Trecho do livro CLARICE LISPECTOR COM A PONTA DOS DEDOS

Considerações iniciais Eu que escrevia com as entranhas, hoje escrevo com a ponta dos dedos. Clarice Lispector Ninguém duvida de que nos dias de hoje haja tantas Clarices quanto se queira, não só como objeto de estudo mas também como modelo para o traçado de retratos ou trajetórias intelectuais ou espirituais. Por isso às vezes penso que é tarde demais, ou ao contrário muito cedo, para escrever sobre ela. No primeiro caso, porque grandes textos já foram publicados, e no segundo porque os ofícios celebrativos que a cada dia recobrem essa obra exigem um tempo de espera a fim de que ela possa de novo surgir em sua indiscutível e humana originalidade. Este livro começou entretanto a ser escrito, mas sem a intenção de virar livro, em 1974, ano da publicação de A via crucis do corpo. Enquanto a Academia se calava e a crítica dos suplementos culturais revelava todo o seu horror diante do que chamou "lixo", me dei conta de que as palavras tão repetidas pela escritora - dividindo a própria obra entre a literatura "das entranhas", isto é, composta sem injunções e sujeita apenas à intermitência da inspiração, e a literatura derivada da "ponta dos dedos", isto é, submetida às imposições exteriores - de alguma forma foram aceitas por quem se debruçara sobre aquela surpreendente via-crúcis. Escrevi então no calor da hora um artigo, "Ave, Clarice, ou o ovário do poema", publicado só quatro anos depois na revista carioca José. Com o passar do tempo a diferença tornou-se lugar-comum. De maneira clara ou velada - às vezes era só um constrangimento -, a melhor crítica simplesmente omitia esse livro de Clarice, implicitamente aceitando a divisão, que correspondia a duas escalas de valor. As "entranhas" teriam iniciado em fim de 1943, com Perto do coração selvagem, e se prolongariam até 1964, com A paixão segundo G. H. e A legião estrangeira. Apesar de indecisões, algumas respeitáveis, a maioria dos leitores não tinha dúvidas sobre o nível de excelência dessa obra. No entanto, a partir de 1969, com Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, abalou-se essa certeza. A recepção do livro provocou hesitações, o mesmo acontecendo com Água viva, de 1973. Mas isso ainda não era grave, e havia muitas divergências. Foi A via crucis do corpo, de 1974, que dividiu radicalmente os campos. Creio mesmo que a unanimidade a respeito do interesse despertado por A hora da estrela, três anos depois, deveu-se num primeiro momento a certo alívio: a escritora retornava ao bom caminho, embora este também contivesse muitos espinhos. Pois como absorver e explicar tantos fios soltos e tanto descaso quanto à expressão literária? Naturalmente, falo de um tempo anterior ao boom de Clarice Lispector e a sua entrada no mercado internacional, após a descoberta de seus textos pela Édition des Femmes no final dos anos 70 (Vivre l'orange, de Hélène Cixous, é de 1979), antes da servidão acadêmica à publicação compulsiva, impossível de ser absorvida, e antes do absoluto relativismo crítico dos tempos de hoje, evidência de uma crise profunda não circunscrita somente à arte. Não custa também lembrar que os textos de nossa escritora, apesar dos prêmios e homenagens, custaram a ser lidos fora de um círculo intelectual muito reduzido no Brasil. A esse respeito é curioso lembrar os aborrecimentos por que a escritora passou ao procurar editor para seus livros: A maçã no escuro foi terminado em 1954 e apenas publicado em 1961, em grande parte pelo esforço ingente de Fernando Sabino. Além de as iniciais C. L. com que Clarice assinava matérias na revista Senhor em começos dos anos 60 terem sido interpretadas como sendo de "Carlos Lacerda". Nestas páginas pretendo defender que os textos escritos "com a ponta dos dedos" possuem uma relação profunda com o restante da obra. Sendo de temperaturas diferentes, eles retraçam um movimento coerente e circular, embora intermitente, articulando-se uns com os outros, apesar das dificuldades do que a escritora chama de "inspiração" e de seus tempos mortos. O procedimento, por si mesmo fraturado, apresenta seu resultado como um produto ao mesmo tempo vanguardista e regressivo, que é um dos entraves para a compreensão dessa obra. Se The Children's Corner também tem o seu lugar aqui, é porque entendo que a assim chamada "literatura infantil" de Clarice é elaborada com os mesmos procedimentos empregados na literatura considerada para adultos. Estrategicamente me limitando à forma, percebi que as matrizes poéticas de todos esses textos, nascendo entre fulgurações fragmentadas, são submetidas à mesma técnica de desgaste, como se a escritora "desescrevesse" o texto, na expressão feliz de Benedito Nunes, ou como um lenço de seda que continuamente se desatasse. É como se Clarice tivesse escrito apenas um livro durante toda a vida, obedecendo a modulações que às vezes quase o desfiguram, ao sabor de dificuldades pessoais e profissionais experimentadas sobretudo após seu regresso ao Brasil, em 1959. A evidência de que a obra gira ao redor de temas e motivos recorrentes, que surgem como variações de seus núcleos basilares, não é entretanto uma novidade crítica. Uma escrita da ruminação e do rodear o mesmo ponto, muitos já o afirmaram. Essa é a causa de estes meus textos a cada momento também retornarem a seu ponto de partida e a suas obsessões, mimetizando seu objeto de análise pela reiteração. Meu interesse contudo é procurar discernir a qualidade das pulsações dessa escrita, muitas vezes provocadas também por desafios contextuais. É o que procuro mostrar no capítulo "A moralidade da forma". A maneira como Clarice reagiu às cobranças políticas da hora, aliada aos infortúnios pessoais de várias ordens, acelerou o movimento incessante de dissolução e recomposição de sua obra, não raro espalhando esboços para serem mais tarde desenvolvidos em timbre diverso, ou às vezes abandonados. "Caminho em direção à destruição do que construí", afirma com amargura em A paixão segundo G. H., alinhando-se com essa frase junto a parcela significativa da produção intelectual da modernidade. Considerada publicamente "alienada" num momento politicamente delicado, deveria ter sentido, como Drummond, que as palavras, se "aplicadas com perícia", podem produzir "a morte moral, a morte literária e outras mortes provisórias". De qualquer modo, o que poderia ser fatal à sua escrita, segundo penso, conduziu a autora à realização especialmente bem-sucedida do último livro, A hora da estrela, após atravessar formas incertas, os livros-sucata, compostos de textos anteriores, a produção jornalística obrigatória, a que se acrescenta o famoso A via crucis do corpo, escrito por encomenda e ingenuamente considerado escandaloso. Mas sua leitura revela uma Clarice de outro temperamento, irônica e clownesca, que faz da língua o que quer, abandonando a famosa "monotonia" de que gostava tanto. Tinha de ir direto ao ponto, sem poder descobrir o fio à medida que o fabricava, característica que lhe dava o sentido da aventura do escrever. Por isso, surpreendentemente e por um equívoco de avaliação, segundo penso, considerava os contos magníficos de Laços de família como "exercício" apenas, privilegiando o "contorno largo" do romance, mais apropriado, segundo ela, ao que queria exprimir. Em A via crucis do corpo, entretanto, permitia-se brincar sem a menor cerimônia com vários registros, a paródia era livre, inclusive da própria obra, e o melodrama rondava, arrastando consigo uma vaga sentimentalidade absolutamente falsa. Em suma, era uma espécie de pulp fiction sem o controle do projeto - Clarice nunca teve um projeto consciente ou uma filosofia -, o que sem disfarces colocava o livro num lugar periférico, por isso mesmo escapando dele por um triz. Talvez essa façanha só tivesse sido possível por conta de sua formação literária heterodoxa - "sem nenhuma orientação", conforme afirmava -, pobreza e trabalho precoce, misturando Dostoiévski com M. Delly, escolhendo livros pelo título, adorando filmes de terror e romances policiais, afiando o gosto ao errar despreocupadamente por todos os atalhos. Essa disponibilidade arriscada ("No fundo ela não passara de uma caixinha de música meio desafinada", diz em A hora da estrela) volta com freqüência à ordenação dos textos, transformada quase sempre em rendimento estético. Ao mesmo tempo, em alguns momentos A via crucis do corpo saía do jogo assim armado e identificava o escritor por sua "neurose de guerra", causada pela violência dos tempos. Isto é, iniciava-se aí o que foi desenvolvido em A hora da estrela: uma reflexão franca sobre a própria vida e sua atividade de escritora, transformada ela mesma em clown num tristíssimo circo. Minha hipótese considera a amargura experimentada por Clarice - que se aprofundou com outros dissabores - a responsável por afirmações como "minha obra que se dane" ou "quanto à literatura mais vale um cachorro vivo", fazendo-a ampliar o patamar da mera inspiração. Por esse motivo, na problematização do lugar ambíguo do intelectual no jogo das classes, não hesitei em considerar a Clarice de "a ponta dos dedos" junto a uma linhagem inaugurada entre nós talvez com a "Elegia de abril", de Mário de Andrade, daí advindo seu sentimento de culpa, seu "crime", que se acresce à desestabilidade da arte vinda do alvor dos tempos modernos. Se a substituição do belo pelo sublime com seu prazer negativo já fora intuída por Kant, do ponto de vista de Clarice, que se autodefinia como "antiescritora", a arte já se fazia atividade mercantilizada e sem sentido, a um passo da dissolução. Introduzindo abertamente a crise, A via crucis do corpo abrigava um núcleo de sofrimento profundo, rodeado por aquela representação escandalosa que chocava pelo contraste, cujo humor negro e clima de pastelão funesto usava a fantasia supostamente interessante do assunto para agradar ao mercado. Por força não agradou, pois não tem graça nenhuma falar de sexualidade sem o charme acumulado pelos séculos e exibindo-se ora pelo direito, ora pelo avesso, segundo as convenções e a moda. Desejo em mulheres de oitenta anos, idosas que pagam pelo amor físico e brincadeiras com a Virgem Maria não são coisas fáceis de digerir, mesmo agora, trinta anos depois. E tudo feito aos tapas, escrito às pressas, alinhavos à mostra, desnaturalizando a expressão, sem erro de ritmo ou tom. Fiquei impressionada com aquela coragem, principalmente se comparamos os textos da "ponta dos dedos" com os principais traços da literatura dos anos 70, bastante apoiada em marcas naturalistas e alegóricas. Achei também que o esforço dispendido funcionara como uma espécie de treinamento, dando a Clarice forças para escrever A hora da estrela à beira da morte. Ela sabia que seu tempo estava esgotado: Haverá um ano em que haverá um mês em que haverá uma semana em que haverá um dia em que haverá uma hora em que haverá um minuto em que haverá um segundo e dentro do segundo haverá o não-tempo sagrado da morte transfigurada. Testemunho, autobiografia, legado, "arte pobre" para respeitar o material da pobreza, fiados através da arte popular e do personagem humilde. Numa construção formada de capas transparentes como a barata de G. H., a protagonista acumulava outros sentidos, fazendo também do livro, além de um libelo contra a situação do escritor não alinhado, a denúncia do abandono das classes populares. Forma precária? É, sim. Mas a dificuldade de composição de Clarice, problema sempre admitido, encontrava aí, no inacabamento da arte pobre, sua situação narrativa adequada, um pouco ao ritmo da estridente música circense, meio informe e desconcertada. Além disso, talvez essa forma precária nos faça perguntar a nós mesmos para onde foram as promessas de plenitude da bela arte em relação à vida. Em suma, ela trazia ao proscênio a questão da ética na arte, que voltou a ser discutida pelos melhores autores de nosso tempo. Penso que o livro responde ainda às questões "altas" das obras anteriores de Clarice, conduzindo as famosas iluminações a uma espécie de epifania derrisória, êxtase sem culminância, como já propunha o neutro de A paixão segundo G. H. Agora finalmente Clarice acha o que buscava, segundo o "ritmo de procura" assinalado por Antonio Candido. Além disso, a fratura identificada por Roberto Schwarz em Perto do coração selvagem, ao manter-se resolve-se, pelos motivos que comentarei no capítulo "Com a ponta dos dedos: A via crucis do corpo". A dificuldade de captar o grão dessa voz me fez ampliar o diapasão e ouvi-la ao lado dos tons de Graciliano Ramos e Katherine Mansfield - pois desconfio que é essa voz, por seu timbre de autenticidade, o que convence e desperta o interesse, em sua tentativa de casar sintaxe e "sentimento", esbarrando sempre naquele limite da materialidade que não se submete à racionalização. Isso também não será a forma que toma o sofrimento?