O belíssimo 'lha Tempestade', dos premiados Brian Floca e Sidney Smith, reflete sobre “ansiedade climática”

12/08/2026

“Agora me dê sua mão e vamos ver o mar antes da tempestade.” Assim começa o passeio de dois irmãos em uma ilha distante de nós. Em Ilha Tempestade (Pequena Zahar, 2026), o texto do estadunidense Brian Floca (com tradução de Fabrício Valério) vai oferecendo ao leitor as percepções sensoriais do percurso deles, que dura o livro todo, permitindo-se sentir o balançar do bosque, o som do vento, o céu escuro e as marcas de que aquelas terras costumam receber as fortes chuvas. 

 

Ilha Tempestade

Os irmãos se preparam para ver o mar antes da tempestade


Vemos as ondas vindo, empurradas pelo mar, para rebentarem contra as pedras e explodirem em chuviscos que voam pelo ar e vêm lavar nossas faces. 

Ficamos ali só para sentir tudo isso, vento, rocha, onda, água!

Num turbilhão de emoções e sinais climáticos que precedem a grande chuva, a dupla decide seguir pelo caminho até a cidade, percebendo cada detalhe do ambiente e dos impactos daquela “que ousa se aproximar”. Os desenhos de Sidney Smith, autor agraciado em 2024 com o Prêmio Hans Christian Andersen, nos prendem àquele ambiente específico e ao movimento das crianças e da cidade. Mas textos e imagens vão se entrelaçando entre a poesia e o concreto a ponto de que, estejamos onde for, conseguimos reconhecer algo que nos atinge e pode atingir as crianças: a ansiedade climática. 

A obra nos faz navegar em meio a uma tempestade de trovões, locais diversos e sentimentos. Indicado a partir dos 6 anos, mostra como união, segurança e ação nos ajudam a enfrentar medos e compreender o mundo ao nosso redor. O desejo de experimentar e a confiança mútua entre eles permitem continuar o trajeto: “Você me puxa, eu puxo você, e decidimos seguir em frente” é uma espécie de bordão pela história. Quando a tempestade começa, porém, diferentes cenários e inseguranças aparecem. “Corre!”, gritam eles. 

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Informação exige cuidado

A história mostra os efeitos das mudanças climáticas, como cidades vazias e ambientes irreconhecíveis. Temos visto isso mais e mais vezes, seja no noticiário internacional – terremotos e grandes furacões – como o que se fala daqui do Brasil: as fortes chuvas, os vendavais, as perdas. O medo de desastres naturais, que instiga os personagens a seguirem de mãos dadas, pode se mostrar extremo em algumas crianças, o que a ciência chama de “ansiedade climática infantil”. Isso porque na infância os acontecimentos tomam outras proporções. 

Apesar de não ser caracterizado como um transtorno, o medo exagerado de catástrofes ambientais pode gerar tristeza, raiva e culpa, além de dificuldades para dormir e se concentrar. Preocupar-se com o planeta, sim, é saudável. O alerta vem, no entanto, quando a preocupação causa sofrimento excessivo e interfere nas atividades diárias da criança, explica a psiquiatra Jaqueline Cenci, diretora da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil (ABENEPI-Paraná).

Ela observa que menores expostos a eventos climáticos trágicos têm maior propensão a desenvolver ansiedade climática, além de depressão e transtorno de estresse pós-traumático. Mas não só eles. O excesso de informações e imagens de tragédias ambientais também pode ser perigoso se não houver filtros, de acordo com a idade. “Para algumas crianças pode motivar o engajamento em comportamentos pró-ambientais, mas para outras pode ser excessivamente angustiante ou paralisante.”

O melhor não é esconder a realidade, mas falar sobre as mudanças climáticas transmitindo segurança, esperança e mostrando que existem formas de cuidado e participação, diz a psicóloga Elaine Jungles, do Instituto de Neurologia e Cardiologia de Curitiba (INC). Ela lembra que o medo faz parte do desenvolvimento infantil e tem função importante de proteção, especialmente em situações de risco real. Por isso, devemos evitar dizer à criança para não sentir medo, mas ajudá-la a lidar com as inseguranças. “Ela precisa receber informações adequadas à idade, acompanhadas de acolhimento, segurança e esperança. Ela precisa sentir que existe um adulto presente e disponível para ajudá-la.”

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“Lar!”

Ilha Tempestade

O lar é o grande refúgio que os meninos encontram para se abrigar da tempestade

 

A segurança infantil está no lar. “Lar de alívio e de amor. Lar de problemas também!”, revela a história dos dois irmãos. E está também na escola, onde profissionais devem integrar educação ambiental e desenvolvimento socioemocional. “Projetos preventivos, como hortas, reciclagem, economia de água e ações de cuidado com o meio ambiente ajudam a criança a perceber que pode participar das soluções, reduzindo sentimentos de impotência e aumentando a sensação de pertencimento”, destaca a psicóloga.

Estudos sobre ativismo ambiental em sala de aula, inclusive em turmas do ensino fundamental, mostram que o engajamento prático em projetos empodera as crianças, ressalta Camila Rauen, psicóloga do Hospital de Clínicas do Paraná. Ela reforça que a pedagogia baseada em esperança (hope wheel, ou Roda da Esperança) é um dos modelos que funcionam como antídoto contra a ansiedade climática. “Reconhecer o problema de forma honesta, e ao mesmo tempo oferecer caminhos concretos de ação, é mais protetor do que minimizar ou catastrofizar a realidade.”

Outra maneira positiva de educar e alertar, sem instigar ansiedade, é por meio da literatura. Camila observa que as histórias permitem que a criança processe emoções difíceis a uma distância segura, através de um personagem, em vez de vivenciar a emoção diretamente. “Eles funcionam como uma ponte estruturada para o diálogo. Assim, a criança pode fazer perguntas, expressar medo sem julgamento, e ligar a história a exemplos concretos da própria vida; o que transforma o livro de uma fonte de informação em um espaço seguro de elaboração emocional.”

A leitura é ainda mais valiosa quando apresenta personagens que oferecem um modelo de enfrentamento, reforçando o protagonismo ao invés de desamparo, recorda Camila. Como encaminha-se o livro para o final da história: 


Todas as noites acabam, bem como as tempestades. 

O trovão enfraquece e vai embora. 

(...)

A noite dá lugar à alvorada. 

(...)

E você e eu seguimos em frente. 


(texto: Mauren Luc)

 

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