas memórias da humanidade. Ler estas três obras é um deleite, uma oportunidade de elevar a discussão para aspectos menos ditos a nós, principalmente no ambiente escolar. De cunho artístico profundo, os livros vão ser parceiros de comover nas salas de aula e em todas os espaços dentro das nossas casas. 

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A Origem do Mundo

Do orun ao aiye

Do Òrun ao Àiyé – a criação do mundo se apoia em um mito de origem

 

Ao longo do tempo, encontramos muitas maneiras de explicar como o mundo começou. Nos influenciamos pelas religiões, pela ciência; algumas vezes aceitamos outras recusamos o mistério. Em Do Òrun ao Àiyé, o nome já coloca leitores e leitoras “entre” um acolhimento do que seria “céu” e “terra” na cultura hegemônica brasileira: 


Dizem que muito tempo atrás, tanto que não conseguimos

nem mesmo imaginar quanto, existiam dois mundos. 


Um desses mundos foi chamado de Òrun, o espaço sagrado dos orixás.

O outro mundo foi chamado Àiyé. No começo de tudo, só existia água no Àiyé. 


Para a pesquisadora Ananda Luz, co-coordenadora dos cursos de pós-graduação Educação e Relações Étnico-raciais: investigações de cosmopercepções amefricanas e O Livro Para a Infância: criação, circulação, mediação em territórios plurais (Instituto A Casa Tombada), o livro apresenta algo muito especial. “Nos oferece a possibilidade de encontro com o plural da vida ao apresentar a cosmopercepção iorubá de criação do mundo. Um registro importante para todas as infâncias e para a nossa história”, escreveu ela no texto de contracapa. 

No enredo, somos convidadas e convidados a assistir ao momento em que Olórun (Ser Supremo também conhecido como Ólódùmarè ou Senhor do Òrun) convida Obàtálá (criador do seres humanos, dos animais e das plantas, conhecido também como “o grande orixá” ou “o rei do pano branco”) para preparar o Àiyé para os seres humanos que ali iriam viver. Para esta tarefa, nos deparamos com uma série de elementos da cultura iorubá como o àpò-ìwà, a bolsa da existência; uma galinha de cinco dedos que cisca para espalhar a terra o máximo que pudesse; uma pomba direcionando o ar; e um camaleão responsável por informar Olórun sobre o andamento de tudo. O percurso, no entanto, precisa da ajuda de Èsù, o responsável pelos caminhos e por suas modificações. 

A obra havia sido lançada em 2020, pela editora Aziza e estava fora de catálogo. Agora chega para a Companhia das Letras, com uma leve mudança de tamanho e algumas alterações do ritmo das sequências, com páginas a mais. “Ele foi escrito com a intenção de dar oportunidade para as crianças compreenderem que a criação do mundo pode ser vista sobre várias perspectivas e uma delas é sobre o ponto de vista dos povos iorubá. Então uma criança ela pode aprender que o mundo aconteceu a partir de uma explosão do Big Bang, como pode aprender que essa criação tem a ver com uma perspectiva criacionista, mas também pode ter uma outra interpretação”, diz Waldete Tristão, doutora em educação e uma das mais desejosas educadoras a sonhar com livros para crianças com a mitologia dos orixás. “A parceria com o Rodrigo, a forma como ele conseguiu dar visibilidade para aquilo que as palavras não alcançavam, para mim é algo assim extremamente importante”, completa.

Rodrigo Andrade (que tem outra parceria com a Waldete, o livro O quintal das irmãs, Pequena Zahar, 2024), nos transporta em imagens belíssimas, cheias de movimentos e cores que nos transportam a uma sensação de sonho. “Para começar, é um dos livros que eu mais gosto, que eu mais gostei de ter feito”, compartilha Rodrigo. “para além disso também, uma outra faceta desse livro é que ele foi o meu encontro com a Waldete Tristão, que é uma autora que eu admiro demais, eu sou apaixonado pela escrita dela, eu acho que ela tem uma capacidade de, em poucas palavras, encantar e narrar, ela é uma griô encarnada”, completa ele, lembrando dos tempos de leitor em bibliotecas públicas de São Paulo e das leituras da famosa coleção Tesouros da Juventude, onde tínhamos acesso a contos mitológicos. “Os primeiros que eu encontrei foram os contos nórdicos. Aprendi toda a história de Baldur, o Bravo, de Odin, de Loki, e eu fico me perguntando quanto eu não teria sido uma criança que crescesse com uma outra referência, não seria um adulto hoje em dia melhor, tendo uma referência direta de ancestralidade negra, de uma mitologia vinda de povos africanos e do povo iorubá, que é um povo negro. O quanto isso não ia construir aí uma identidade, uma visão de representatividade que eu passei anos sem ter, sem conhecer.” Rodrigo ainda finaliza expandindo a questão. “Para além da religiosidade, eu acho que ele é um livro que conta de uma forma muito linda, essa visão nova que a gente precisa ter, hoje em dia nessa sociedade que tão binária, tão sim e não”, termina. 

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A origem do samba

E você sabia por trás do samba, característica tão fundamental da nossa identidade brasileira, vem de uma história de uma mulher sábia? Como não seria, não? Quem teve a inspiração para Nsamba foi a escritora Maitê Freitas, jornalista e pesquisadora, provocada por uma conversa com o cantor Tiganá Santana. Ele contou a ela que nas regiões do Congo e de Angola, no continente africano, havia um culto ancestral a Nsamba. 

Na história, narrada em parceria com a premiada autora Carol Fernandes (de Terra, 2023), conhecemos Nsamba, uma mulher que vivia em uma comunidade cheia de crianças, jovens, velhos e grávidas. Sua presença não era como outra qualquer: sabia-se que seus pés caminharam por passados e que seus olhos liam futuros. Enquanto Maitê conta as passagens da protagonista do livro, Carol presenteia o leitor e a leitora entre não apenas com seus amorosos traços para pessoas, mas também enriquece os detalhes com pequenos elementos que ora conversam com o texto, ora traz outros caminhos. 

Nsamba

As mãos de Nsamba convidavam a repetir o que ela dizia...


Os dizeres de Nsamba inspiravam a criatividade e o sonho dos que moravam ou passavam por ali. Dizem ayé que o vento que soprava naquela terra, ao ouvi-la, saía soprando diferente. 


Como o nosso próprio amor ao samba, Maité Freitas acredita que o momento é de festa. “Lançar esse livro, de alguma forma, ele celebra, ele coroa, ele dá mais apoio, mais ênfase, reafirma o meu compromisso com a memória, com o reestabelecimento, a reorganização da subjetividade da comunidade negra, a partir dos nossos protagonismos, a partir das nossas fabulações, a partir das nossas míticas”, comove-se a autora. “Ele traz esse espaço de reafirmação do meu compromisso e da minha produção acadêmica com o comum e com o protagonismo, sobretudo, de mulheres negras.” Assim como as pessoas da aldeia da história, assim como nós, Maitê também se viu como pessoas sempre no “meio do samba”. “Um dia estava em uma roda de samba e ouvi dentro de mim uma voz dizendo: ‘você quer aprender comigo? Eu sou o samba e tenho muito a lhe ensinar’. Desde então, há mais de dez anos, imagino e organizo ações que ajudam as pessoas a olharem para o samba a partir das mulheres negras e ver como isso pode ser transformador”, conta ela ao final da edição. 

Nsamba sempre criava versos e ritmos para a comunidade e, um dia:


(...)

pediu que mexessem o corpo, não ficassem parados. Havia versos que precisavam do corpo para fazer passear o ritmo, se fazer canção e presença. 

(...)

Os corpos iam e vinham. Tocavam com os pés o chão da terra devagarinho, pisando miudinho.


Com Carol Fernandes, o samba também sempre foi inspiração e poesia. “Pensar, desenhar e colorir Nsamba é uma bonita possibilidade de refletir e criar, ao lado de tantas outras mulheres que ajudaram a dar vida a esta obra, sobre a originalidade e a intelectualidade das populações negras no decorrer da formação histórica, social e cultural brasileira”, disse a autora ao Blog. No texto no final do livro, ela conta sobre um dos elementos fortes das imagens: a cabaça. “Nsamba me contou que o samba é fruto resistente como uma cabaça, que veio de longe e continuará dispersando suas sementes e raízes no corpo e na alma de quem ouvir seu chamado.”


Sobre nós

A história de Nós

Como tudo começou? A história de nós nos leva de volta ao princípio, revisitando mitos de origem

Terminamos este texto com outro começo: o lançamento de A História de Nós, o novo livro de Nikkolas Smith que chega ao Brasil. Autor estadunidense de O Artivista, Nikkolas nos leva a uma viagem no tempo que nunca fizemos antes em um livro para as infâncias. Dá para imaginar a potência de um livro como este junto aos projetos atuais de novas maneiras de falar sobre África e suas referências nas salas de aula. 


No fértil solo africano, encontra-se o berço da civilização. Aqui, nós sonhamos e falamos. Compartilhamos e curamos. Cantamos e dançamos e construímos e exploramos. Nós vivemos. 


Assim começa o texto do livro, com tradução de Debora Missias Alves e Gabriela Ubrig Tonelli. O livro, no entanto, já dá o ponto de partida na guarda-capa, com as pinceladas do autor nos colocando num “a partir de” de nosso mundo, num azul escuro com pontos brancos. Em seguida, paredes em marrom, pinturas rupestres... e mãos, muitas mãos vão nos levando pelo virar de páginas em que uma África se faz para quem lê. Mas tem que ler mesmo, ler no texto, nas imagens, no ritmo que Nikkolas vai poetizando. 

Ele fala da rede de linguagem, das mentes inteligentes que esculpiram palavras e histórias que reverberam em nós até hoje. Ele fala da criatividade como modo de se amar, de ver belezas ao redor e dentro da gente. Ele nos desenha movimentos de glória, de vibrações especiais:

Permitimos que nossos corpos fossem levados pelas vibrações pulsantes da própria alma da Terra, nossas batidas de coração entrelaçadas. A humanidade voou. Nós tínhamos começado a dançar. 

Nikkolas também conta que quando os obstáculos surgiram nós viramos inventores. E que os novos mundos chegaram e que chegamos a eles. “Este livro é um vislumbre da história das conexões humanas, que começaram no início da sua... nossa árvore genealógica”, diz ele no texto de posfácio, que vem seguido de uma linha do tempo a partir de 233.000 anos, quando os “humanos modernos surgem na África, desenvolvendo abrigos e meios para sobrevivência além de artes para se divertirem.” 

Conectados de maneiras que nem somos capazes de dimensionar, Do Òrun ao Àiyé, Nsamba e A História de nós escreve e desenha a nossa história de um jeito que todos merecem conhecer. 

(texto Cristiane Rogerio)

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