Pelo direito de sonhar de crianças e jovens negros

31/08/2026

Sonhar deveria ser um direito de todos. Mas não é.

Quando o passado foi corrompido e o presente não se abre em possibilidades, fica difícil imaginar um futuro. Mas é especialmente nesse cenário que o sonho precisa ser alimentado, como ferramenta de resistência e de emancipação. 

Neguinha, sim!

Sonhar é um caminho para se conhecer e para transformar, não apenas de uma perspectiva individual, mas coletiva.

É por isso que criar, cultivar e fortalecer sonhos é ainda mais importante para uns do que para outros. Na nova leva de livros de Renato Gama e Bárbara Quintino, a protagonista de Neguinha, sim! (Canoa, 2023) expande fronteiras e abre novas portas para sonhar. São quatro livros, cada um ligado a um destino, em que ela explora novos cenários e reconhece o legado da cultura africana e afrobrasileira, por meio de grandes personagens negros que fizeram história. Em Neguinha, sim! Em Sao Luís (Canoa, 2026), a protagonista passeia pela capital maranhense com sua mãe, revisitando as origens do São João e celebrando a primeira romancista negra do Brasil: Maria Firmina dos Reis (1822–1917).  Em Neguinha, sim! Em Maceió (Canoa, 2026), ela encontra com grandes figuras da música como o compositor e multiartista Hermeto Pascoal (1936-2025) e o cantor Djavan. Do outro lado do oceano, Neguinha, sim! Em Paris (Canoa, 2026), a menina passa por Porte de la Villette, encontra o ídolo Omar Sy e ainda apresenta grandes artistas da França e do Brasil, como o palhaço Chocolat [Rafael Padilha - artista afro-cubano que fez sucesso na França no início do século XX] e Grande Otelo (1915-1993) [ator, comediante, cantor e compositor que se tornou ícone da cultura popular brasileira].  Indo ainda mais longe, ela chega, finalmente ao Senegal. Seguindo os passos do geógrafo Milton Santos (1926-2001), em Neguinha, sim! Em Dacar (Canoa, 2026), ela explora novos sons, sabores e paisagens, passando por locais conhecidos como o Lago Rosa e as areias do deserto escaldante onde aconteciam as mais perigosas provas de rali do mundo. E logo depois…. volta para São Luís, fechando esse ciclo emblemático que resgata tantas referências da negritude.

Contar uma história em que uma menina negra e protagonista é livre para ocupar espaços que antes não eram acessíveis, que não eram sequer uma possibilidade, não é trivial. Muitos meninos e meninas negras nem se permitem sonhar com algo assim - é algo que nem está em seu campo de possibilidades, citando um conceito do sociólogo Pierre Bourdieu (1930-2002).

É sempre importante lembrar que foi só em 1988 que a Constituição Brasileira tornou o racismo crime. Que só em 2003 o ensino de cultura africana e afro-brasileira passou a ser obrigatório nas escolas. E ainda assim, em pleno 2026, é preciso combater um racismo estrutural, que está permanece arraigado nas escolas - basta conferir as situações de exclusão e discriminação que ainda se repetem no ambiente escolar, descritas nos Protocolos de Identificação e Resposta ao Racismo publicados ainda este ano pelo Ministério da Educação.

Por isso sonhar é um direito. Especialmente para meninos e meninas negras. Não apenas pensando no futuro, mas também no presente e no passado. Não somente pensando em sim, mas no coletivo, como vamos explicar nos próximos parágrafos.

LEIA MAIS: Protocolos de identificação e resposta ao racismo: entenda o que eles podem mudar na prática


Sonhar é para se conjugar no plural

 


Quando se fala em sonho-desejo, no que uma criança quer ser quando crescer, no que ela quer ganhar de Natal, no sonho de “ter” alguma coisa ou de ser o primeiro da turma, o educador Magno Faria, do Instituto Acaia, chama atenção para essa perspectiva do sonho como uma realização individual: “essa é uma ideia vendida há muito tempo ‘Tudo o que eu quiser, o cara lá de cima vai me dar’. Mas se o seu desejo é ser sempre o primeiro, sempre estar no topo, acho que a frustração, de fato, aparece. É impossível todo mundo estar no topo da pirâmide”. 

Há mais perspectivas de se pensar no sonho além de olhar para si mesmo. Magno fez uma dinâmica com as crianças na escola como forma de introduzir o livro Quarto de despejo, de Maria Carolina de Jesus. Ele convidou a turma a pensar no que cada um faria se ganhasse imediatamente uma nota de 100 reais - uma pequena possibilidade de realizar sonhos. Neste ponto, vale contar que 70% dos estudantes do Acaia são moradores de uma favela em São Paulo (capital). As respostas dos estudantes foram variadas. “Teve gente que falou que 100 reais não dava para nada. Um disse que ia comprar um Big Mac. O outro, uma pizza. Outro que iria colocar dinheiro no bilhete do ônibus”. E então, Magno mostrou um vídeo das redes sociais em que um homem fala que se ganhasse 100 reais naquele minuto compraria pão, mortadela e bolacha, porque ele tinha passado muita fome e muita vontade de comer esses alimentos. E que desejava comprar um saco de pão e mortadela para compartilhar com meninos que passavam fome como ele passou. 

O silêncio de repente se instaurou.

Aos poucos, surgiram diversas reflexões por parte dos estudantes e reformulações dos próprios desejos. “Foi um bom momento de trazer a gravidade de reproduzir alguns discursos. Você pode sonhar em ter um tênis melhor, mas e se você sonhasse que todas as pessoas tivessem um  tênis? Há muitos jeitos diferentes de viver nessa sociedade”, ressalta.

Ele também fala da importância do sonho, em especial para meninos e meninas negras, como essa possibilidade de mudar o futuro, ressaltando a literatura como um alargador de horizontes. “Como eu posso ser arqueólogo marinho se eu nem sei que isso existe? A construção de imaginários é fundamental nesse processo. Abrir um livro para as infâncias e ver uma menina preta com uma faixa de presidente, não é pouca coisa”, defende Magno, em referência ao livro de Henrique André e Tutano Nômade chamado Afrofuturo: ancestral do amanhã (Kitembo, 2023).  

LEIA MAIS: 9 frases para pensar a literatura afro-brasileira em imagens e narrativas

Um espaço para ouvir e acolher sonhos


A escritora e cantora Tatiana Nascimento tem um projeto de investigação de sonhos. Uma ideia que foi despertada pela escrita de uma tese, na qual ela defende que é vocação da literatura de autorias negras “desorbitar o paradigma da dor e entrar no mundo da produção onírica contemplando o devaneio, o delírio, o desejo e o sonho”, como ela mesma explica. O projeto começou a tomar forma quando ela abriu uma caixinha de perguntas no Instagram fazendo uma chamada específica para pessoas negras compartilharem seus sonhos. 

Só que a quantidade de respostas recebidas foi ínfima. Entre 40 mil e tantos leitores-seguidores, o número de pessoas que atenderam ao chamado não foi suficiente para encher duas mãos. O parceiro de Tatiana no processo recebeu mais dois sonhos. E foi só. Indignada, Tatiana resolveu abordar diretamente pessoas negras que ela conhecia. E uma delas foi a  poeta Jovina Teodoro, uma dessas pessoas que sabe manter vivos os desejos. “Ela chegou aos 86 anos tocando violão, musicando poemas de que ela gostava. Uma pessoa preta do Goiás, que soube expandir os limites da própria realidade”, conta Tatiana. Mesmo  sabendo manter vivos os seus próprios desejos, Jovina respondeu sem muito entusiasmo à pergunta dizendo que sonhos eram para as pessoas jovens, “não para as velhas” como ela. E Tatiana ficou ainda mais impactada.

Ela também pediu sonhos para outras mães pretas com crianças pequenas, uma situação  na qual ela mesma se encontrava na época, e as respostas foram dadas praticamente em coro:

 “Tati, não tenho tempo nem para descansar, imagina para sonhar!”

 “Sonhar parece um luxo meio burguês”. 

E assim por diante.

O sonho parecia algo totalmente fora da realidade.

E foi aí que apareceu algo importante nessa investigação: sonhar requer tempo. É preciso cavar um espaço para olhar para os sonhos – tanto o sonho-desejo, dos planos para o futuro, para o que se quer conquistar, para quem se deseja ser, quanto para o sonho onírico, o sonho que se sonha todas as noites durante o sono.

Foi assim que Tati teve a ideia de criar rodas de sonhos, espaços de escuta e compartilhamento de sonhos de pessoas pretas. Ela usa um pedal de loop, que permite gravar e reproduzir sons de forma contínua. E com ele vai criando uma nuvem de sonhos a partir do registo das falas de quem participa das rodas. “O desafio tem sido compartilhar sonhos com pessoas que acham muito incômodo falar sobre seus sonhos”, explica. Ela tem apresentado essas nuvens de sonhos como parte de performances artísticas. 

Tatiana já organizou rodas de sonhos entre crianças, entre pessoas LGBTQIA+, entre pessoas que cuidam (de crianças, de pessoas idosas, de animais) e em outros contextos ainda mais delicados, como em casas de passagem, que acolhem temporariamente pessoas em situação de extrema vulnerabilidade. Qual é o momento que essas pessoas têm para sonhar? Essas oficinas organizadas por Tatiana abrem espaço para isso, para que as pessoas parem, descansem e se percebam. Não à toa, ganharam o nome de “Sonhar sem dormir”.

LEIA MAIS: Azul da cor do mar - do Haiti. Uma conversa com Paty Wolff


Sonho além do desejo: o encontro entre presente e passado

“Nas rodas, eu insisto muito em compartilhamentos de sonhos oníricos, não apenas em sonhos do desejo”, explica Tatiana. Ela explica que na cultura iorubá, a orixá Iansã, também conhecida como Iá, tem como uma de suas qualidades a onira, que está relacionada ao mundo da morte. Ela é a orixá que transporta as almas para o plano espiritual. “No Candomblé, esse reino dos mortos é acessado por quem ainda está aqui na matéria  através dos sonhos. Por isso, essa orixá é, por extensão, relacionada aos sonhos”, explica. Nessa lógica, é o sonho que nos conecta ao passado, é o que nos liga à ancestralidade. Iansã funciona como uma espécie de ponte. É assim que o direito de sonhar se conecta ao afrofuturismo.

Em entrevista ao Programa Roda Viva em 2023, a escritora Ana Maria Gonçalves disse: “O afrofuturismo me permite pensar em um futuro que não tenha sido tocado pela escravidão. Ou que não tenha sido tocado por tudo que os negros sofrem no mundo hoje em dia. A imaginação é um instrumento muito importante. A possibilidade de construção social, ela só é possível se, algum dia, for imaginada. O afrofuturismo é um projeto de fuga, mas uma fuga muito consciente de um mundo de possibilidades”.

Nessa perspectiva, os sonhos são, ao mesmo tempo, ponte e porta. Ponte para acessar o passado, reescrevendo uma narrativa marcada por sofrimento e dor. E porta para abrir possibilidades para o que ainda precisa ser criado. “Os sonhos fazem um convite para não desistir da esperança, do devaneio. Coisas que um dia pareceram muito inviáveis e impossíveis, que antes eram vistas como delírio, um dia foram sonhadas por alguém”, lembra Tatiana. 

Quando alguém sonhou que pessoas negras deveriam ser remuneradas pelo seu trabalho, que mães deveriam ter direito a uma licença para cuidar dos filhos, que pessoas fossem livres para amar quem quisessem amar, os sonhos passaram de uma experiência de realização individual para uma ferramenta de transformação do coletivo. É com sonhos que as grandes transformações começam.

(Texto: Naíma Saleh)

Compartilhe:

Veja também

Voltar ao blog