Lá vem ela: Suzy Lee é presença confirmada na Bienal do Livro 2026
A autora sul-coreana terá uma agenda cheia durante sua estadia no Brasil. Confira a programação:
Livro. A autora sul-coreana Suzy Lee nunca perde de perspectiva esta palavra que nomeia um objeto. É mais que a história, é mais que o texto, é mais que o desenho. Por isso, a vinda da autora ao Brasil é um dos eventos mais aguardados da Bienal do Livro 2026.
Em entrevista ao Blog Letrinhas em 2017, a Suzy Lee firma seu lugar no campo do livro para as infâncias no mundo: “Eu gosto de um livro porque é um objeto físico. Eu leio na minha mão ou no meu colo. É tátil e me dá a sensação de que está realmente na minha frente. Tem formato quadrado, tem bordas. Pode ser aumentado se aberto, tem duas faces e uma linha que as une no meio. Se de qualquer forma ele é um livro, quero fazer uma obra que seja possível porque é um livro. Se tem uma dobra entre as duas páginas opostas, eu quero fazer com que essa dobra faça parte da história – o que dá origem aos livros da Trilogia da Margem: Espelho (Companhia das Letrinhas, 2021), Onda (Companhia das Letrinhas, 2017) e Sombra (Companhia das Letrinhas, 2018).”
Esses três livros fizeram com que nós brasileiros ficássemos de queixo caído pelas obras dela. Em 2008, a extinta editora Cosac Naify trouxe para o Brasil o inebriante livro Onda (na Companhia das Letrinhas desde 2017), que narra um encontro entre uma menina e o mar. Sem palavras, Suzy Lee constroi aos poucos no leitor uma série de emoções, utilizando desenhos em carvão no papel branco e pinceladas precisas em tinta azul que personificam a “onda” como uma segunda personagem. Luis Girão, professor, pesquisador e tradutor de língua e literatura coreana na Universidade de São Paulo, e agente literário da autora no Brasil desde 2014, explica que “os livros de Suzy Lee têm a arte de trabalhar o branco do papel, o carvão para construir formas e as explosões de tinta”. E que esses elementos combinados funcionam um pouco como uma marca das obras, despertando certa curiosidade sobre a autora desde que Onda foi lançado mundialmente, em 2008, vendendo mais de 100 mil cópias – um número estrondoso quando se fala em literatura para as infâncias. “Um livro sem palavras ter repercutido tanto fez com que a partir daí Suzy Lee criasse um nome”, explica Girão.

Na obra, o diálogo entre a menina e a onda – o medo, a conquista, a coragem, o mergulhar nas próprias decisões – se dá por meio do uso da dobra do livro como narrativa, ora separando-as, ora unindo.
Este uso da dobra do livro como narrativa se tornou uma das características mais profundas da autora. Ela já havia feito isso antes, com o livro Espelho, lançado pela italiana editora Corraini em 2003, trazido pela Cosac em 2009, e relançado pela Companhia das Letrinhas em 2021. Ela completou a “trilogia” com Sombra, que chegou ao Brasil em 2010 e foi relançado em 2018. Também chegaram por aqui pela Companhia das Letrinhas Rio, o cão preto (2021), Linhas (2022), Verão (Companhia das Letrinhas, 2023) e Pássaro preto (2025), os dois últimos livros dela com textos, mas ainda com as imagens garantindo os fascinantes movimentos tão próprios de seus traços.
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A partir de um mesmo recurso, o uso da dobra como elemento da narrativa, Suzy Lee produziu três livros que são lidos de formas distintas criando diferentes experiências através de objetos de leitura conectados pela mesma lógica. Uma lógica que nem sempre é compreendida de primeira e que mais de 20 anos depois, ainda causa certo rebuliço...
Historicamente, livros-imagem causam desconforto entre leitoras e leitores adultos: aprendemos que “ler” é ato a partir da decodificação de textos. Se o “aceitamos” em nossos acervos, facilmente o conectamos a crianças ou adultos ainda não alfabetizados. Mas desde o clássico Ida e Volta (Agir, 1976), de Juarez Machado, e os livros de Eva Furnari (principalmente os com a personagem Bruxinha) e de Ângela Lago (como Outra Vez), nos anos 1980, deveríamos ter percebido que não é bem assim. No entanto, admirando a obra de Suzy Lee, temos avançado no valor da leitura de tantas outras obras. “Suzy Lee mexe com a nossa compreensão do que é um livro, tal qual Ângela Lago fazia nos anos 90”, afirma Girão.
A mineira Ângela Lago com seu Cena de Rua (RHJ, 1992) e Renato Moriconi com seu Bárbaro (Companhia das Letrinhas, 2013), se aproximam de Suzy Lee não apenas na discussão de ler livros, ler imagens. Mas, também, do uso do objeto-livro como parte da narrativa. Ou seja: o formato escolhido conta, pois todas as partes do livro importam.
É a própria Suzy Lee que nos aponta que os estranhamentos acontecem em qualquer lugar. No livro teórico A Trilogia da Margem – O livro-imagem segundo Suzy Lee (Cosac Naify, 2012, hoje fora de catálogo), ela conta algo que virou uma das grandes histórias no estudo do livro ilustrado.
Ela abre o livro com uma foto de uma dupla de páginas de Onda em que a mão da personagem desaparece na margem.

A mão da menina desaparece na margem... o que isso pode significar?
Depois, escreve: “Pouco depois da publicação do livro Onda, recebi uma mensagem do dono de uma livraria do Reino Unido sobre a ilustração contida na página anterior deste livro. ‘Estamos um pouco confusos com as páginas duplas, parece faltar alguma das partes da criança e das gaivotas. É assim mesmo? Verificamos com nosso fornecedor, com o distribuidor e com outra livraria e todos os exemplares são iguais a este. Será que não entendemos o sentido ou o impressor se equivocou? Foi um erro de impressão?’”
Mesmo tendo já conhecido o livro Espelho, em que Suzy Lee utiliza a dobra do livro para narrar sobre uma menina surpresa com seus próprios reflexos (e suas identidades), este grupo de pessoas estranhou a obra. Estranhou que a autora usasse com conforto a dobra do livro, nos colocando para imaginar duas partes de um mesmo lugar, causando dúvidas e muita curiosidade.
Ainda no início do livro teórico, Suzy Lee continua:
“Quando duas páginas de um livro são abertas, elas se tornam um único e amplo espaço. Na realidade, as páginas duplas são dois espaços separados por uma margem, mas, ao ler, o leitor tende a ignorar a dobra central da encadernação. Há uma regra editorial implícita de que o artista do livro ilustrado deve evitar desenhar no centro das páginas duplas para não perturbar a leitura. Mas o que será que acontece quando essa regra é ignorada?”
É isso que ela explora: “E se os componentes físicos do livro se tornassem parte da história? E se o próprio livro se tornasse parte da experiência da leitura?”.
É essa estreita relação com o livro como objeto que permanece, quase 20 anos depois de Suzy Lee ter se tornado um fenômeno mundial, como parte de suas obras. Girão conta que, atualmente, a autora faz parte de um coletivo de artistas chamado Vacance e que, juntamente com esses outros artistas, Suzy Lee tem desenvolvido diversos projetos experimentais, como livros feitos com dobras ou que extrapolam o formato de livro tradicional. “Ela lançou um livro que é um rolo, um pergaminho, para explorar outras formas de narrar. Mas mesmo nesse formato, o lembrete para o leitor permanece. É como se ela sempre dissesse: ‘você tem um livro em mãos”, explica o professor.
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“O trabalho da Suzy Lee me encanta pela sensação de intimidade que eu sinto, em como eu me transporto para a minha infância. São livros que resgatam um pouco desse sentimento do que era sentir o mundo como criança, de como é brincar no meu próprio mundinho com autonomia, sem a presença de adultos”, comenta Yara Hwang, co-fundadora da Livraria Aigo, uma “livraria migrante” localizada no Bom Retiro, centro de São Paulo (capital). Para ela, é a simplicidade das obras que faz com que os livros de Suzy Lee alcancem algo de universal, nos permitindo acessar nosso íntimo. “Quem não se lembra da diversão que é brincar, pular com ondinhas em uma ida à praia? É genial, é simples, é divertido. Da mesma maneira, tem a brincadeira com sombra e espelhos, né? Quem nunca ficou com metade do corpo para ‘dentro’ do espelho pensando nesse quebra-cabeça que é ter a nossa imagem refletida do outro lado? Ou pensar nas sombras, no medo do escuro, criando formas? É tudo muito reconhecível: os momentos, os sentimentos, as brincadeiras”, comenta.
Para Girão, as obras de Suzy Lee se diferenciam de outros autores coreanos, como Heena Baek, justamente por despertarem essa intimidade: “a gente se coloca dentro de um sentimento, de um lugar intimista. E as personagens que ela cria estão sempre vivendo em um estado de transição entre o real e o imaginário”. Um estado que, por essência, se conecta à infância.
Mas há ainda outro elemento: as obras de Suzy Lee nos convidam ao cuidado com o tempo. Com pressa, a leitura se esvai. Para ela, são justamente as crianças que nos ensinam um novo modo de ler. “Crianças sempre fazem a sua melhor aposta e criam suas próprias e excelentes histórias. Tudo o que deveríamos fazer é perguntar-lhes o que pensam e ouvi-las. Parece fácil, mas não são muitos os adultos que conseguem realmente esperar e ouvir as histórias das crianças quando eles leem um livro sem palavras juntos. Na maioria das vezes, adultos impacientes não são bons leitores. Eu espero que os meus leitores desfrutem um mundo que não tem respostas corretas. O livro ilustrado é uma ferramenta de conversa”, disse ela na mesma entrevista de 2017 ao Blog Letrinhas.
Ilustração de Sombra que evidencia esse jogo entre o mundo real e o mundo imaginário explorado nos limites da margem
Em entrevista à Revista Crescer pouco antes de sua primeira visita ao Brasil, em 2010, como mãe de filhos pequenos à época, a autora comentou sobre a alegria de escrever livros para crianças, especialmente ela que pede uma atenção maior de quem a lê. “Crianças sempre fazem a sua melhor aposta e criam suas próprias e excelentes histórias. Tudo o que deveríamos fazer é perguntar-lhes o que pensam e ouvi-las. Parece fácil, mas não são muitos os adultos que conseguem realmente esperar e ouvir as histórias das crianças quando eles leem um livro sem palavras juntos. Na maioria das vezes, adultos impacientes não são bons leitores. Eu espero que os meus leitores desfrutem um mundo que não tem respostas corretas. O livro ilustrado é uma ferramenta de conversa.” Esta primeira vinda ao nosso país foi que rendeu a ideia do livro teórico, a partir de conferências organizadas pela Cosac Naify, feitas por ela em diversos lugares, inclusive escolas, para falar dos processos criativos das obras.
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A autora Suzy Lee pelo fotógrafo Kenneth Kim (Fonte: Instagram)
Nascida em Seul, capital da Coreia do Sul, Suzy Lee desenha desde criança e conta na mesma entrevista de 2017 para o Blog Letrinhas que, embora os pais não fossem artistas profissionais, eles sempre foram amantes das artes e abriram sua mente à arte do mundo. Ela estudou artes em seu país de origem e também na Inglaterra, onde fez mestrado em artes do livro no Camberwell College of Arts (Londres). O exuberante Verão (Companhia das Letrinhas, 2023) ela faz inspirada em As Quatro Estações, de Vivaldi, e o dedica à mãe, pela música na infância.
A história dela no mundo editorial começa com o clássico Alice no País das Maravilhas. Foi com o protótipo em mãos, nascido do mestrado, que ela contatou a editora italiana Corraini, e tudo começou. Era 2002 e Espelho surge ao mundo no ano seguinte. Nem todo mundo sabe, mas apesar de ter se tornado mundialmente famosa entre 2008 e 2010, quando Onda estourou, é só em 2022, quando ela vence o prêmio Hans Christian Andersen de ilustração, que Suzy Lee recebe uma carta do presidente da Coreia do Sul e se torna uma celebridade por lá. “Ela já havia sido indicada antes, em 2016, ao Hans Christian Andersen, mas não ganhou”, explica Girão.
Esse reconhecimento em seu país de origem também representa uma mudança de rumo na carreira da autora. “A partir de desse momento, ela retorna à Coreia e passa a direcionar sua energia para um conhecimento nacionalista, trabalhando em narrativas folclóricas coreanas e se envolvendo, com o coletivo Vacance, em diversos projetos experimentais com um número limitado de impressões”, conta o professor. A autora também organiza exposições a partir de projetos de livros que se expandem em formatos que permitem novas formas de interação com o leitor – seja por vídeo, seja com painéis de tecido criando camadas de exposição imersivas… A ideia é extrapolar os limites da página e sentir. Da mesma forma como se sente uma obra de arte. Afinal, na Coreia, os livros são vistos assim: como uma experiência artística. E essa é uma característica importante para entender o convite que os livros de Suzy Lee nos fazem. Não é para tirar uma moral. Não é para aprender uma lição. Não é para refletir sobre um tema. A literatura de Suzy Lee é um convite para sentir. Estar. Perceber. E perceber-se. Não há respostas prévias.
Em um texto para o Blog Letrinhas, em 2019, o próprio professor Luis Girão diz: “O diferencial está na relação do sentir o objeto livro em sua totalidade, em sua materialidade física, em suas significações – tanto impressas enquanto textos nas folhas como nas sonoridades geradas pelo virar de páginas. Esse jogo sinestésico é um dos principais elementos característicos na obra de Suzy Lee, em que as percepções do leitor são exploradas durante toda a leitura, nos campos da visão, da audição e/ou do tato. Falamos aqui de uma proposta artística em que o corpo do leitor é convidado a sentir, constantemente, aquele agora de leitura. Nas palavras de Suzy Lee, parece que os seus livros dizem ao leitor: ‘Eu vou mostrar para você. Apenas sinta’. É a arte do livro em contato ardente com o corpo humano.”
(Cristiane Rogerio e Naíma Saleh)
A autora sul-coreana terá uma agenda cheia durante sua estadia no Brasil. Confira a programação:
Autora de 'Onda', a coreana Suzy Lee discute em livros-imagem os limites e as fronteiras entre fantasia e realidade
Para se preparar para as mesas e conversas que vão fazer parte da programação, separamos os livros dos nossos selos infantis que você precisa conhecer. Confira: