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Companhia das Letras
QUASE TUDO
Danuza Leão



1

Quando eu tinha vinte e nove anos e era bem bonita - hoje me dou conta -, houve um momento em que engordei quatro quilos. Como sempre tinha sido um fiapo e continuava com cinqüenta e dois centímetros de cintura, mesmo depois de ter tido três filhos, dava para se perceber a diferença. Um dia fui almoçar na casa de meus pais, e, logo que entrei, meu pai me disse: "Danuza, você está um monstro".
Monstro eu não podia estar, mas era outra pessoa; não só pelos tais quatro quilos, mas sobretudo porque, depois de terminar meu casamento com Samuel Wainer e ter tomado outro rumo na vida, com Antônio Maria, havia mudado de personalidade.
Samuel foi o único homem que nunca tentou me modificar. Ao contrário: ele me estimulava a ser cada vez mais eu mesma, a me soltar, a desenvolver minha personalidade. Extremamente inteligente e vivido, achava que essa era a estratégia certa para conservar um casamento. Costuma ser, só que não foi.
Com Antônio Maria aconteceu tudo ao contrário: ele me transformou numa pessoa diferente. Ele também mudou; do homem divertido e boêmio que era, virou outro. Largou os amigos - testemunhas de um passado sentimental tumultuado - e, sem que nada fosse dito explicitamente, exigiu o mesmo de mim. No fim de algum tempo, éramos outros - aliás, bom título para um bolero.
Demorei a compreender o que meu pai quis me dizer, na sua franqueza: eu não era mais a mesma. Meio gordinha, usando saias mais compridas para cobrir as pernas, rindo discretamente, falando só coisas sensatas.
Quieta, inibida, não dizia o que sentia ou achava. Sem pensar, sem ter opinião sobre nada, só podendo gostar do que Antônio Maria gostava e achando bom não ser nada, que é uma maneira cômoda de viver mas dificilmente dura. O comentário de meu pai fez acender a luz amarela; me olhei no espelho, refleti sobre minha vida e vi que era outra. Comecei a desconfiar que o amor não é tudo; até é, enquanto se está amando, mas, para viver uma paixão, é preciso renunciar à própria vida, uma opção perigosa que não costuma ser eterna.


Quem pensa que uma infância feliz é aquela que segue os moldes tradicionais está enganado. Essas coisas de pai e mãe que conversam, perguntam pelas notas do colégio, contam histórias, dão beijos, fazem carinho e dizem que os filhos são lindos e inteligentes, tudo isso deve ser muito bom - ouço falar, mas desconheço. E, como desconheço, nunca me fez falta. Puxando pela memória, não me lembro de algum dia ter recebido um beijo de minha mãe ou do meu pai. Não que eles não gostassem de mim; eram desse jeito.
Nasci em Itaguaçu, uma pequena cidade do Espírito Santo que demorou a aparecer no mapa; meu pai, Jairo - dr. Jairo, como ele gostava de ser chamado -, e minha mãe viajaram de trem para lá no dia em que se casaram, em Cachoeiro de Itapemirim. Em Itaguaçu, que só tinha uma rua, meu pai começou sua carreira de advogado.
Mudamos para Vitória quando eu tinha quatro meses, e ouvi contar que tive uma ama-de-leite chamada Dercília. Também ouvi contar que meu pai detestava choro de criança e que, quando eu acordava à noite, aos berros, Dercília me tirava da cama e me levava para o quarto dela, nos fundos da casa.
Meu avô paterno se chamava Herodoto, assim mesmo, sem acento; a gente pronunciava He-ro-do-to, com a tônica no do. Ele tinha um cartório em Vitória, e seus irmãos, Kosciuszko e Aristóbulo, eram donos de um importante educandário da cidade, o São Vicente de Paulo. Os três eram muito elegantes, usavam terno branco e sapato de duas cores; Kosciuszko, poeta e professor, pertenceu à Academia Espírito-Santense de Letras. Fico imaginando quem teria sido meu bisavô, para batizar os filhos com esses nomes, que, descobri na internet, hoje são nomes de rua em Vitória.
Meu avô me adorava - pouco antes de morrer tuberculoso em Barbacena, quando eu tinha três anos, mandou botar meu nome, bem grande, em ferro batido, na fachada da casa onde morávamos. Pobre do meu avô: por causa da doença, seu prato, seu copo e seus talheres eram separados dos outros e ele não podia nem chegar perto de mim para fazer carinho. Ele tinha também uma irmã, "mamãe" Aninha, que dirigia um internato numa praia perto de Vitória. Contam as más-línguas da família que, à noite, ela pegava um cavalo e saía galopando pela praia, nua. Torço para que essa história seja verdadeira.
Quando minha avó morreu, deixando três filhos, meu pai tinha dois anos. Meu avô casou de novo e teve mais dez. Sua casa era barulhenta, os irmãos de meu pai brigavam alto, falavam alto, riam alto; eram todos, como se diz hoje, bichos desgarrados. Meu pai, que tinha uma capacidade invulgar para pensar o futuro, guardava moedas numa caixa, sabendo - achando - que um dia, fora de mercado, elas seriam preciosas. Ainda lembro de umas enormes, de quatrocentos réis, mas não sei que fim levaram.
Desde garota eu adorava o mar; morávamos na praia do Canto, e minha distração predileta era arrancar mexilhões e ostras das pedras para comer na hora. Eu era uma menina solta, que passava as férias descalça e à tarde ia esperar a chegada dos pescadores para levar uns siris que sobravam na canoa.
Nos fundos de nossa casa havia um quintal tosco, de terra batida, onde eu passava boa parte do dia. Além das mangueiras, tinha uma touceira de bambu e umas pitangueiras; tinha também um galinheiro e um galinho garnisé de estimação. Quando a empregada corria com um facão atrás de uma galinha, para fazer um molho pardo, era aquela zoeira, uma sangueira enorme, e, quando a travessa chegava com a galinha acompanhada de polenta, que na minha terra se chama angu, vinham junto a moela, o coração, o fígado e um cacho de ovinhos de vários tamanhos - e era sempre uma briga pelos ovinhos. Mas o que mais se comia em casa eram grandes peixadas e tortas capixabas, regadas a azeite e leite de coco, e com muito coentro.
Aos domingos, o ritual mudava: almoçávamos mais tarde, e de aperitivo meu pai cortava uma lingüiça em rodelas, botava numa travessa, regava com álcool - de farmácia - e acendia um fósforo. A lingüiça ficava com um gostinho de carvão, era degustada com farinha e pimenta, e meu pai tomava uma cachacinha (só uma). Sempre comidas alegres, coloridas, fortes; ninguém tinha que esperar o almoço acabar nem pedir licença para sair correndo da mesa; era uma vida quase de roça.
Na nossa casa, tudo se comia com pimenta, até ovo frito, mas só pimenta fresca - havia vários pés no quintal, e elas eram colhidas, madurinhas, na hora do almoço e do jantar. "Se não chorar, não vale", dizia meu pai. E lá ia eu, com cinco, seis anos, esmagar as pimentas com a faca, as lágrimas rolando. Toda manhã passava o leiteiro, puxando um burro que levava duas grandes vasilhas de latão. Na volta ele nos dava o resultado daquele sacolejo: uma bola de creme fresquinho, melhor do que qualquer creme de leite da Normandia. Depois do jantar eu sentava no chão com as filhas da empregada, e ficávamos sem fazer nada ou, às vezes, brincávamos com pedrinhas; ninguém contava histórias, não havia hora para dormir, só se ia para a cama quando o sono chegasse. Não acontecia nada, e o dia seguinte ia ser igual a todos.
Perto de casa havia um cinema que meus pais freqüentavam regularmente, aos domingos; a sessão era às oito. Quando eu tinha uns sete anos, uma noite eles saíram e eu saí atrás; paguei o ingresso com uns trocadinhos que tinha, entrei com o filme já começado e fui embora antes de acabar, correndo para chegar em casa antes deles; me meti na cama, vestida, me cobri com o lençol e fiquei ouvindo, o coração fazendo tum-tum-tum. A empregada contou tudo, claro, e levei uma grande bronca. Não sei que filme era, e isso nem me importava: só queria experimentar como era estar na rua, à noite, sozinha.
Aos sete anos aprendi a ler e ganhei a coleção de Monteiro Lobato. Devo ter lido cada livro umas cinqüenta vezes - eram os únicos que tinha -, mas nunca me passou pela cabeça morar ou passar as férias no Sítio do Pica-Pau Amarelo. Nunca sonhei em ter uma avó como Dona Benta ou uma Tia Nastácia por perto. Achava Narizinho meio chata, Pedrinho mais ainda, e mesmo a Emília, para mim, era um pouco infantil; só via graça no Visconde. Meu sonho era ter o Thesouro da Juventude, só que isso jamais aconteceu. Um dia, muito mais tarde, li Balzac, depois Eça de Queirós, por quem sou apaixonada, e Nelson Rodrigues; não sou do ramo, mas acho que os três têm muito em comum. Eu leio e releio Eça, e não me canso nunca. Seus personagens são reais: românticos, cínicos, sutis, superficiais, finíssimos, profundos, e alguns não têm o menor caráter.


A outra parte da infância foi em Cachoeiro de Itapemirim, onde morava a família de minha mãe e para onde íamos nas férias.
Minha mãe era Altina, de apelido Tinoca; meu avô, Braz Lofego, um imigrante italiano que saiu de Castelluccio Superiore, em Basilicata, no sul, e chegou ainda menino ao Brasil, com o pai e um irmão, para tentar a vida em Rio Pardo, no interior do Espírito Santo. A mãe dele, minha bisavó, veio sete anos depois; quando desembarcou e viu um negro pela primeira vez, caiu em pranto.
Vovô Braz se casou com minha avó Palmira, neta de índios, e tiveram vinte filhos; oito morreram. Ele era dono de um armazém daqueles de antigamente, que vendiam tecidos, rendas, botões, arroz, feijão, fumo de rolo, cachaça, tudo; era a única loja de Rio Pardo, que também tinha uma rua só. As filhas mulheres estudaram em Vitória; eram internas num colégio de freiras, tomavam banho de camisola e só voltavam para casa nas férias grandes, pois o percurso era longo e quase todo feito a cavalo. Apesar da origem modesta, todas aprenderam a tocar um instrumento: piano, bandolim, viola ou violino. O piano chegou trazido "em lombo de homem", como se dizia. Foram dezesseis carregadores, a pé pela estrada. A família tinha um ex-escravo que fazia todos os serviços fora da casa, o Ambrósio.
Meu avô tinha uma irmã mais nova, tia Nóbila, que era italiana, falava com sotaque e tudo. Estava casada, já com dois filhos, quando apareceu o tenente Evaristo procurando pelo bando de Lampião. Não me pergunte como essas coisas podem acontecer numa cidade com uma rua só, mas aconteceu: os dois se apaixonaram. Um belo dia, tia Nóbila sumiu. Meu avô e mais um de seus irmãos, que já desconfiavam de alguma coisa, pegaram a estrada, a cavalo, e muitas léguas adiante viram Evaristo, com sua canequinha de prata com três correntes, tentando tirar água de um poço. Diz a lenda - qual a família que se preza que não tem as suas? - que Evaristo foi fuzilado no ato.
Tia Nóbila havia fugido com uma empregada, e a combinação era que se encontrariam, ela e o tenente, em Cachoeiro de Itapemirim, no único hotel da cidade, o que já era um escândalo na época, uma mulher num hotel. Dois dias depois chegou uma notícia a Cachoeiro: o tenente teria matado um dos irmãos de minha tia. Quando ela soube da novidade, botou um vestido vermelho, desceu para jantar e pediu um vinho. Foi aí que veio a notícia verdadeira.
Ela subiu para o quarto, se vestiu de preto (para sempre), alugou uma casinha perto da igreja, paga pelos irmãos, e passou o resto da vida rezando. Nunca mais voltou para o marido, que cuidou dos filhos, nunca mais pisou na casa de nenhum parente - quem quisesse vê-la que a procurasse -, mas nunca deixou de usar sapatos de salto alto.
Sua casa brilhava de tão limpa; o chão era encerado todos os dias por uma órfã que minha tia criava, o brilho puxado na mão, a escovão. Sempre tinha uma órfã nova, já que todas acabavam um dia fugindo com algum homem. A sala cheirava a cera e açúcar, pois tia Nóbila fazia licores - era especialista nisso - e os guardava na cristaleira. Licor de jenipapo nunca faltava, e as visitas tinham direito a uma gotinha, num cálice de cristal.
Foi no jardinzinho da casa dela que vi um figo pela primeira vez. As frutas da minha infância eram laranja, banana, manga, abio; pêra, maçã e uva, só quando estávamos doentes. Minha tia era tão caprichosa que, quando os figos começavam a crescer, ela os cobria com saquinhos de papel, um por um, para os passarinhos não bicarem.
A casa de tia Nóbila era pequena, mas, na minha memória, de um luxo total; o chão brilhava, e os vidros das janelas, bisotados, faiscavam como diamantes. Lembrei dela na primeira vez em que me hospedei no Grand Hotel et de Milan, em Milão (o nome é assim mesmo), onde o chão e os vidros das janelas também brilhavam. Esse hotel, o mais belo de todos que conheci, fica na via Manzoni, pertinho do famoso Teatro alla Scala. Nele se hospedavam D'Annunzio, La Callas, Nureyev, Hemingway, e foi lá que viveu por muitos anos - e escreveu várias óperas - Giuseppe Verdi. Quando o maestro estava doente, já perto de morrer, as ruas em volta do hotel foram forradas de palha para que o barulho das carruagens não o perturbasse.
Minhas tias só tinham uma perspectiva na vida: arranjar um marido. Toda noite, das sete às oito, elas passeavam na praça. Se meu tio Hugo, que não fazia nada a não ser jogar sinuca, soubesse que uma delas tinha sido vista falando com algum rapaz, dava uma surra de cinto, surra mesmo. Rosina, minha preferida, nunca se casou; era meio de praxe que a mais velha ficasse solteira para ajudar a criar os irmãos. Ela foi a pessoa mais doce, amorosa e prestativa que conheci (capaz de passar a noite em claro costurando um vestido para mim). Um dia eu trouxe para tia Rosina, de Paris, um casaquinho de tricô, que ela só vestiu em raras ocasiões, para não gastar - isso aos noventa e quatro anos.
A família Lofego deixou Rio Pardo antes de minha mãe casar, calculo que por volta de 1930. A casa de minha avó materna, em Cachoeiro, era um sobrado. No térreo ficava o armazém do meu avô, já mais abastado do que em Rio Pardo; em cima, morava a família. Na parte da frente, que dava para a praça, havia uma sala com sofá e algumas poltronas do mesmo tecido, e o piano. A sala ficava fechada, escura, e só se entrava lá quando havia visitas. No centro da casa, tinha uma ampla sala de jantar e, nos fundos, os quartos, dando para o rio.
Ah, o rio. Não era grande o suficiente para que nele transitassem barcos, mas também não era um riacho; devia ter uns cinqüenta metros de largura, e a água era suja, barrenta. Claro: era a lata de lixo da cidade. Na época as cozinheiras jogavam nele, pela janela, cascas de laranja e todas as sobras de comida. Às vezes uma enchente inundava tudo, e era uma sensação passear de bote pelas ruas. Mas meu sonho mesmo era tomar um banho naquele rio, coisa que nunca aconteceu. Uma das minhas grandes frustrações.
Nas noites de domingo minhas tias faziam biscoitos, e toda vez eu ganhava um pouquinho da massa para moldar os meus, que tinham sempre o mesmo formato: uma lagartixa com olhos de feijão.
Os dois acontecimentos das férias em Cachoeiro eram visitar a fábrica de requeijão - e ter direito à raspa do fundo do tacho - e visitar a fábrica de pios. Existiam pios que imitavam todos os tipos de pássaros, para que estes caíssem na arapuca com mais facilidade. O cronista Rubem Braga, que também era da cidade, tinha um monte deles. E, para encerrar a seção Lembranças de Cachoeiro, em Castelluccio, de onde vieram os Lofego, há uma rua com o nome do meu avô.


Nara tinha um ano e eu dez quando meu pai resolveu se mudar para o Rio de Janeiro. Ele detestava cidades pequenas, onde todo mundo sabe da vida de todo mundo, e viajou primeiro. Escolheu um apartamento em Copacabana e os móveis, um conjunto de sucupira. Na época era dificílimo conseguir telefone, mas, quando chegamos, já havia dois instalados. Pai de duas filhas, mesmo que uma delas tivesse apenas um ano, ele sabia que a vida com uma linha só seria impossível.
Aos onze anos, me operei do apêndice e não quis que ninguém ficasse comigo no hospital; por incrível que pareça, consegui. Na manhã seguinte à cirurgia, minha mãe veio me ver; pedi a ela que comprasse um monte de revistinhas e fosse para casa. Minha mãe tentou argumentar, mas minha vontade era tão forte que ela não pôde fazer nada. Foi a primeira vez que fiquei sozinha por uns dias, e gostei tanto da experiência que ela depois passou a ser uma necessidade.
Para manter um mínimo equilíbrio mental, preciso ficar muitas horas do dia absolutamente só; por isso gosto de viajar sozinha, por isso prezo tanto minha liberdade, por isso cheguei à conclusão de que não nasci para ser casada. Às vezes sinto uma certa solidão, mas não é assim tão ruim. Não sei de nada melhor do que chegar numa cidade onde não conheço ninguém, sentar num café, pedir um drinque, mais outro, ficar olhando as pessoas, imaginando suas vidas - fumando um cigarro, melhor ainda. Não sei o que meus filhos acham disso, mas mãe não se escolhe; amigos e amores também não, mas estes entram e saem de nossa vida, e é assim mesmo.


Fomos preparadas, Nara e eu, para enfrentar a vida como adultas, para sermos livres e jamais dependermos financeiramente de homem nenhum - e isso aprendemos direitinho.
A cada vez que eu saía do quarto e deixava a luz acesa, ouvia a frase: "Apague essa luz, eu não sou sócio da Light". Nessa época faltava luz no Rio, com hora marcada. Quem morava em prédio ficava pela rua, esperando voltar a energia. Faltava também água - vivíamos com a banheira, panelas e baldes cheios -, e, nas poucas horas em que havia água, abríamos a torneira, molhávamos a escova de dentes, fechávamos a torneira, escovávamos os dentes e depois abríamos de novo a torneira, para enxaguar a boca. Como a água chegava sem aviso, as pessoas costumavam telefonar umas para as outras e perguntar: "Tem água aí? Posso ir tomar um banho?". O banho era de cuia, mas, quando a água chegava, eu ia correndo para o chuveiro - abria-o por um minuto, para molhar o corpo, fechava, me ensaboava, e abria de novo para tirar a espuma. Até hoje sigo essa rotina e sou incapaz de desperdiçar luz ou água.
Cansamos de ouvir do nosso pai que não se pode confiar no ser humano, que o amor não é eterno, que só podemos contar com nós mesmos, que é necessário ser forte e que a vida não é uma brincadeira. Se chegávamos exaustas do colégio, ele dizia que é bom castigar o corpo, andar na praia até não agüentar mais, tomar banho frio; ele me levava para o mar violento de Copacabana, eu ainda pequena, e me mergulhava na onda, para que eu aprendesse a não ter medo, e eu gritava, apavorada.
Meu pai não cansava de dizer também que mais importante do que os bons costumes e qualquer conveniência social é falar a verdade, sempre; que as glórias e honrarias deste mundo não têm nada a ver com a felicidade; que nada acontece sem esforço; que não adianta ensinar, só se aprende com a vida - e apanhando. E mais: que as palavras foram feitas para esconder os pensamentos e que um mergulho no mar cura tudo, das doenças às maiores aflições. Ele estava certo em muitas coisas, mas não em todas. Da mãe de meu pai, a quem não cheguei a conhecer, aprendi que, quando cai uma chuva forte, deve-se ir para a rua e lá ficar por uns dez minutos, até se encharcar, pois faz bem à saúde. Isso eu ainda faço, e acho que a humanidade se divide em dois tipos de pessoas: as que usam guarda-chuva e as que não usam.
Olhando para trás, percebo que fui uma criança feliz, mas sem brinquedos, bonecas, árvores de Natal nem festas de aniversário, por convicção do meu pai. "Datas? Mas que importância têm as datas?", foi o que ouvi a vida inteira. Ficou difícil, quando tive minha própria família, montar uma árvore no Natal. Até tentei, mas foi um fiasco, como tudo o que se faz sem acreditar.


Meu pai morava em Vitória e cursava direito no Rio. O trem fazia baldeação em Cachoeiro de Itapemirim, onde vivia minha mãe; eles se encontraram, namoraram por carta e casaram sem praticamente se conhecerem, como, aliás, era o costume na época.
Nunca tive sonhos de casamento, nunca me passou pela cabeça usar um vestido de noiva (portanto, ainda posso). O clima em nossa casa não me fazia propriamente ter vontade de constituir uma família. A fortíssima personalidade do meu pai sufocou a de minha mãe, moça delicada e sem voz, mesmo no que dizia respeito à educação das filhas. Era ele quem sabia de tudo, quem mandava em tudo, quem fazia tudo, quem decidia tudo. Trabalhava muito, era um angustiado de nascença, e se preocupava, o tempo todo, com o sustento da família. Papai não tinha amigos, não podia contar com ninguém, só consigo mesmo, e tinha pavor de morrer e nos deixar sem nada.
Ele tinha várias personalidades. Quando jovem, foi poeta e recebeu o título de Príncipe dos Poetas Capixabas; em casa era um homem sempre cansado, que se queixava de tudo e só falava sério, não brincava nem sorria. Na rua, o contrário: não havia ninguém que o tivesse conhecido que não se lembrasse dele como um excelente papo, sempre às gargalhadas e cheio de histórias para contar, permanentemente interessado em conquistar todas as mulheres do mundo. Ele não podia ver uma: a tentativa de sedução era automática, mais forte que ele. Pobre da minha mãe, que, não sabendo como agir, se encolhia dentro de si mesma, sem se manifestar. Ela me contou um dia que ficava apavorada quando me via pegar um avião, mas não ousava dizer nada, só rezava, trancada no quarto. Eu não sabia o que queria da vida, mas sabia bem o que não queria: ter uma vida igual à dela.
Minha mãe; era estranha nossa relação. Não que fosse ruim, isso não. Simplesmente não era. Jamais tivemos uma briga, uma discussão. Não que ela fosse indiferente: acho que ela não tinha coragem de me enfrentar, nem mesmo quando eu era muito pequena. Tinha por um lado uma enorme admiração por minha coragem e independência, mas nunca conversou comigo sobre assunto algum, éramos duas desconhecidas, apenas morávamos na mesma casa, e, se alguém me pergunta hoje como era minha mãe, não sei responder. Acho que ela não conseguia se comunicar, nem comigo nem com ninguém. Uma vida não vivida, penso eu. Um dia ela me contou que foi do Rio para Cachoeiro de Itapemirim, visitar a família, e num determinado momento o ônibus parou para que os passageiros fossem ao toalete, bebessem alguma coisa. Ela, que estava só, desceu, sentou-se numa mesa e tomou um café com leite; e me disse que essa foi a maior aventura da sua vida. Nunca me esqueci disso.


Tive uma educação religiosa: fiz primeira comunhão, confessava todo sábado e vigiava meus pensamentos para não pecar antes da comunhão de domingo. Morria de medo de que a hóstia batesse no meu dente e saísse sangue; afinal, era o corpo de Jesus. Aos doze anos deixei de ir à missa, e desde então só visitei igrejas em casamentos e missas de sétimo dia, ou como turista.
Estudei no Sacré-Coeur de Marie, em Copacabana. Havia um uniforme de verão - blusa de fustão branco e gravata com laço -, um de inverno, de lã azul-marinho, e um chapeuzinho de palha com a abinha virada, que era obrigatório o ano inteiro. O ônibus me pegava às onze e meia e me trazia de volta às cinco e meia da tarde. As freiras usavam grandes chapéus esvoaçantes de linho branco engomado, como as dos filmes de Fellini, e quem tinha mau comportamento passava o recreio na capela, ajoelhada no milho, se arrependendo dos pecados. Trabalhava-se muito pelas missões, vendendo docinhos e furando cartões com alfinete, igualzinho nos dancings de antigamente, mas as freiras nunca explicaram direito o que eram as tais das missões; só vim a saber muito depois, e já esqueci. A diretora era Mère Margherite, de quem eu morria de medo.
Pensando de maneira original, sobretudo para os padrões daquele tempo, meu pai me tirou da escola quando eu estava no segundo ano do ginásio. Ele dizia que diplomas não significavam nada; quis fazer a mesma coisa com Nara, mas ela, como tinha várias amiguinhas no colégio, bateu o pé e disse que queria continuar ali. (A maior amiga de Nara na época era Teresinha, filha de Mara Rúbia, uma grande vedete do teatro de revista. Mara educava a filha com mão de ferro, controlando seus horários de saída e de chegada, e ai da garota se se atrasasse.) Papai emancipou Nara aos dezesseis anos, sabe-se lá por quê.
Estudei em casa, com professores particulares, inglês, francês, matemática e português, muito português (faltou história). Eu odiava fazer redações; mal podia imaginar que décadas depois iria trabalhar num jornal. Quando comecei a escrever, tive a grata surpresa de ver que muito do que havia aprendido estava guardado na cabeça.
Durante uns anos tive aulas de piano, que detestava, e depois de violão com Patrício Teixeira, um negro elegante, sempre de terno e gravata, que mais tarde foi professor de Nara. Ele compunha também, e eu escapava dos exercícios pedindo a Patrício que tocasse e cantasse suas canções. Ficou provado que minha inclinação pela música era apenas auditiva.
Aos doze, treze anos, as meninas pensam, sentem e se comportam mais ou menos como lhes foi ensinado. Comigo isso não aconteceu, pois, tendo deixado de freqüentar a escola, que é onde se fazem amigas, eu pensava por mim mesma, sem me guiar por nada, o que me fez diferente das colegas da minha idade. Fomos, Nara e eu, estimuladas a ter nossas opiniões, certas ou erradas, sobre tudo, com toda a liberdade do mundo.
Por ter saído do colégio ainda menina, me faltou o aprendizado da convivência, digamos assim. O tempo passou, e só muito mais tarde fui descobrir que sou tímida, quem diria, e me sinto desconfortável no meio de muita gente. Não sei ter relações meramente sociais: fico amiga ou não fico nada, e o tititi mundano está acima de minhas capacidades. Adoro estar nos lugares, olho tudo, sou curiosa, gosto de ouvir o que as pessoas dizem, mas, quando elas são muitas, eu preferia ser uma mosca. Nessas horas queria ser a Danuza Leão que acham que sou.