Menarca é o nome que se dá à primeira menstruação.
Biologicamente, esse evento marca o início da vida fértil para as meninas, que passam a ter a capacidade de gerar.
Mas, simbolicamente, pode significar muito mais: a despedida definitiva da infância, a aproximação da vida adulta, o início de uma fase de descobertas sobre si mesma e sobre o próprio corpo.
Em muitas culturas, a menarca é motivo de celebração. Entre os Ticuna, um dos povos indígenas da Amazônia, a Festa da Moça Nova marca a passagem das meninas para a vida adulta. Entre as muçulmanas, a descida do primeiro sangue pode significar o uso do véu, o hijab, cobrindo cabeça e pescoço, como forma de proteger a privacidade.
A menarca é uma passagem. E pode despertar muitas emoções diferentes: de certa melancolia a um bocado de constrangimento, mas também orgulho e pertencimento.
E, talvez, uma das grandes inseguranças relacionadas à menarca seja não saber quando ela vai acontecer – e muitas vezes, ser pega desprevenida.
Em O dia em que minha vida mudou por causa de um bilhete colado em um portão fechado na Vila Ipojuca (Escarlate, 2026), terceiro da série assinada por Keka Reis, e ilustrada por Vin Vogel, é exatamente isso que acontece. O sangue desce para a protagonista, Mia.

Eu imaginei que meu corpo daria sinais, mas não. O que foi que eu fiz quando senti que tive a minha menarca, ou seja, a minha primeira menstruação, ali na frente do Bereba e do Mauro Jorge Pedrosa? Nada. Eu paralisei. E o Bereba percebeu.
— Que foi, Mia?
— Eu, eu...
— Cansou?
— Eu...
— Você lembrou que a gente tá atrasado pra primeira aula?
— Eu tô sangrando, Bereba.
“Só que quando isso acontece, ela está de treta com a mãe. Ela está tão brava, que justo nesse dia não coloca a bolsinha que a mãe preparou pra ela. É um menino que ajuda ela a escolher o absorvente na farmácia”, contou Keka, em entrevista ao Blog Letrinhas.
Embora toda menina vá passar por essa experiência, é curioso como há uma espécie de silêncio sobre o tema. Nas leituras dirigidas ao público infantojuvenil, com exceção de livros mais instrucionais, que falam especificamente sobre puberdade e apresentam o tema da reprodução, são raras as obras que falam sobre a menarca como uma experiência. “Queria tratar esse tema da menstruação fora de um lugar comum”, explica Keka. No livro, Mia passa por outra primeira vez além da menstruação: a narrativa inteira se desenrola contando a primeira vez que ela vai sozinha para a escola a pé. O que também não deixa de ser uma espécie de rito, o de passar a circular sem os pais, com autonomia, como adulto. “Eu acho que a gente tem uma geração de pais super protetores, porque o mundo está muito difícil, mas com isso também acaba fragilizando esses filhos”, ressalta a autora.
E quando o assunto é menstruação, é preciso, sim, deixar as meninas preparadas.
E os meninos, também.
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Quando é a hora de falar sobre o assunto
O ideal é antecipar a conversa, já que não há segurança sobre quando exatamente a menarca virá. Ela pode acontecer entre 10 e 15 anos, mas algumas meninas podem menstruar antes ou depois disso. “Como o desenvolvimento da puberdade geralmente começa entre 8 e 14 anos, é recomendado que esse assunto seja introduzido por volta dos 8 ou 9 anos, de forma natural e adequada à idade. Assim, quando a menstruação chegar, a menina já saberá o que está acontecendo e não viverá esse momento com medo ou vergonha”, orienta . Sílvia Saito Yamada, chefe da Equipe da Ginecologia Sabará Hospital Infantil de São Paulo (SP), e Ginecologista e obstetra, Especializada em Ginecologia Infanto-puberal.
É importante lembrar que a descida da menstruação marca o início definitivo da puberdade, mas as mudanças no corpo – e emocionais – começam antes. Entre elas, estão:
- o desenvolvimento das mamas;
- o aparecimento de pelos nas axilas e na região genital;
- aumento da transpiração, surgimento de odores corporais;
- maior oleosidade da pele e dos cabelos:
- acne.
“A menina pode ficar mais sensível, irritada, chorar com mais facilidade, ter vergonha do próprio corpo e começar a se preocupar mais com a aparência. É justamente nessa fase que os pais devem estar atentos à autoestima e à relação da criança com sua imagem corporal, evitando cobranças relacionadas ao peso ou à aparência que possam favorecer o desenvolvimento de transtornos alimentares”, explica a pediatra Simone Borges, do Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba (PR). Ela também alerta que se houver desenvolvimento das mamas, surgimento de pelos ou outros sinais antes dos 8 anos, a criança deve ser avaliada por um pediatra ou endocrinologista pediátrico para investigar uma possível puberdade precoce. “O acompanhamento regular com o pediatra é fundamental para monitorar o desenvolvimento e identificar precocemente essas alterações”, lembra Simone.
Na hora de abordar o assunto, é importante ter tranquilidade, tratando como um processo natural.
“A menstruação não deve ser tratada como um tabu, como uma situação suja ou que a menina está pronta para engravidar. Quando família, escola e profissionais de saúde conversam de forma aberta e honesta, os adolescentes encaram a puberdade com mais tranquilidade, segurança e respeito”, orienta Sílvia.
Para Simone, essa conversa sobre a menarca pode ser uma oportunidade para introduzir, de forma gradual, temas relacionados à reprodução. “Além disso, é importante aproveitar essa fase para, mais uma vez, conversar sobre proteção do próprio corpo, reforçando que ninguém pode tocar em suas partes íntimas sem seu consentimento e orientando sobre prevenção de situações de violência e abuso”, recomenda.
Assim, conforme o interesse, a conversa pode evoluir para outros temas relacionados à educação sexual, incluindo prevenção da gravidez, métodos contraceptivos e infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). “Nesse processo, a família não precisa conduzir tudo sozinha. O pediatra, que acompanha o desenvolvimento da criança, e, quando indicado, o ginecologista podem esclarecer dúvidas sobre saúde reprodutiva e orientar cada etapa de acordo com a idade e a maturidade da adolescente. A escola também é uma importante aliada, já que muitas abordam as mudanças da puberdade em sala de aula”, recomenda Silvia. Mas o principal, é trazer esse entendimento de casa.
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Quando ela vem
A “bolsinha” que Mia esquece de levar no livro O dia em que minha vida mudou por causa de um bilhete colado em um portão fechado na Vila Ipojuca é um “kit de primeira menstruação” – uma boa ideia para colocar em prática com meninas que estão se aproximando da menarca. A ideia é que seja algo que elas possam carregar consigo, para caso sejam surpreendidas. Sílvia recomenda que o kit contenha:
- um ou dois absorventes;
- uma calcinha limpa;
- lenços umedecidos (quando possível);
- um saquinho para guardar a roupa íntima, caso seja necessário.
Para Simone, também é interessante mostrar, na prática, como usar e descartar corretamente o absorvente, para que a menina se sinta mais segura caso precise utilizá-lo pela primeira vez sozinha.
“Os pais também podem explicar que pequenos escapes de sangue podem acontecer e que isso não deve ser motivo de vergonha ou constrangimento. Se a roupa manchar, ela pode pedir ajuda para se limpar e trocar de roupa, lembrando que essa é uma situação comum e faz parte do desenvolvimento”, pontua a pediatra.
Além disso, também pode ser importante procurar ajuda — seja de um amigo, de um professor, da enfermeira da escola ou de qualquer adulto de confiança. “Quanto mais acolhida e informada a meninas estiver, mais tranquila será essa experiência”, ressalta Simone.
No livro, é Bereba, namorado de Mia, que a socorre. Por isso é tão importante também envolver os meninos nesse tema. Primeiro para acabar com o tabu que cerca a menstruação. Segundo, porque de um ponto de vista muito prático, eles podem ser aliados – exatamente como acontece no livro. Se o sangue manchar a calça, um amigo pode emprestar um casaco para que a menina amarre na cintura e não fique constrangida. Se as colegas estão com cólica, o menino pode se oferecer para buscar um medicamento, bolsa quente ou até para pedir ajuda a um adulto.
Meninos que entendem a menstruação como um processo natural tendem a agir com mais respeito, deixando de lado piadas e comentários vexatórios. “Educar meninos e meninas sobre puberdade promove empatia, respeito e relações mais saudáveis”, conclui Silvia.
E é justamente de mais empatia, respeito e relações saudáveis, principalmente entre meninos e meninas, que estamos precisando.
(Texto: Naíma Saleh)