A onda que virou mar: literatura sul-coreana se consolida no Brasil
Depois de mais de 15 anos da publicação no Brasil de “Onda”, de Suzy Lee, clássico da literatura infantil, a chamada Hallyu - onda sul-coreana - se consolida no país
E se você pudesse encontrar uma das autoras de livros para as infâncias que mais impacta você como mãe, pai ou outro familiar de uma criança; como mediadora ou mediador de leitura; como professor ou professora de sala de aula; como criadora ou criador de livros? Pois a Companhia das Letrinhas e algumas parcerias incríveis conseguiram proporcionar seis encontros inesquecíveis para os fãs da sul-coreana Suzy Lee, na cidade de São Paulo, de 11 a 15 de setembro. Como era de se esperar, houve muita, muita emoção, pois foram encontros de compartilhar a paixão pela arte e pela infância, dois fenômenos que nos expandem, nos ampliam a pensar mais e melhor como sociedade e mundo.

Suzy Lee veio mesmo!
Ela também esteve com crianças, promovendo uma oficina em tons de azul, prata, cinza, sobre pautas de As Quatro Estações, de Vivaldi, inspirada no livro Verão (Companhia das Letrinhas, 2024). Suzy enfrentou até a 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que bateu recorde de público! Aqui a gente conta um pouco deste percurso que ficará marcado para sempre! Em todas as atividades, a certeza de que, para Suzy Lee, mais do que estar diante de uma história, do que interpretar assim ou assado, ou se comover com uma ilustração ou uma frase perfeitamente concisa, a gente está diante de um livro. Deste objeto que é um corpo que se encontra com o corpo da gente, com o qual vamos estabelecer uma relação de afeto e memória.
Algumas horas antes do horário marcado algumas pessoas já começam a ocupar o espaço para conferências do Centro Cultural Coreano no Brasil (CCCB). No andar de baixo, à altura da calçada da Avenida Paulista, zona sul de São Paulo, a exposição “K-pop encontra a Música Tradicional Coreana” (afinal, BTS está chegando por aí, e ela fica até 11 de novembro). No andar de cima, imagens do livro Verão, tomava conta do lugar nas paredes, em panos pelo teto, pelas escadas, além de um telão com a animação do livro todo, ao som de As Quatro Estações (por John Harrison, exatamente como está no QRCode da edição). Estávamos assistindo ao e ouvindo o livro.
Enquanto as pessoas chegavam e se arrumavam no aconchegante espaço, ela, Suzy Lee, discutia os últimos ajustes do encontro numa sala ao lado. No espaço, adultos: autores e autoras de livros ilustrados, pesquisadoras e pesquisadores, professoras e professores de educação básica, pessoas de outros estados com muitas histórias para compartilhar, mas cheios de curiosidade por ouvir a autora da tal “trilogia da margem”, os livros Onda (Companhia das Letrinhas, 2017), Sombra (Companhia das Letrinhas, 2018) e Espelho (Companhia das Letrinhas, 2021), que chegaram ao Brasil a partir de 2008, pela extinta editora Cosac Naify, e reeditados pela Companhia das Letrinhas desde 2017, que também têm trazido outros inéditos para nós.
A conversa teve a mediação do professor da Universidade de São Paulo (USP), Luís Girão, agente literário de Suzy Lee, e tradutor de literatura coreana pela ARA Cultural. A tradução deste e de todos os eventos da autora foi feita por Jack Park, que trabalha no CCCB.

Luis Girão e Suzy Lee
Depois das devidas apresentações, a íntima conversa (cerca de 40 pessoas no espaço) foi iniciada com Luís fazendo a mediação de leitura de Rio – o cão preto (Companhia das Letrinhas, 2021). Pronto… quem conhecia, lembrou-se da comovente história de um cãozinho abandonado que ganha casa e muito amor dos irmãos Montanha e Mar (nomes verdadeiros dos filhos da autora), e que tem um final emocionante e até um pouco enigmático. Para quem não conhecia, foi difícil segurar o choro, o que deu o tom preciso de cumplicidade para as quase duas horas que se seguiriam.
Como ela já havia revelado ao final da edição da obra, o livro se baseia numa história real. “Eu tive um animal de estimação por 16 anos e ele ter partido me comoveu tanto, que eu nunca quis ter outro animal na minha vida. Porém, uma amiga minha tinha resgatado o Rio”, conta ela, revelando que os filhos ouviram a conversa e já ficaram eufóricos pela casa. O cão preto do tipo labrador foi para a casa deles, ganhou o nome de “Rio” e já chegou com uma doença que o levaria precocemente para um outro lugar. “A despedida já era marcada. Foi um tempo curto, porém marcante e tinha que ser registrado.”
A autora Fernanda Ozilak, fã de Suzy desde Onda, disse ter ficado impressionada com a beleza da forma que traz o conteúdo. “É tão bonito ver uma representação dessas. Fico feliz que alguém conseguiu fazer isso e tão profundo”, comentou. Suzy detalhou sobre as escolhas das cores, do formato, de ter algumas frases durante a história – ao contrário dos livros-imagem que a tornaram tão consagrada. E disse que foi justamente, digamos, uma leitura de imagem que a inspirou. “O título inicial foi Cão preto em cima da neve, não foi Rio. Ele tinha uma cor bem preta, e foi muito marcante visualmente ele brincando na neve”, conta. A mediadora de leitura Gabrielly Sierra contou que um pouco da reação das crianças na biblioteca escola em que trabalha, principalmente sobre o final. Se uns acreditam que Rio morreu, outros… “Não, ele tá sonhando, ele tá sentindo esse azul”, disse ela. O “azul” é a cor que atravessa o branco da neve com o preto do cachorro no final da história. “Falaram até que o livro tava inundando, que estava entrando água.” A materialidade, afinal, é leitura!
Suzy conta que 90% das crianças que ela já encontrou para falar sobre o livro acham que o cachorro, depois de adoecer fica bem e volta aos braços de Montanha e Mar. Mas ela ouve e aceita de tudo. “Num grupo de 10 crianças, uma criança sempre com uma cara bem triste, bem sensibilizada com a história. Eu acho que isso que eu queria: esse tipo de sentimento diferente. Quando elas perguntam: ‘ah, então o Rio encontrou, o Mar e a Montanha?’ Eu falo ‘sim, encontrou!’. Quando outras perguntam: ‘Então ele foi pro outro mundo, né?’ Então eu ‘sim, ele foi pro outro mundo!’”.
Outro educador trouxe uma emoção ao encontro. Simão de Miranda, escritor, professor e formador de leitores, se desfez de qualquer hesitação de separar o fã do profissional da educação e disse: “a capacidade que você tem de traduzir mundos inteiros, emoções tão profundas, sem uso de palavras, é algo extraordinário”, disse. “As tuas obras, Suzy, me ensinaram como autor e como professor a ouvir os silêncios das infâncias. Obrigado por existir”. Emocionada, Suzy comentou que quem faz mediação de leitura sabe isso implica em que a gente saiba interpretar mais o silêncio do que o que falar qualquer coisa. “As camadas da leitura de imagem são ainda mais ricas. E exatamente por isso que muita gente tem dificuldade de interpretar”, reflete. Até porque, pode ser algo totalmente novo. “Mas passar desse limite vai enriquecer demais a sua vida.”
A “Mostra de ilustrações de Suzy Lee” fica em cartaz no CCCB até 30 de setembro.
Chovia muito na manhã de sábado 12 de setembro em São Paulo, como foram quase todos os dias de Suzy Lee. Mas isso não alterou em absolutamente nada a empolgação das crianças (e dos acompanhantes adultos) que foram conferir a oficina “O Verão que eu compus”, no histórico prédio que hoje ocupa o Complexo Cultural Oswald de Andrade, no Bom Retiro, centro da capital de São Paulo.
O friozinho também marcou sua presença naquela manhã, mas a empolgação foi geral, esquentou com as imagens de verão de Suzy. Com a ajuda do tradutor Jack Park, Suzy contou às crianças os bastidores do livro Verão, explicou a importância do músico Vivaldi e convidou todo mundo a criar com ela, mão na massa mesmo. Tímidas no início e, talvez, a maioria tentando atravessar a barreira do idioma para se entenderem, as crianças se esbaldaram em tinta azul, lápis, miçangas, carimbos, pós coloridos e usando tudo que poderiam além do pincel: dedo, régua, papelão. Tudo dividido em estações do tipo “Vento Brilhante”, “Chuva de Retas” e “Nuvem Empoeirada”, todo mundo entrou na oficina, inclusive o agente Luís Girão e a editora Gabriela Tonelli. A parceria para que tudo corresse tão bem contou com a colaboração do artista e educador Diego Carvalho, sob a batuta de Yara Hwang, uma das criadoras da Aigo Livros, livraria do mesmo bairro.
O clima – nos perdoe o trocadilho com o tema da oficina – foi solar! Em minutos, crianças e adultos estavam ali brincando juntos de fazer arte, ao som da obra de Vivaldi, se sujando um tantinho de cor, admirando criatividades. Tinha vezes que esquecíamos que era a tal incrível Suzy Lee que estava ali, pois ela se misturou a todo mundo, encantou e encantou-se com aquela vibração das infâncias brasileiras!

Suzy Lee na oficina no Centro Cultural Coreano
O Centro Cultural Coreano no Brasil recebeu novamente Suzy Lee, desta vez para uma conversa com jornalistas e influencers da área dos livros ilustrados e livros para as infâncias. Quem a acompanhou – além do fiel tradutor Jack Park – foi a editora da Companhia, Gabriela Tonelli, que cuida dos livros da autora no Brasil.
O começo do papo foi a expectativa para a ir à Bienal no dia seguinte e o retorno dela ao Brasil 16 anos depois da primeira vez! De cara ela contou que lá de Seul, onde mora, as memórias da visita anterior estavam meio vagas mas que, passeando por aqui as lembranças foram voltando pouco a pouco – e a alegria mais ainda. E ressaltou que foi na primeira visita ao Brasil e no percurso que fez aqui, principalmente com as escolas, que nasceu a ideia do livro teórico A Trilogia da Margem – o livro-imagem segundo Suzy Lee, lançado pela Cosac Naify em 2012 e que está fora de catálogo (para desespero dos pesquisadores da área, pois o livro é considerado um dos mais fundamentais na discussão das linguagens do livro ilustrado/livro-álbum). “Enquanto discutia essa trilogia muito seriamente com leitores brasileiros — que concebi pela primeira vez a ideia para os livros da série da Margem. “Estou sempre estudando”, diz Suzy que narrou na conversa muito sobre seu livro a partir do clássico Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, resultado de seu mestrado em Book Arts, na Camberwell College of Arts, em Londres (Inglaterra).
Ressaltou também, no entanto, que, por mais que organize e reflita teoricamente, é o encontro com as crianças que mais importa, é o que a motiva explorar e experimentar mais. “Se eu não tivesse contato direto com o meu público, isso tudo não significaria tanto”, disse, completando que ficou impressionada com a atividade da manhã. “Hoje fiquei muito feliz em poder ver as crianças tão atentas, levando com seriedade a sua atividade artística. Isso me traz grande energia para eu poder focar tanto na parte teórica, quanto na produção artística.”
O Blog Letrinhas questionou se a autora tem a dimensão da importância dela no Brasil nas discussões na experiência nas escolas na prática da leitura de imagens, da leitura do livro-imagem. “Depois da conversa de ontem, muitos educadores e artistas falaram para mim de como os meus trabalhos têm influenciado demais, tem dado um novo insight sobre o próprio trabalho. Fiquei tão emocionada que fiquei até sem jeito”, contou. E então, Suzy também comentou sobre o novo livro, uma espécie de diário da vida dela com a arte – ainda inédito por aqui. No livro, conta histórias da própria infância, dos pensamentos da juventude numa época política complexa na Coreia do Sul, e também da vida após o nascimento dos filhos. Para nós, ali, ficou a potência de uma mulher que não recusa papéis da vida, mas que corre muito – como muitas de nós – para equilibrar todos os pratinhos. “Nesse capítulo do livro, queria contar sobre esse momento da minha vida, de quando me casei, me tornei mãe de duas crianças e que faltava tempo para eu trabalhar mais com arte. Deixava as crianças na creche, começa a criar, tomava um cafezinho e aí elas já voltavam (risos)”, compartilhou Suzy conosco, sempre reafirmando que são as escolhas da vida.
Por fim, questionada Suzy também deu vários exemplos sobre seu lado editora e seu lado de experimentar materialidades em livros menos comerciais e mais “livro de artista”, principalmente como parte do coletivo Vacance Project, com 18 artistas que se reúnem para criar livros mais experimentais. E então, ela mediou algumas obras aos presentes, com livros em formato sanfona, e um livro-conceito sobre opostos, a partir de uma atividade dentro de um museu, com muita brincadeira de significados. Sim, quando a gente acha que Suzy já fez tudo, sabemos que ela fez um pouco mais.
Dois Prêmio Hans Christian Andersen numa sala só! E no Brasil! Sim, foi difícil sair dessa sensação de euforia ao assistir à conversa entre Suzy Lee e Roger Mello, autor de Meninos do Mangue (Companhia das Letrinhas, 2001) Carvoeirinhos (Companhia das Letrinhas, 2009) e Inês (Companhia das Letrinhas, 2015), mediada pelo jornalista Bruno Molinero e, claro, com a tradução do coreano para o português de Jack Park, do CCCB.
Na Bienal recorde de público, o espaço do Salão de Ideias estava lotado de educadores, criadores, fãs em geral dos dois autores. A conversa foi dividida entre os trabalhos de Suzy e Roger, seus processos de criação, histórias de bastidores sobre determinados livros e a relação dos dois – extremamente em comum – de explorar as possibilidades artísticas do objeto. Falaram de escolhas de formato, materialidades específicas, cores, de desenho, de que tudo é desenho, tudo é livro, tudo é arte. “Eu amo esse mundo onde dá para brincar com essa materialidade no livro, a imagem e o texto, eu consigo dialogar através disso com o meu público”, pontuou Suzy Lee, contando ao público que a trilogia da margem – Onda, Sombra e Espelho – são livros em que a parte da dobra do livro faz parte da narrativa da história.
Roger aproveitou para emendar que a relação dos dois é mais do que serem autores de livro e serem ambos vencedores do Prêmio Hans Christian Andersen, espécie de “Nobel da literatura infantil” concedido pelo Ibby (International Board on Books for Young People). “Fui à Coreia do Sul já 25 vezes e isso definitivamente mudou a minha relação com o livro”, começou, entrelaçando a ideia das metáforas entre a palavra e imagem pois, para ele, tudo é “livro” e “desenho” e “escrita”, não há separações, não há essas diferenças, defendidas pelos estudos acadêmicos e base da sustentação do mercado editorial. “A palavra texto vem de têxtil. As metáforas ligadas ao texto verbal são muito imagéticas, né? Ponto de vista, trama, tudo é da visualidade, porque não há separação entre essas fronteiras. E o design é visual e tátil também”, citando o Enreduana (Companhia das Letrinhas, 2018) e enaltecendo o trabalho da produtora gráfica Helen Nakao. “As artes gráficas, diferente das artes plásticas, trabalham com o limite. Mas é o limite que expande, não é limite que limita. Por isso também o livro é um objeto muito teatral.”

Suzy Lee e Roger Mello na 28ª Bienal do Livro
Na plateia, houve perguntas a partir das questões da materialidade trazidas no debate. O ilustrador Pedro Ribeiro, por exemplo, falou do dilema de apresentar um projeto somente primeiro o texto ou já com as imagens a alguma editora. Eles adoraram a questão, porque o trabalho de ambos têm a ver com livro, o objeto, e não somente as partes, as linguagens em separado. “Ainda temos pavor da imagem. A gente fala que vive no mundo da imagem, mas não é o mundo da imagem. É um mundo da imagem que precisa ser rapidamente transformado em palavra, em texto verbal”, afirmou Roger. “Quando eu quero ter um livro, eu quero ter o objeto livro. Eu não quero ter o PDF dele. Eu não quero ter alguma versão eh virtual, virtualidade do livro. Tem nada contra. Amo o computador, ama o mundo virtual, mas esse objeto ele é da filosofia da matéria”, completou.
Suzy quis complementar e falou da criação de Verão. “Verão é sobre a música, então queria adentrasse na imagem do livro. Por isso que eu fiz um livro maior, o maior possível, e por isso fiz essa esse sobrecapa também. Nesse formato maior, queria que isso parecesse uma partitura. Por isso que eu dobrei fiz um maior. E todos esses elementos presentes fazem parte do livro. Eu montei um protótipo desse livro igualzinho a formato que eu queria que fosse impresso. Eu enviei para a editora trazendo exatamente mesmo material. Se a editora não fizesse, ela teria não entendido da matéria desse livro”, disse a autora.
Poucos viram Suzy Lee por aí. Chovia tanto, que ela pode ter descansado. Que nada: ela visitou a editora Companhia das Letras e fez reuniões com a equipe!
A terça 15 de setembro e último dia de atividades da Suzy Lee aqui também foi de muita chuva e muito calor de encontros. O Itaú Cultural, instituição dedicada à arte e à educação na avenida Paulista, foi lugar duas atividades com a autora.
Primeiramente, Suzy ofereceu duas horas de oficina a criadores de livros, selecionados para um grupo de 25 pessoas. A ilustradora e editora Amanda Bahia foi uma delas e destacou como Suzy conseguiu passar aos participantes de forma concreta as questões de realidade e fantasia pensando o livro como objeto. “Ela falou que se torna meio óbvio pensar o livro como objeto, como espelho de corpo todo. Mas que esse foco no óbvio se torna extraordinário”, contou, o que é essencial para quem faz livros. “E nos disse que, na criação, além de só pensar, deixar o corpo agir, deixar o corpo falar. Se a gente está muito preso a achar uma solução que a gente não consegue, tentar expressar essa solução com o nosso próprio corpo, para assim vir as ideias”, completou Amanda. A partir daí ela propôs à turma os exercícios de neuroplasticidade, fazer coisas diferentes com as mãos. Por exemplo a direita estar fazendo uma coisa e a esquerda, outra. “E então ela fez com que duplas de pessoas desenhassem espelhado, uma a imagem da outra. Depois, com cada mão, o mesmo desenho, depois desenhos diferentes.”
A autora dos nossos selos, Fran Matsumoto, também participou da oficina e compartilhou os desenhos produzidos!

Desenhos da ilustradora Fran Matsumoto na oficina com Suzy Lee
Às 19h o Itaú Cultural lotou seu saguão de entrada. De um lado, a Aigo Livros vendendo livros da Suzy Lee e criando a expectativa dos autógrafos com a autora – que, sim, em todos os encontros sentou-se pacientemente para escrever nos livros dos fãs. Mas o horário estava marcado para uma conversa com o autor Renato Moriconi, de Bárbaro (Companhia das Letrinhas, 2013), Uma Planta Muito Faminta (2021) e Estátua (2024). A mediação da conversa ficou por conta da pesquisadora das questões do livro-álbum Dani Gutfreund. Sim, pela última vez nessa temporada, Jack Park fazendo possível a conversa entre português e coreano.
A sintonia entre os dois, que haviam se conhecido presencialmente no dia anterior, foi o tom do encontro. Renato, conhecido por suas falas profundas intelectualmente mas recheadas de humor, ficou até constrangido de quanto a autora coreana admirava a obra dele. Por outro lado, Suzy ficou comovida e alegre com as observações de Renato sobre a obra dela. Em comum, o amor por narrar histórias com imagens e pelo retorno das crianças. Ao apresentar a biografia de cada um, Dani salientou: para Renato, o livro-álbum é uma obra criada na fronteira das linguagens; para Suzy, é a arte que a gente carrega com a gente.
Renato abriu falando sobre o livro Sombra e a frase que escreveu para a contracapa: “Sombra é um elogio à potência do discurso e do silêncio das imagens. Poesia em luz e sombra”, leu e brincou com a plateia: “Cara, eu disse isso aqui! (risos)”. E emendou profundas questões filosóficas, trazendo o Mito ou Alegoria da Caverna, escrito pelo grego Platão em A República, no século IV a.C. Sombra narra as possibilidades que uma criança pode viver brincando com as sombras em um cantinho qualquer de uma casa. Além da brincadeira em si, Suzy surpreende o leitor usando a dobra da página, o meio do livro, como o limite entre o real e a fantasia, fazendo um contraponto entre a página de cima e a de baixo. “É lógico que o o mito, a alegoria da caverna não fala só sobre a imagem, tem uma metáfora para outros elementos também da vida que a gente tem aqui, mas ele ele trata da imagem também. Mas eu acho lindo que ela mostra ‘olha aqui, isso aqui é um mundo real e aqui embaixo e eu posso pegar a realidade e transformar em outra coisa’, pela característica própria da pela própria natureza da sombra. Assombrar faz parte da realidade. Ela não é algo que tá alheio à realidade”, disse, ressaltando que o livro na infância é um espaço de abstração.
Compartilhando da escolha de abordar o “poder da imagem” trazido por Renato, Suzy começou falando da perspectiva das artes visuais, citando Rembrandt e as relações das pessoas com as obras de arte, e chegou a um livro que ainda não tem edição brasileira chamado My Bright Atelier (Meu Ateliê Iluminado), onde ela fala sobre os artistas visuais que ela conheceu na vida. Na história, conta Suzy Lee, uma professora de artes pede que se desenhe a água. E aí vem a pergunta: como se desenha a água? É só pintar de azul? E a professora diz: “olha, você tem que observar bem”. E então, trata-se de ver que a água tem reflexos das nuvens, tem os peixes: desenhar a água sem desenhar a água. E aí nos deu uma rápida aula de história da arte, citando, a obra Três Mundos, de artista holandês Escher. “Fiquei pensando por que ela tinha esse nome”, começou Suzy. “Eu fiquei chocada ao ver que o artista representou o que tem dentro da água e o mundo fora da água. Essa força da imagem e essa característica de contar uma história de uma vez.”

Suzy Lee muito bem acompanhada por Renato Moriconi e Dani Gutfreund
Dani Gutfreund abordou com Suzy Lee a questão da nomenclatura “livro-imagem” ou “livro silencioso” (silent book, traduzindo do inglês). “Se diz que os livro imagens são muito eloquentes para serem chamados de ‘livros silenciosos’. No entanto, Suzy em seu livro em Pensamentos Tangíveis, livro que ainda não está no Brasil, olha para o termo ‘livro silencioso’ por outro viés e com muita profundidade e generosidade, revela a importância que dá ao leitor. ‘O termo’, ela diz, ‘abre o espaço do leitor’”, disse a pesquisadora. “Você continua, dizendo que nesses livros ao invés de seguir uma voz, a gente escuta a nossa”. E segue citando trechos do livro, traduzindo da versão em italiano: “A história está em você. Está no seu coração. O livro-ábum é só uma chave que ajuda a abri-la”, completou.
Em sua apresentação no powerpoint, Suzy trouxe também fotos com intervenções das crianças nos espaços “vazios” de seus livros-imagem. “Nos meus livros têm mesmo espaços. E as crianças ficam incomodadas com esses vazios, e acabam escrevendo duas próprias histórias”, disse ela, mostrando ao público as fotos com as escritas das crianças. “Essa criança ficou ofendida com o que ela chamou de ‘preguiça da autora’ em desenhar. ”

Renato amou as intervenções. “Adoro o desrespeito das crianças com autor. As crianças são as melhores leitoras. Eu tô lendo e eu vou fazer o que eu quiser”, disse e lembrou de uma história com seu livro Uma Planta Muito Faminta, em que a criança arrancou a última página por não concordar com o desfecho. “As crianças são grandes leitores de imagem”, completou. “O silêncio é apenas uma abstração. Você tem uma imagem no fundo branco, você já chama o branco de silêncio. Mas não necessariamente é”.
Suzy, então, traz para a roda o livro Estátua, de Renato. “Aqui nesse livro a gente pode acompanhar as crianças brincando, interagindo, até nem dá para ver muito a expressão facial, mas dá para sentir essa tensão, alegria, a emoção das crianças”, afirmou.
Mesmo com a chuva encharcando todos os dias em que Suzy Lee esteve entre nós, podemos dizer que vivemos uma espécie de Verão particular. Experienciando certa sinestesia, como acontece no livro, entre o que vimos, ouvimos, sentimos, provamos. Misturando palavras e cores, tintas e risadas, comoção e criação. E assim, em meio a uma São Paulo encharcada, vimos nosso próprio arco-íris se formar.
(texto Cristiane Rogerio)
Depois de mais de 15 anos da publicação no Brasil de “Onda”, de Suzy Lee, clássico da literatura infantil, a chamada Hallyu - onda sul-coreana - se consolida no país
Além de 'Onda', você já conhece as outras obras dela que fazem parte do nosso catálogo? Confira a lista
A vinda da autora ao Brasil é um dos eventos mais aguardados da Bienal do Livro 2026. Veja por que Suzy Lee é tão celebrada: