As personalidades brasileiras do livro "Ei, você!", de Dapo Adeola

08/10/2021

Dedicar palavras de amor, incentivo e potência a todas as crianças da diáspora negra, para que se sintam empoderadas o mais cedo possível. Essa foi a intenção do autor britânico Dapo Adeola ao escrever Ei, você! Um livro sobre crescer com orgulho de ser negro, recém-lançado no Brasil pela Companhia das Letrinhas, com quarta capa assinada pela atriz Taís Araujo.

Artista brasileira trouxe personalidades negras do nosso país para o livro "Ei, você!"

Uma carta-manifesto dedicada a todas
as crianças da diáspora negra. Leia +.

“Como sou apenas uma pessoa, não posso esperar falar por toda a diáspora. A rica variedade de ilustradores talentosos neste livro reflete a riqueza de pessoas que constituem a diáspora negra em todo o mundo”, contou Dapo no prefácio do livro.

Assim, para fortalecer ainda mais sua mensagem, o título contou com ilustrações de 20 vinte artistas diferentes, um para cada página dupla, incluindo a ilustradora brasileira Lhaiza Morena, que, na edição da Letrinhas, trouxe duas páginas a mais. A artista soteropolitana de 32 anos foi convidada para ilustrar 13 personalidades negras brasileiras de importância fundamental.

Gilberto Gil e Elza Soares são algumas personalidades negras brasileiras no livro "Ei, você!"

As personalidades negras brasileiras representadas pela ilustradora Lhaiza Morena 

Essas pessoas, como  Zumbi dos Palmares, Elza Soares, Gilberto Gil e Marielle Franco, representam o legado de gerações de líderes, artistas, intelectuais e criadores negros - uma inspiração e fonte de orgulho e força para os pequenos leitores do livro.

“Confesso que senti uma grande responsabilidade em ilustrar essas personalidades. Tentei ser o mais próximo possível, sem perder meu estilo. Há personalidades de várias épocas, que contam nossa história, a escolha foi excelente”, comenta Lhaiza, na entrevista por e-mail que concedeu para o Blog (ali embaixo!).

Vamos conhecer um pouco mais todas essas figuras ilustres e saber mais sobre a trajetória da Lhaiza?

Quem são as personalidades negrasbrasileiras do livro "Ei, você!"?

1) Zumbi dos Palmares: alagoano nascido em 1655, Zumbi foi o último líder do Quilombo dos Palmares, o maior de toda a América e, por isso, se tornou símbolo da luta negra contra a escravidão.   

2) Elza Soares: um dos principais nomes da música brasileira, Elza é cantora e compositora e foi eleita pela rádio BBC de Londres a cantora brasileira do milênio.

3) Conceição Evaristo: pesquisadora e uma das principais escritoras da literatura brasileira contemporânea, a autora mineira escreveu livros como Ponciá Vivêncio (2003) e Olhos d’água (2014).

4) Milton Santos: um dos maiores geógrafos brasileiros, o intelectual baiano é reconhecido mundialmente por suas ideias e análises sobre as relações internacionais, o espaço urbano, a globalização etc.

5) Lélia Gonzalez: uma das intelectuais brasileiras mais importantes do século XX e grande ativista da luta antirracista e feminista no país, com abordagens que costuram filosofia, psicanálise e candomblé.

6) Gilberto Gil: um dos nomes mais importantes da música brasileira e pioneiro da tropicália, Gil quase dispensa apresentações, tendo marcado a história artística, cultural e política do país.

7) Marielle Franco: política e ativista carioca, defensora de pautas sociais e antirracistas, Marielle foi eleita vereadora do Rio de Janeiro em 2017. No ano seguinte, ela e seu motorista, Anderson Pedro Gomes, foram assassinados a tiros. O crime permanece sem solução.

8) Benedita da Silva: é uma importante política brasileira que já foi governadora do Rio de Janeiro e deputada federal, além de ativista do movimento negro e defensora de pautas sociais e feministas.

9) Sueli Carneiro: doutora em Educação, filósofa, escritora e uma das principais ativistas da luta antirracista no Brasil, Sueli ainda fundou, em 1988, o Geledés — Instituto da Mulher Negra.

10) Dandara: esposa de Zumbi, também guiou o Quilombo Palmares e foi uma das principais líderes femininas a lutar contra o regime escravocrata no Brasil Colonial.

11) Machado de Assis: considerado o maior nome da literatura brasileira, escreveu romances fundamentais, como Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) e Dom Casmurro (1899), e foi um grande crítico e pensador de seu tempo.

12) Maria Firmina dos Reis: escritora e professora, Maria Firmina nasceu em São Luiz, no Maranhão, em 1822, e seu romance Úrsula (1859) é considerado a obra inaugural da literatura afrobrasileira e um dos primeiros de autoria feminina do país.

13) Lima Barreto: jornalista e um dos autores mais importantes da Primeira República, Lima publicou obras como Triste fim de Policarpo Quaresma (1911) e Clara dos Anjos (1922).

 

E quem é Lhaiza Morena, a artista que representou todos esses nomes?

Lhaiza Morena ilustrou personalidades negras do nosso país para o livro "Ei, você!"

A ilustradora Lhaiza Morena

Você pode contar um pouco sobre a sua trajetória como ilustradora, por favor? Como começou, qual a sua formação, quando soube que esse seria o caminho a seguir?

Sou de Salvador, Bahia, tenho 32 anos e desde pequena eu gosto de desenhar. Sempre desejei trabalhar com desenho, mas não sabia por onde começar. Eu tinha como referência o Maurício de Sousa, desejava fazer o que ele faz, criar personagens e contar histórias, mas demorou para eu alcançar esse objetivo de trabalhar com ilustração.

Sou formada em Técnico em Eletrônica por uma instituição federal aqui da Bahia, mas não segui a carreira. Depois, fiz um outro curso técnico de Computação Gráfica, que me deu uma direção para seguir o caminho que eu queria. Trabalhei em agências de publicidade como arte-finalista e diretora de arte e, às vezes, fazia umas artes para compor os projetos, mas ainda não estava satisfeita. Então, além do trabalho CLT, comecei a fazer trabalhos como freelancer, como encomendas e ilustrações para convites de casamento. Mas ainda faltava a parte de "contar histórias", então continuei estudando e praticando, porque eu queria ilustrar livros.

Meu primeiro livro ilustrado foi lançado em 2018 e, desde então, tenho me dedicado a ilustrações infantis. Hoje posso dizer, com toda certeza: estou realizada.

 

Tem algum ilustrador que você admira ou que tenha influenciado o seu estilo de alguma maneira?

Quando eu comecei a querer expandir meu trabalho, não tinha as referências que eu desejava, não conhecia artistas pretos que ilustravam com representatividade. Os que eu encontrava eram artistas internacionais, eu não encontrava essa referência aqui no Brasil. Decidi que era isso que eu faria, eu iria trazer essa representatividade e, em tudo que fazia, incluía personagens pretos e mulheres.

Então, não consigo ver no meu estilo traços de outros artistas, tenho várias referências para aplicar técnicas de luz, sombra, cores... mas não no meu estilo de desenhar. Talvez eu tenha juntado tanta referência inconscientemente que não consigo definir um que eu diga “meu estilo é inspirado nesse artista”.

 

Você já conhecia o trabalho de algum outro ilustrador do Ei, você!?

Não conhecia. Estou olhando o trabalho de cada um e já me tornando fã, porque são trabalhos maravilhosos!

 

Como foi o trabalho de ilustração das personalidades brasileiras para o livro? Você chegou a sugerir alguma daquelas pessoas? Pode falar um pouco sobre a importância de algumas delas para você?

Confesso que senti uma grande responsabilidade em ilustrar essas personalidades. Tentei ser o mais próxima possível, sem perder meu estilo. Não sugeri nenhum, o pessoal da editora já chegou até mim com a lista completa e, para mim, estava ótima. Há personalidades de várias épocas, que contam nossa história, a escolha foi excelente. Mas eu incluiria a Carolina Maria de Jesus, uma das primeiras escritoras negras do país, e a Enedina Marques, que foi a mulher negra pioneira na engenharia. A luta, força e determinação que a Dandara teve para buscar a igualdade é inspiradora. A história dela serve de combustível pra continuarmos nessa luta até hoje.

 

Qual técnica você costuma usar para ilustrar? No caso do Ei, você!, teve algum processo diferente?

Meu trabalho é 100% digital, desde o rascunho até a finalização da arte.

Para o livro, eu precisei juntar imagens das personalidades e estudar características marcantes delas, para poder representar da melhor forma. Então fiz muitos rascunhos, muitos deles descartados, até chegar ao rascunho definitivo. Acredito que consegui alcançar o objetivo, porque houve pouquíssimas refações nas características das personalidades.

 

Tanto o autor como alguns ilustradores e a própria Taís Araujo disseram que Ei, você! é um livro que gostariam de ter lido na infância. Você sente o mesmo? Pode falar um pouquinho sobre isso, por favor, e sobre como você sente que a literatura tem evoluído nesse sentido?

Concordo com eles plenamente! Eu queria ter lido um livro desse quando era criança; provavelmente não cresceria não gostando do meu cabelo ou dos meus traços.

É pela ausência dessa representatividade na minha infância que eu ilustro, na sua grande maioria, pessoas negras e, principalmente, crianças negras. Quero contribuir para que elas cresçam achando seu cabelo, sua cor, seu nariz, lindos! E hoje já existe uma grande variedade de livros com essa temática e isso me deixa muito feliz.

 

Dapo Adeola decidiu escrever o livro a partir de uma pergunta de seu editor, sobre quando foi a primeira vez que ele se sentiu empoderado como pessoa negra. Você pode contar quando isso aconteceu para você?

Eu só notei que meu cabelo era lindo depois que precisei cortar por causa de uma química que usei e não deu certo. Fiz um corte curto e fiquei encantada quando vi os cachos florescendo; eu nem lembrava como era o meu cabelo. Tenho fotos de quando era criança com meu cabelo natural, mas eu realmente não lembrava de já ter visto ele daquele jeito.

Mas foi um longo processo até me sentir empoderada. Mesmo já usando o cabelo natural, eu não gostava do volume e do frizz, tentava pentear de uma forma que não ficasse tão volumoso quando secasse. Os anos foram passando, fui amadurecendo e me aceitando e hoje amo o meu cabelo volumoso. Aceitar a curvatura do meu cabelo foi a porta para eu me sentir empoderada.

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