Já reparou que toda criança desenha?
Com giz de cera, lápis, canetinha. Com o dedo marcando o vidro embaçado em dias de frio. Na areia da praia alisada com os pés. No muro do vizinho com o barro molhado pela chuva.
Criança desenha com qualquer coisa, em qualquer lugar.
Mas e os adultos?
Quantos adultos desenham?
Ou melhor: quantos adultos continuam desenhando?

A menina sabia que era uma artista incrivel em Essa passarinha sabe desenhar! (Brinque-Book, 2026)
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Quando é que as pessoas, afinal, passam a achar que não sabem mais desenhar?
Em Essa passarinha sabe desenhar! (Brinque-Book, 2026), de Ged Adamson, com tradução de Adriane Piscitelli, havia uma menina que a-ma-va pintar. Seu avô sempre dizia que ela era uma artista incrível - e não é que até boina de artista ela tinha? Mas um dia, a menina teve uma grandíssima surpresa: Vera, a passarinha de seu avô também sabia desenhar. Foi só a menina sair para comer um bolo de chocolate para, na volta, encontrar uma autêntica obra de arte feita por Vera. O talento da passarinha era inquestionável. E a cada dia, a passarinha surpreendia avô e neta com um novo trabalho incrível, passeando por váaaaarias técnicas e estilos. “Essa passarinha sabe desenhar!”, comentava o avô.
Só que à medida em que Vera colocava as asinhas - ou melhor, os pincéis - de fora, a menina começou a sentir sua confiança abalada. A comparação era inevitável: como competir com uma passarinha tão artista?
Talvez, muitos adultos que pararam de desenhar também tenham experimentado essa sensação. Alguém ri de um desenho seu, faz um comentário torto e pronto: o lápis é deixado de lado.
Gabriela Aidar, coordenadora do Núcleo de Ação Educativa da Pinacoteca de São Paulo, onde coordena os Programas Educativos Inclusivos, acredita que o principal fator que altera a relação das pessoas adultas com o desenho é justamente o julgamento, externo e interno, que passamos a ter com nossas criações visuais. “Vamos incorporando esse julgamento conforme vamos crescendo, por meio de nossa vida escolar e da interação com outras pessoas, em sua maioria adultas, que nos ‘ensinam’ o que se imagina serem desenhos bons ou bem-feitos, baseados numa série de esquemas classificatórios. Essa vivência acaba por gerar um distanciamento e sentimento de inadequação da maior parte das pessoas adultas com relação ao desenho e a outras experimentações artísticas, como se para realizá-las seria preciso seguir um padrão considerado suficientemente bom”, explica.
A autora, artista visual e pesquisadora Aline Abreu, autora de Achou? (Companhia das Letrinhas, 2021) e Tá chegando? (Companhia das Letrinhas, 2023) traz uma reflexão que vai pelo mesmo caminho. Para ela, a questão não é o desenhar, é o saber desenhar. “O verbo saber é que causa algumas confusões. Quando vem uma ideia de eu sei desenhar, ou aquela pessoa sabe desenhar, isso vem carregado de ideias sobre o que é saber desenhar”, explica. Aline lembra que o desenho é uma linguagem do ser humano como forma de expressão e comunicação e que é também uma linguagem artística. “Acho que as pessoas sobrepõem essas coisas e criam uma expectativa sobre o que seria um ‘bom’ desenho”, reflete. E geralmente um “bom desenho”, nesses casos, é um desenho capaz de reproduzir com precisão a realidade.
Mas seria esse mesmo o papel do desenho?
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Todo mundo sabe desenhar?

Não tinha jeito: o talento da passarinha era indiscutível
Há uma frase conhecida de Pablo Picasso (1881-1973), pintor e multiartista, que diz: “Demorei quatro anos para pintar como Rafael, mas uma vida inteira para pintar como uma criança.” Rafael, no caso, é Rafael di Sanzio (1483-1520), um pintor renascentista que morreu jovem, mas que ainda é profundamente admirado pela perfeição e leveza de suas obras, sobretudo retratos de mães com seus filhos nos braços.
A frase de Picasso não é difícil de entender quando olhamos para a forma como as crianças desenham. Há algo da espontaneidade, da liberdade de criar que parece ir se perdendo conforme os anos vão passando. “A criação, e o desenho, como uma forma de criação, são necessidades humanas, e as crianças respondem a essa necessidade com espontaneidade e liberdade. Como toda forma de criação, o desenho é uma reelaboração de experiências prévias e de desejos, invenções de mundos possíveis, um diálogo entre o que sabemos, o que queremos e o que imaginamos”, define Gabriela.
Uma criança, a princípio, não está preocupada com desenhar “bem” ou parecido com o que seus olhos veem. “As crianças usam o desenho como extensão do corpo, como continuidade do gesto corporal. O início do desenho é a ideia de deixar marca, é a ideia de registrar a passagem de um corpo”, completa Aline.
Para ela, há alguns fatores, além do medo do julgamento e da autocobrança que vão afastando o desenho da vida da maioria dos adultos e que acabam deixando o desenhar e outras formas de criação como algo reservado aos artistas. Entre eles, a hierarquia que se estabelece, principalmente na educação formal, entre a palavra e a imagem – um arranjo que muitas vezes se observa também na literatura, com um olhar para o autor do texto como o autor e para o ilustrador como um coadjuvante. “Acontece muito de quando a criança aprende a escrever, ela abandona o desenho”, conta Aline. Por essa diferença de valor entre palavra e imagem, uma vez alfabetizada, as crianças tendem a escolher livros com textos mais longos e menos ilustrações. “Porque supostamente os livros com mais imagens e menos texto são livros para criancinhas e bebês”, observa.
Outro fator é que não há muito espaço no mundo adulto para fazer coisas simplesmente por fazer, por querer, sem ter que necessariamente chegar a algum lugar. Sem precisar performar, ou bater meta ou postar no Instagram. O estudo, por exemplo, vai ganhando mais importância do que atividades de arte ou simplesmente de diversão. “O desenho tem algo muito maravilhoso que é surgir de uma forma espontânea, quando você não está fazendo nada. Em uma sala de espera, esperando a comida ficar pronta, em um momento de tédio. O desenho pode naturalmente ocupar esses momentos quando ele é sem finalidade, quando é desenhar por desenhar. E há poucas coisas que têm essa qualidade”, defende Aline. É esse prazer, de fazer por fazer, que vai deixando de ter espaço conforme a gente cresce.
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Como nós, adultos, podemos continuar desenhando - e encorajar as crianças a jamais pararem?

Não é que a passarinha sabia mesmo desenhar? Mas a menina, também!
Para Gabriela, o principal é evitar ou questionar os padrões e hierarquias que classificam o que éconsiderado bom ou bonito, especialmente aquele que relaciona o bom desenho com a cópia fiel da realidade. “Em grande medida, a fotografia já resolveu isso para nós. O desenho permite que elaboremos nossas ideias e emoções de outras formas além das verbais e isso estimula nossa inteligência e abre novos caminhos de comunicação e relação com o mundo”, comenta.
Aline percebe na prática, em seus acompanhamentos de processos de criação das crianças, o quanto a ansiedade dos adultos gera uma certa frustração na criança, por não conseguir ver o que a criança imaginou e colocou naquele desenho. Ou imediatamente atrelar o valor do desenho a bonito ou feio. “Ao receber esses desenhos, porque as crianças querem uma validação e querem compartilhar, talvez uma postura mais curiosa, com perguntas, seja melhor do que tentar responder”, reflete Aline. Em vez de dizer: “Isso é um sol?” ou “Isso é uma pessoa?”, pergunte: “Me conte o que você quis mostrar aqui?” Em vez de reagir com um “olha, que lindo ficou!”, pergunte: “Como você fez essa cor?”. Assim, as crianças não vão se sentir amarradas pela obrigação de fazer algo belo, ou com alguma finalidade ou mesmo com algum sentido. Há espaço para desenhar por desenhar.
E mesmo para aqueles – adultos ou crianças – que quiserem eventualmente desenhar para qualquer finalidade - para ser artista, para mostrar para os amigos, para ter uma obra produzida por si mesmo em casa ou para presentear, é preciso lembrar o que o desenho pode nos fazer sentir.
Em Essa passarinha sabe desenhar!, quando a menina se sente intimidada por Vera, ela toma uma decisão.
“— Afinal de contas, eu não sou uma artista — falei para a Vera. — Você que é a artista.” disse a menina à passarinha, antes de entregar a ela seu “chapéu de artista megaespecial”. Vera aceita o chapéu, mas prepara uma surpresa: uma exposição com os desenhos da menina. E só ali, olhando as próprias obras pendendo na parede é que a garotinha se dá conta não só de que ela também é uma boa artista, mas que desenha porque isso a faz feliz.
E esse por si só, já é um ótimo motivo para continuar desenhando.
(Texto: Naíma Saleh)