“Eu já fui uma árvore” convida a olhar para a origem dos produtos que nos cercam

17/06/2026


“Eu já fui uma árvore.

 Alta, verde, bonita.

E, antes disso, fui uma semente que vivia em uma pinha e que terminou saindo do bumbum de um esquilo.


É melhor eu explicar…”

É assim que começa o livro Eu já fui uma árvore (Brinque-Book, 2006), com texto de Eoin McLaughlin, ilustrações de Guilherme Karsten e tradução de Marina Castro. Este é um livro diferente. É um livro narrado pelo próprio livro, que conta a história dele desde o princípio: muito antes de ter páginas, texto, capa, lombada e de passar por mãos humanas. A metalinguagem serve para resgatar suas próprias origens, mostrando como uma semente, que virou comida, que depois virou cocô e que depois achou um lugar para finalmente fazer brotar suas raízes e crescer se tornou… um livro. E um livro que faz pensar sobre o caminho de tantos produtos que chegam até nós. E que muitas vezes não temos nem ideia de como vieram parar aqui.

 

Eu já fui uma árvore

 

Especialmente nas grandes cidades, onde as prateleiras de mercados e shoppings parecem ser a origem de tudo e plásticos de muitos tipos se sobrepõem em camadas de embalagem sem fim, fica difícil resgatar a origem natural dos elementos que nos cercam. Quem pode culpar uma criança que acha que o leite vem da caixinha? Ou que o sal vem do saquinho do mercado?

Resgatar as cadeias produtivas, conhecendo os meios de produção e o caminho percorrido por alimentos, roupas, sapatos, utensílios domésticos, eletroeletrônicos e tantos outros produtos que fazem parte do estilo de vida contemporâneo pode nos ajudar a fazer melhores escolhas. Tanto para nós mesmos como para o meio ambiente.


Mas desvendar os caminhos e decisões que fazem um produto chegar até nós – e até as nossas crianças –  nem sempre é fácil.


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Muito antes de ir do prato para estômago: os sistemas alimentares


Feche os olhos e tente se lembrar do que você almoçou hoje. Tinha feijão? Arroz? Um bifinho? Um bom vinagrete acompanhado de uma farofinha? Pense em quantos ingredientes fazem parte da sua refeição. Pense que cada um tem uma origem diferente. Pense em quanta gente trabalhou para encher o seu prato, e por quantas mãos essa comida passou antes de chegar à sua mesa. De onde veio o azeite? E a farinha da farofa? Quem plantou os tomates? Quem transportou os grãos? 

Talvez, contemplar uma mesa cheia na hora da refeição seja uma forma de ilustrar a complexidade que faz parte da produção de alimentos. Isso sem falar no depois: as embalagens que são descartadas, a comida que sobra no prato…

Para Giorgia Russo, especialista em Saúde do programa de Alimentação Saudável e Sustentável do Idec, o Instituto de Defesa de Consumidores, e Mestre pela Faculdade de Saúde Pública/USP, foi especialmente a profusão de ultraprocessados que acabou nos alienando desses saberes sobre a comida e a sua origem. “A comida chega com uma textura artificial de embalagem, de sabor, de aroma e tudo isso vai se distanciando do que é a comida in natura, minimamente processada, que a gente sabe que é a melhor escolha tanto para a nossa saúde quanto para o meio ambiente”, explica.

Ela chama atenção para o fato de que, quando se fala em produção de alimentos, o termo correto não é ‘cadeia’, mas ‘sistemas alimentares’. “Quando a gente fala em cadeia, tem uma sensação de algo linear, que começa em um ponto e termina em outro. Mas, na verdade, é tudo muito cíclico. O alimento é produzido, transportado, ingerido, depois gera um resíduo que vai pro lixão ou que volta para a terra novamente. Falar em ‘sistema alimentar’ é melhor para retratar a complexidade do processo”.  

Olhar sob essa perspectiva ajuda a entender como nossas escolhas alimentares impactam em várias dimensões. Não é à toa que o Idec acaba de lançar em parceria com a Colansa, que é a Comunidade de Prática América Latina e Caribe de Nutrição e Saúde, a Agenda para Ação: transição para sistemas alimentares saudáveis e sustentáveis no Brasil, que traz “recomendações que apontam os caminhos das mudanças que devem ser feitas - e como fazê-las - para transformar a maneira com que os alimentos são produzidos, distribuídos, ofertados e consumidos”. O documento parte da premissa que a reformulação de sistemas alimentares pode contribuir com a solução para a fome, obesidade e as mudanças climáticas.

Para Giorgia, resgatar a origem e os caminhos dos alimentos é muito importante para desenvolver o senso crítico de crianças e jovens. “Quando a gente limita a nossa escolha alimentar a um alimento saudável ou não-saudável, acaba não desenvolvendo a criticidade necessária, nem ajudando crianças e adolescentes a fazerem uma boa escolha. Quando eu coloco essa escolha dentro de um sistema, ela avança além da dimensão individual”, explica. Esse sistema envolve muitos fatores: quem plantou e onde, quem trabalhou, quem manipulou, quem transportou, como ficou conservado e depois, como será o descarte, se há uma logística reversa e qual é o impacto que fica dessa produção no meio ambiente.

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A dificuldade de fazer boas escolhas sem informação - e formação

Eu já fui uma árvore

Se pegarmos, por exemplo, uma caixa de leite, mesmo lendo com atenção o rótulo, muitas informações importantes não estão dadas. O que contém o material da embalagem, como foi pensada a questão do bem-estar dos animais, que tipo de ração as vacas consumiam, se as pessoas envolvidas na produção foram bem ou mal remuneradas.

Para Lucio Vicente, diretor-geral do Instituto Akatu, a vida nas grandes cidades e a industrialização fizeram com que se perdesse esse olhar para as origens, “essa gestão do conhecimento das coisas “. “É a cadeia de supermercado que  ‘traduz para nós’ de onde as coisas vêm. Nós vemos uma parte só, as coisas são entendidas a partir de fragmentos e as crianças são impactadas por esses fragmentos desordenados de informação”, observa. Em outras palavras: todas as escolhas que foram feitas para que um produto chegue até nós não ficam claras.

Ele explica que, embora as empresas estejam avançando em trazer mais transparência ao consumidor sobre as decisões que fazem parte da constituição de qualquer produto, é um avanço lento. “As empresas ainda estão engatinhando, principalmente em mercados como o Brasil”, explica. Para ele, isso ocorre por uma combinação de fatores. Entre eles, a ausência de uma política regulatória mais firme, que garanta uma oferta mais responsável de produtos já em um nível de produção (por exemplo, estabelecer uma legislação mais rígida sobre o uso de agrotóxicos). E também um contexto de consumo em que ainda somos muito influenciados pela publicidade. “Quem cria a demanda é o mercado. Nós ainda somos abastecidos de demanda, mas não demandamos”, explica. Sabe aquela sensação de ser impactado por um anúncio de um produto que você nunca tinha imaginado e você fica com a sensação de que nem sabia que precisava daquilo? Pois é. É porque provavelmente porque não precisa mesmo. Não é uma necessidade sua, é uma necessidade criada pelo mercado. 

Vale lembrar que essa fragmentação de informações sobre os produtos que chegam até nós esbarra em outro fator também importante, que está ligado a privilégio: a dificuldade de estabelecer conexões entre aquilo que se aprende e que se vive, que é uma consequência direta da falta de uma educação inclusiva e participativa para todos. “A pessoa vê uma notícia na TV sobre exploração do trabalho infantil e acha um absurdo, mas desconhece quais são os produtos que advém daquele sistema. Ou vê alguma floresta nativa ser queimada mas desconhece quais produtos advém daquele lugar”, observa Lucio.

Mas também há boas notícias. Lúcio enxerga no comportamento natural das crianças, de serem curiosas e perguntadoras uma oportunidade para que a família toda aprenda junto. “Especialmente as crianças desta nova geração, que tem uma relação muito mais conectada com a informação”. Veja dicas que podem ajudar:

Lembre-se que você, como adulto, não precisa saber tudo - quando a criança pergunta: “de onde vem o plástico?” Se você não souber muito bem como explicar, pesquisem juntos. O conhecimento pode ser construído de forma conjunta.


Crianças ainda não têm noção consolidada de tempo-espaço. Quando a gente fala sobre desperdício de alimento, por exemplo, traga exemplos de quanto tempo os alimentos levam para serem produzidos. Você sabia que um abacaxi leva de 18 a 24 meses para dar fruto? “Trazer para a pauta o tempo das coisas vale muito nesse sistema, porque é algo que sensibiliza as crianças”, comenta Lúcio. 


Tudo pode ser explicado, desde que com a linguagem e o nível de entendimento adequados. As nossas escolhas como consumidores podem agravar a crise climática – e talvez, sua criança já tenha até ouvido esse termo. E dá para falar sobre o assunto sem pânico. Vale explicar que essas mudanças já afetam a vida de muitas pessoas, que precisamos fazer melhores escolhas para que não falte espaço para plantar, nem chuva para regar a terra. É preciso ir encontrando uma forma de explicar adequado à idade e à maturidade de cada criança. 


Você é um adulto que pode influenciar a formação dos hábitos de uma criança. Lembre-se que grande parte do que você escolhe hoje veio dos adultos que foram modelo de tomada de decisão para você. Se você consome alimentos in natura, se tem o hábito de ler rótulos, de olhar as etiquetas de roupas para saber sobre a qualidade das composições, de não comprar por  impulso, mas pesquisar e refletir se realmente atende a uma necessidade, você já está no caminho. 

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