Memórias, sinopse e spoiler semi-mentirosos do "Glória", de Victor Heringer

12/12/2018

Por Mariano Marovatto

 

“Como era sólido o edifício Glória”. Em outubro de 2013, fui com o poeta Ismar Tirelli Neto até a casa do Victor, na Rua Machado de Assis, no Largo do Machado, dar um abraço no autor por conta do prêmio Jabuti recém-anunciado. Tiramos uma foto com o Glória em punho, livro pelo qual nutríamos um carinho especial desde a sua composição até o lançamento (no qual eu tive a sorte de dividir a mesa de autógrafos com o meu amigo). Victor estava de mudança para São Paulo e naquela noite distribuía para os amigos vários livros que decidira não levar para a cidade grande. Meses depois, já em 2014, encontrei com Victor mais uma vez, agora em São Paulo. Instalado e com um emprego na área de publicidade, me dizia ele que já estava terminando O amor dos homens avulsos, praticamente todo escrito no escritório onde trabalhava, longe do Rio de Janeiro.

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“A Glória, que já teve o seu cais, sua lagoa e suas praias, hoje vive afastada do mar. Aterros sucessivos foram afogando as águas do bairro, até que a Glória secou por completo”. É com esse trecho (que se encontra na página 213 da reedição que acaba de sair do forno pela Companhia das Letras) que Victor abre o trailer que preparou para o seu romance. Curioso pensar que O amor dos homens avulsos logo na primeira página alerte que “o mar está muito longe desse livro”. Os dois romances de Victor, apesar de cariocas, evitam as praias. (O único capítulo de Glória no qual o quase protagonista Benjamim põe os pés nas areias de Copacabana narra uma experiência bastante insólita, incômoda, tragicômica. Lembrei-me agora uma fotografia que Victor postou talvez em 2013 no Facebook, nas areias de Ipanema, se não me engano, com a legenda: “2013, o ano em que fomos à praia”, ou algo do gênero).

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Nos dias entre o primeiro e o segundo turno das eleições presidenciais brasileiras de 2018, estive na Glória, na Confeitaria Santo Amaro, última esquina da Rua da Glória, em frente à Ladeira da Glória, sentado com amigos poetas, alguns íntimos e outros conhecidos de Victor. Falamos invariavelmente sobre o Glória. No bairro semi-mentiroso da Glória que Victor inventou, provavelmente a Confeitaria Santo Amaro seria a Padaria Pão da Glória, do senhor Olavo, morador do 103 do edifício Glória, situado na ladeira da Glória, cuja maneira escolhida para morrer “chocou os corações” dos demais vizinhos do prédio, entre eles Benjamim, “o protagonista sem vocação para protagonista”. Da calçada da Confeitaria Santo Amaro é possível avistar a Taberna da Glória, tímida, mal vestida com um banner de plástico anunciando o seu nome, quase eclipsada pelo festivo Amarelinha da Glória. Não havia ninguém nas mesas da calçada, onde Benjamim tomava seus chopes invariavelmente à espera de um grande amor.

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De fato, o próprio Benjamim nos avisa que a verdadeira Taberna da Glória, frequentada por Pixinguinha, Mário de Andrade, Noel Rosa, Ari Barroso, Clementina de Jesus, Moacir Werneck, Madame Satã, Lúcio Rangel, Lamartine Babo etc. e etcétera não ficava ali originalmente: “havia sido destruída nos anos 1970 para dar lugar a uma estação de metrô”. O bar tinha o mesmo nome, mas não era o mesmo. Tal qual a confeitaria em que tomávamos o café pensando no Victor.

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Conforme lê-se na contracapa do Glória: “Os Alencar Costa e Oliveira não são uma família comum. Descritos como 'doentes imaginários', eles se comunicam com chistes e diálogos zombeteiros. Além do humor idiossincrático, outra característica os une: ninguém da linhagem morre de doença ou de acidente. A melancolia aguda, fatalidade que se repete de geração em geração, é a maldição que ronda o sobrenome. Esta talvez seja a única tradição da família – a causa do óbito, invariavelmente é o desgosto”. É dona Letícia, tia avó de Benjamim, que tem a missão em vida de escrever a teoria geral do desgosto da família. Abel, irmão de Benjamim, herdeiro dos escritos de dona Letícia, a seu modo, dá uma breve explicação da doença que, segundo sua versão, não afetaria somente os Costa e Oliveira, mas toda a raça humana em potencial:

“No início, os sintomas da doença do desgosto são semelhantes aos de uma virose comum: dores no corpo, fadiga, sensação de frio e febre. O contágio se dá por meio de toques, palavras e ações mal interpretadas ou interpretadas corretamente, o que faz com que toda a população mundial se enquadre no grupo de risco endêmico. O período de incubação da doença varia de 1 (um) dia a 190 (cento e noventa) anos. Não há prevenção. Não há terapêutica comprovadamente eficaz. Os sintomas apresentados por pacientes em estado avançado de desgosto são, entre outros: febre alta, glossolalia, alucinações, fome e sede, sonolência à noite e agitação no período diurno, longos períodos de desânimo, incapacidade de se levantar da cama, rinite, hepatite, bursite, miopia e astigmatismo, irritação nos olhos, congestão nasal, pânico e dores abdominais.”

Já dona Letícia, ao ser avisada pela mãe de Benjamim que o filho começava a sofrer de desgosto, é mais concisa que Abel e ainda sugere uma maneira de remediar: "O que o seu menino precisa é esquecer de si mesmo; os desgostosos melancólicos são ególatras de maior marca. É a natureza deles.” Segundo a pesquisa da tia avó, o primeiro Costa e Oliveira a aportar no país foi um lusitano “que, a julgar por seu diário pessoal, morrera do desgosto de ter que viver longe da amada.”

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“Numa terra radiosa vive um povo triste”. Poderia ser mais uma frase sobre os Costa e Oliveira, mas é a sentença de abertura do Retrato do Brasil, livro de Paulo Prado, a que Victor se referiu mais de uma vez em nossas conversas. Éramos jovens e eu resmungava que Paulo Prado talvez fosse apenas um playboy moralista, cheio de culpa e limitações cristãs. Victor, com os olhinhos fumegando, talvez já pensando nos Costa e Oliveira, dizia que entendia meu ponto, claro, mas que isso não tirava o brilho do texto de Retrato do Brasil. Outras máximas de Paulo Prado poderiam facilmente estar no manual de dona Letícia, como: “Por esse povo já gafado do germe de decadência começou a ser colonizado o Brasil”, ou ainda: “Os fenômenos de esgotamento não se limitam às funções sensoriais e vegetativas; estendem-se até o domínio da inteligência e dos sentimentos. Produzem no organismo perturbações somáticas e psíquicas, acompanhadas de uma profunda fadiga, que facilmente toma aspectos patológicos, indo do nojo ao ódio.”

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Se seguirmos as pistas de dona Letícia e Paulo Prado, podemos buscar a origem do desgosto em Antero de Quental e suas Causas da decadência dos povos peninsulares, naquilo que o poeta açoriano predileto de Fernando Pessoa chamava de “uma revolução funesta, funestíssima”, operadas pela decadência moral, política e econômica dos lusitanos nos últimos séculos.

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A título de spoiler para terminar esse texto, importante notar que tanto Abel quanto Benjamim não morrem no livro, mas tapeiam, estendem, disfarçam o desgosto, cada um a sua maneira. Talvez menos anterianos, os pretensos protagonistas irmãos racham à moda de Scott Fitzgerald, conforme a receita de The Crack-Up, que se trata do desgosto, mas à moda norte-americana: “Há outros tipos de golpes [desgostos], que vem de dentro, que não detectamos senão quando nos damos irremediavelmente conta de que, de certo modo, não voltaremos a ser como antes.” A solução para Fitzgerald seria desenvolver a capacidade de ver que as coisas (desgostos) são inevitáveis, mas mesmo assim “manter a decisão de as transformar”. Victor deixa em aberto a solução escolhida pelos irmãos Costa e Oliveira para não sucumbirem ao desgosto do mundo. De geniais, os personagens tornam-se geniosos em nome da sobrevivência, “vivendo tristes numa terra radiosa”, conforme termina um dos capítulos do livro de Paulo Prado. Victor, Antero, Paulo Prado e Scott Fitzgerald, dotados de uma beleza estúpida, foram todos visionários.

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Assista ao trailer de Glória, produzido pelo autor para o lançamento da primeira edição do romance (7Letras, 2012):

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Mariano Marovatto nasceu no dia primeiro de abril de 1982, no Rio de Janeiro e vive em Lisboa. Escreveu livros como Casa (7Letras, 2015) e Vinte e cinco poemas, com Chico Alvim (Luna Parque, 2015), e gravou alguns discos, entre eles: Praia (Maravillha 8, 2013) e Selvagem (Embolacha, 2016). Como pesquisador e arquivista literário, foi responsável, entre outros trabalhos, pela organização do acervo do escritor e compositor Cacaso e pela pesquisa de inéditos e estabelecimento de texto da Poéticade Ana Cristina Cesar. Doutor em literatura brasileira pela PUC-Rio, Mariano foi também apresentador e roteirista do programa musical Segue o som na TV Brasil entre 2009 e 2016. 

 

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