A primeira menstruação: como falar sobre isso com meninas (e meninos!)
A menarca pode despertar muitas emoções diferentes Keka Reis fala sobre o tema em seu. novo livro da série 'O dia em que minha vida mudou'. Veja mais:
O-dia-em-que-minha-vida-mudou. Esta é a repetição com aquele irresistível ar de que vamos ler algo de “bastidores” dá vínculo à série de Keka Reis, voltada aos pré-adolescentes como vocês já sabem, lançada pela Escarlate. O primeiro foi em 2017: O dia em que a minha vida mudou por causa de um chocolate comprado nas ilhas Maldivas; o segundo, em 2018, O dia em que a minha vida mudou por causa de um pneu furado em Santa Rita do Passa Quatro e, o terceiro, acaba de ser lançado: O dia em que a minha vida mudou por causa de um bilhete colado em um portão fechado na Vila Ipojuca.
Mas na conversa exclusiva que a gente teve com a autora, chamamos várias vezes de “O livro da Mia”. Talvez por conta de tamanha intimidade que a escritora consegue causar narrando as peripécias e os milhões de pensamentos por segundo dessa menina adoravelmente inventada por Keka, e que enfrenta os desafios e delícias da pré-adolescência.
Porém... lá pela metade da entrevista, Keka compartilhou uma conclusão mais recente: todos os três podemos chamar de “um livro de mãe”. “Acho que admiti só agora com esse terceiro livro e com a escrita da série de televisão, especialmente com a última temporada – que o livro da Mia é um livro de mãe. O livro da Mia nasceu quando a minha filha tinha a idade da Mia, então nasceu quando eu estava muito perdida.”

A autora Keka Reis
O terceiro e aguardado livro da série está cheio de altas emoções. Altas emoções bem cotidianas, uma das especialidades da deliciosa escrita de Keka Reis.
Porque hoje o dia começou cedo. Cedo demais. Seis e trinta e dois da manhã eu já estava no meio do caminho para a escola. Na verdade, não tinha nem saído do quarteirão do meu prédio ainda, mas gosto de pensar em meio do caminho por causa do que a minha tia Ucha vive me dizendo: Eu te entendo, Mia. É tão difícil ter essa idade. Deixar de ser criança mas ainda não ser adolescente. Parece aquelas montanhas-russas, sabe? É complexo estar no meio do caminho, nossa! Vou ter que concordar, é uma loucura mesmo, tia. Mas a minha psicóloga costuma dizer que tem coisas que só alguém que está nessa fase pode sentir. Por exemplo, o orgulho orgulhoso que toma conta na primeira vez em que vamos totalmente sozinhas para algum lugar. Pela primeira vez, eu estava indo a pé para a escola. A pé e SOZINHA. Autonomia, escolhas e outras paradas muito chiques que alguém que está no meio do caminho já é capaz de fazer. Tipo pensar seus próprios pensamentos.
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A cada livro, cada vez mais ficamos com a impressão de que a Mia está ali do nosso lado narrando tudo. E, neste livro, ela cresce em dois sentidos: tem a primeira menstruação e vence alguns obstáculos emocionais da fase. Confira trechos do bate-papo com a autora:
Keka Reis: O primeiro livro da Mia foi o meu primeiro livro! Foi o livro que me transformou em escritora.
Keka Reis: (risos) Eu provavelmente queria ser em algum lugar dentro de mim. Mas eu sou uma leitora muito leitora desde criança. E eu acho que eu tinha quela coisa, um certo fetiche pela literatura, de achar que é uma coisa muito distante da gente, sabe? Então acho que eu nem tinha coragem de dizer para mim, apesar de ser leitora e de escrever.
Keka Reis: E eu escrevia bastante para essa faixa etária. Acho que o livro da Mia surgiu por duas razões. Primeiro, algo que eu demorei para admitir - acho que admiti só agora com esse terceiro livro e com a escrita da série de televisão, especialmente com a última temporada – que o livro da minha é um livro de mãe. O livro da Mia nasceu quando a minha filha tinha a idade da Mia, então nasceu quando eu estava muito perdida.
Keka Reis: Mulheres! (risos). Tenho uma frase tatuada no braço “milhões de pensamentos por segundo”, é uma frase da Mia. Eu escrevi naquela época, tentando entender como me situar como mãe. E lembrando um pouco dessa minha passagem da infância para essa fase do “meio do caminho”. Então Mia começa com essa minha tentativa de me aproximar de quem eu fui naquela idade, e também de entender a fase que minha filha estava passando. E aí faz essa coisa maravilhosa que é o dia em que essa personagem me transformou em escritora.
Keka Reis: Eu escrevi esse livro para um concurso de literatura, mas já tinha mandado para a Companhia das Letrinhas. E então a Companhia me respondeu e eu retirei o texto do prêmio, antes do resultado. Foi meio mágico.
Keka Reis: Ah, foi incrível. Porque eu acho que eu tinha muito treino. Já para escrever para essa faixa etária, mas pouquíssima noção de que eu podia escrever de fato, escrever um livro, entendeu? Foi passinho por passinho de me permitir falar. Nossa, então eu sou a escritora. Nossa, eles estão lendo. Nossa, eles estão gostando. Nossa, foi para a escola, nossa, a editora, quer uma continuação! (risos).
Keka Reis: Mas tem uma coisa muito louca nesse livro, mesmo que é uma certa magia. Logo depois que da publicação, a gente ganhou um edital para fazer uma peça de teatro baseada nele. Os dois primeiros livros foram finalistas do Prêmio Jabuti. Ele foi ganhando um monte de coisa. E mais do que tudo, acho que o mais importante, na verdade, ele foi ganhando leitores. Então, nas escolas, e aí me transformando em autora, mesmo.
Keka Reis: Com uma angústia de mãe e um “e agora que mãe que eu vou ser?”. Eu fui uma mãe específica para essa criança que era uma criança que agora não é mais criança! E como é que faz para não cuidar mais ou cuidar desse outro jeito? Qual é esse outro jeito, entendeu?
Keka Reis: Isso por conta desse meio do caminho. Isso por conta de todas as questões que eu tinha como mãe de uma pessoa nesse meio do caminho que foram parar no livro. O primeiro livro, especialmente, fala bastante da questão da tecnologia. No primeiro livro, a Mia não tem celular. No segundo, ela tem. Eram questões que eu ia lidando no dia a dia aqui em casa.
Keka Reis: Acho que tem coisas que mudam muito, né? E tem outras que não... e são as coisas às quais eu me apego bastante. Que tem a ver com o sentimento da gente crescer e ter medo. E as angústias continuam muito parecidas. Embora o mundo tenha mudado muito.
Keka Reis: Hoje em dia, especialmente em roteiro, adoro usar o celular como parte da narrativa. Você manda uma mensagem para a pessoa, a pessoa não responde e aparece os três pontinhos que a pessoa está respondendo (risos), fica nervoso, que é uma coisa muito dos adolescentes. Aprendi a fazer de um jeito mais natural, colocando dentro da narrativa, sem forçar uma barra. É a minha obrigação.
Keka Reis: Para mim, a menstruação é um tema muitíssimo importante. Sempre foi. Eu já tinha colocado na série de TV. Tem um episódio inteiro que é o meu episódio favorito, que ela menstrua. Na série ela menstrua antes. Eu tenho uma obsessão por esse tema, justamente porque eu acho que a gente fala muito pouco sobre.
Keka Reis: Esse livro fala sobre uma coisa que tem me atormentado bastante, me preocupado bastante em relação à criação que a gente dá para esses jovens, que tem a ver com um futuro muito incerto, que eles vão encontrar lá para frente, um futuro que eles têm, que, de verdade, estar com muitas ferramentas de luta. Mesmo de luta interna, porque a gente não sabe o que vai acontecer. Eu sou uma pessoa essencialmente otimista, mas ao mesmo tempo, eu sou muito bem informada. Então não dá para dizer que a geração das nossas filhas não vai encarar uma mudança climática forte. E à medida que a gente vê o mundo se recrudescendo nesse sentido, a gente faz tudo que a gente não devia fazer com eles. A gente prende demais. E acho que para a gente conseguir com que essa juventude seja cada vez mais forte e cheia de ferramentas para aguentar o que quer que seja que eles vão aguentar lá para frente, a gente tem é que soltar.
Keka Reis: Total! Para mim, a menstruação é um símbolo de força, eu acho.
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Keka Reis: Eu tenho bastante retorno de mãe desde o primeiro livro. Um pouco uma certa gratidão às vezes, porque essa fase é uma fase que eles costumam abandonar os livros, né? Mesmo a criança que é leitora, que tem lá o hábito de leitura e sabe, que normalmente foi estimulada pela escola por um professor ou até mesmo pela mãe. Nessa fase, é uma fase que muitos abandonam, são os relatos que eu tenho. Mas também escutava, “nossa, os textos são muito generosos com a mãe”. “Você também fez a gente pensar”.
Keka Reis: É um livro que também acompanha essa transformação da relação delas inclusive. E de propósito, as incoerências da mãe e as incoerências do adulto. Porque eu acho que é muito fácil a gente apontar o dedo. Eu acho que adolescência é uma fase que é muito também fetichizada no sentido de todo mundo quer ser adolescente, quer consumir coisa adolescente, mas todo mundo chama adolescente de aborrecente. Todo mundo veste essa fase. Todo mundo fala mal. Todo mundo tem medo. Fica um pânico moral. E olham com muita pouca empatia para uma pessoa que está ali, sendo bombardeada por hormônios, indo e vindo nas sensações.
Keka Reis: Essa coisa muito divertida de você ter autonomia! E também apontar um pouco o dedo para os adultos no sentido. Ah, então vocês dizem que a adolescência é assim. Espera aí. Vocês que estão dando o exemplo errado, entendeu? Então vocês ficam falando que a gente está aqui pendurado no celular. Espera aí quem me deu o celular? Então não sei se as mães vão me agradecer mais.
Keka Reis: Mas eu acho que ela é uma mãe que entende que o filho está passando por essa fase, e que é uma fase muito legal e muito divertida.
Keka Reis: O primeiro é uma menina muito apegada à infância, que não está querendo crescer, que recebe aquele bilhetinho e percebe que não tem jeito, ela vai ter que crescer. O segundo ela está lidando com as questões que envolvem esse crescimento, especialmente em relação à turma, os pares, aquilo de pertencimento total, né? Ela vai sair de ônibus com os amigos. Mas ainda assim, falando desse afastamento da mãe. Porque tem o segredo dela nunca ter dormido sem a mãe, essa relação muito grudada... E o terceiro é ela já gostando de ter crescido, ela muito mais com uma certa autonomia e vendo o lado bom. Então, embora ela sofra bastante no terceiro livro também, ela está curtindo demais crescer.
E tem coisa melhor de se desejar aos pré-adolescentes?
(Texto: Cristiane Rogerio)
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A Escarlate existe para pensar livros para um público de 8 a 12 anos: os pré-adolescentes. Falamos das alegrias e desafios de escrever quem está em uma fase de transição tão intensa - mas que pode inspirar ótimas histórias!