O fio e os rastros, por Diogo Bercito
Diogo Bercito compartilha suas pesquisas e o contato com a natureza que marca "A solidão das aranhas".
É surpreendente que em uma conversa entre uma educadora e duas artistas indígenas sobre o campo da literatura infantil comece-se falando de contos de fadas de origem europeia? Sim sob a perspectiva estereotipada. E, não, sob uma análise de uma sociedade brasileira que ainda sofre os efeitos da colonização entre a arte e a educação.

Ilustração feita por Tai para o livro Tuiupé e o Maracá Mágico (Companhia das Letrinhas, 2024) com texto de Auritha Tabajara
Quarta-feira, 25 de fevereiro, a Companhia da Educação promoveu um bate-papo incrível entre a pedagoga e pesquisadora Carina Pataxó e ilustradoras Raquel Teixeira e Tai com o título “Representações indígenas na literatura infantil”, no canal do Youtube desta divisão voltada à formação de educadores da Companhia das Letras. Começou já nesta vibração reflexiva a partir da pergunta da educadora às artistas visuais: “Queria voltar um pouco para as infâncias e saber um pouco o que vocês gostavam de ver, de ler, se vocês se identificavam de alguma forma com as ilustrações, com as imagens e com os textos também, e se essa identificação ou a ausência dessa identificação tem a ver com a atuação artística de vocês hoje”, disse Carina, que viveu parte de sua infância na aldeia mãe, em Porto Seguro (BA), é mestre e doutoranda em educação pelas Universidade Federal do Rio de Janeiro, e atua como professora de biblioteca em uma escola do Rio de Janeiro.
A primeira a responder foi Raquel Teixeira, ilustradora nascida em Manaus (AM), formada em design e autora de Sou Indígena! (Companhia das Letrinhas, 2024), escrito por Cláudia Flor de Maria. “Gostava muito de ler os contos dos Irmãos Grimm, sabe? Era uma criança meio assim, meio estranha, porque eu gostava de ver e ler os contos os mais próximos do original, que são um pouco pesados”, diz Raquel rindo. “Geralmente os personagens não se dão bem, sempre uma uma literatura quase que gótica”, completa a ilustradora dizendo que, talvez por isso, goste de desenhar histórias em que os personagens passem por adversidades, mas que conquistem algo no final. “Lia bastante também gibizinhos da Turma da Mônica, o clássico que todo mundo do quadrinho já leu quando era criança. Também bastante quadrinhos do Sesinho (revsta educativa do sistema Sesi, hoje for a de circulação). De um modo geral, não tinha muita influência como pessoa indígena. Até mesmo como amazônida e tal, não tinha muito conteúdo daqui. Era geralmente um conteúdo mais do sudeste do Brasil ou era assim, da Europa, no caso dos Irmãos Grimm.” Todavia, se recorda de numa animação da Disney. “Uma coisa que me influenciou muito foi o Irmão Urso, da Disney, sobre histórias de uma etnia indígena dos Estados Unidos, finalmente personagem parecidos comigo num nucleo familiar”.
A ilustradora e quadrinista Tai lembrou que também teve na infância os contos de fadas, mas… “Ao contrário da Raquel, que gosta de criar finais felizes e tal, eu ficava frustrada. Dou do grupo ‘queremos injustiça’, então eu adoro criar o caos assim nas histórias”, disse provocando um momento de muitas risadas. Ela, que é de Belém do Pará e gosta de reforçar que a cidade se chamava Mairi, nome original indígena, ainda como centro do território Tupinambá, é bacharel em moda e mestre em comunicação e semiótica pela PUC São Paulo, autora de Tuiupé e o Maracá Mágico (Companhia das Letrinhas, 2024) com texto de Auritha Tabajara. Contou que a mãe lia muito para ela, mas adorava assistir televisão. “Eu gostava mais de desenho porque tinha movimento, sou cria da TV Cultura, Castelo Rá-tim-bum, que influenciavam bastante. Por conta da minha mãe gostar muito de ler e sempre estimular muito, acabei tendo desde criança essa referência de contos de fadas – as versões mais bonitinhas. Mas a gente tinha o costume de ler livros de autores paraenses que tivessem essas narrativas, que muitas vezes a galera coloca como folclore, mas erroneamente. Essas narrativas dos encantados, do Curupira, da Iara”, compartilha Tai. Na escola também tinha um repertório literário e debate sobre o que se lia. “A minha família a base dela é espiritismo e terreiro. Então, como a gente tem uma base assim muito visagenta, acaba que essas histórias eram tipo a base. Então, essas coisas que são assustadoras e estranhas, não me levem de modo errado isso – eu sou uma pessoa muito medrosa, tá? Eu tô falando isso, mas eu sou medrosíssima - exatamente por conviver com essas narrativas, eu gostava muito de histórias que tinha um tom assim um pouco mais dark, né? Então, por exemplo, quando eu comecei a conhecer superherói, eu adorei o Batman, exatamente porque é um mundo assim mais trevoso e tal. Adorava Tim Burton, porque ele fazia coisas que eram estranhas mas que eram bonitas ao mesmo tempo”, completa Tai. (Se, como eu, você não souber o que é o termo “visagenta”, é um termo comum na região norte que sobre algo que é sobrenatural, místico, até assustador).
Tai conta, no entanto, que foi com as personagens da Disney Jasmine e Pocahontas que ela se identificou. “Exatamente porque eram as princesas que eu via que mais eram parecidas comigo. Às vezes a gente, sei lá, ia para uma festinha ou alguma coisa e queria se fantasiar e eu ficava pensando que nenhum personagem se parece comigo para me fantasiar, sabe? Acabava sempre indo para elas. Depois a gente problematizou a Pocahontas, mas com 5 anos não sabia disso ainda”. No entanto, outras referências ainda foram compondo a menina Tai, como os animes. “Sakura (desenho Sakyra Card Captors, sucesso no Cartoon Network), por exemplo, eu acho muito legal porque ela lidava muito com o mundo espiritual também. E geralmente as narrativas japonesas têm várias proximidades com cosmovisões indígenas”, lembra. Só bem depois que as reflexões chegam. “Quando a gente começa a problematizar as coisas, e de fato entender por que eu não me vejo nesses espaços, a gente vai vendo o quanto de deficiência a gente tem em termos de produção de mídia de modo geral, de representação indígena, que não seja aquela coisa extremamente estereotipada”.
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Atenta ao que ouviu, Carina amarrou as duas falas de forma contundente. “Pensando a partir das falas de vocês, o quanto que esse repertório - claro que é construído ao longo da vida - mas o quanto que esse repertório na infância pode ter uma relação direta com a representação e ou com a representatividade”, destaca Carina já indicando que as duas palavras têm suas diferenças entre si. “Nem todas as representações que talvez a gente tenha tido acesso, de fato tenham esse olhar, e a gente se identifique no sentido da representatividade”, continua, salientando que diz muito sobre o nosso repertório como brasileiras e brasileiros no campo das artes visuais. “De modo mais amplo, a gente entende que, historicamente, ela foi um instrumento de genocídio, de colonização. Como a literatura, as artes plásticas, dentre outras, foram forjadas a ideia de da identidade indígena em busca também do que seria uma identidade nacional, do povo brasileiro, a ideia do povo brasileiro.”
Carina observa que os caminhos que traçamos na literatura infantil tem a ver com algo maior, como a arte indígena de modo geral foi narrada e classificada. “Em alguns estudos, como de Graça Proença (autora do livro História da Arte, editora Ática), em que ela fala que muitas das vezes a arte ainda é vista como arte pré-colombiana - a arte do Brasil - ou pré-cabralina, ou seja, o marcador é do colonizador. E isso é algo muito sério”. Temos muito a avançar. “A arte por vezes não conta essa diversidade entre povos indígenas do Brasil. E penso que seja que é um dos grandes desafios, tanto quando a gente pensa no texto escrito, quanto também das ilustrações, enfim, da autoria de modo amplo, que muitas das vezes sequer consta a diversidade. É por vezes contada de modo etnológico, ainda antropofágico”, completa Carina também referindo a chamada “literatura indianista” que consagrou obras como Iracema e O Guarani, ambas de José de Alencar, lanças em meados do século XIX.
E, então, a mediadora do debate convida as artistas a falarem como elas veem hoje o lugar da ilustração de autoria indígena no Brasil e, também, a presença de ilustradores não indígenas na literatura indígena? Podem ser vistos como “aliados”? Tai pegou a palavra primeiro, e trouxe dois pontos que apontam questões estruturais e bastante profundas. O primeiro, o quanto historicamente para exibir a cultura indígena, mesmo que colocando-a como um valor, ainda se vê um apagamento das pessoas, como exposições fotográficas com legendas gerais, como “pessoa indígena”, “povo tal”. O segundo, contextualizando um modo específico de arte dela e de Raquel, a ilustração digital para os livros infantis, que requer recursos para o uso da tecnologia. “Hoje em dia a gente felizmente está vivendo um processo, eu vejo como positivo, no sentido de a gente poder referenciar mais pessoas indígenas em todas as áreas. Porque por muito tempo quem conta a história é o vencedor”, diz a artista retomando a questão da representação e da representatividade, por exemplo, com a personagem Pocahontas. “Ela reforça essa ideia da mulher indígena pobre, vítima, que se apaixona pelo homem branco, salvador”, destaca. “Nas artes, sempre achei muito curioso. Teve uma exposição que eu participei que era uma obra que falava sobre a a importância da gente contar a nossa história. E aí, do lado, tinha uma fotografia de pessoas indígenas que a legenda era ‘pessoas indígenas mundurucu’, por exemplo. Não sabia quem eram as pessoas e tal e era um fotógrafo não indígena.
Tai conta que em Belém (PA), onde ela mora, há iniciativas de oficinas gratuitas, por exemplo, para técnicas de animação, mas sabe que não é a realidade sequer no restante do estado, quanto mais, em outros locais do Brasil. “E tinha uma época que estavam procurando animadores indígenas, mas eles já queriam esses animadores prontos. Muitas vezes as pessoas querem profissionais prontos, profissionais com conhecimento, com currículo, mas o aliado de fato tem que entender que existem várias problemáticas territoriais de software, de internet, de muitas coisas, e que se você quer trabalhar com esses profissionais, talvez você tenha de fato que criar uma formação”, aponta a artista. “A gente dentro do Norte em quadrinhos acaba fazendo. Raquel já deu oficina, eu já dei oficina… , modo da gente tentar capacitar a galera.” Mas, ainda assim, ela marca que existem mais artistas indígenas para representarem a cultura indígena, embora ainda se tenha um longo caminho até que se compreenda completamente que o povo indígena não tem um fenótipo padrão apenas.
“É um debate extenso”, comenta Carina Pataxó. “Muito interessante e muito importante a gente se unir dessa forma, para desenvolver cada vez mais, né, para ter mais ilustradores, indígenas, escritores, grafiteiros, profissionais, artesãos de um modo geral”, aponta Raquel Teixeira, retomando a questão do ser ou não ser um “aliado”.
“Já vi muitas pessoas não indígenas desenvolvendo trabalhos que podia ter, sabe, indicado o colega ali que é uma pessoa indígena, que vai ter umas propriedade para desenvolver as coisas e tipo realmente fica um trabalho meio vazio, às vezes tem até erros que são racistas.”
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Ainda movimentando este profundo debate, a educadora Carina questionou às duas como elas se veem contribuindo para valorizar a cultura indígena em seus trabalhos nos livros infantis. Raquel distribui vários aspectos para pensarmos juntos. “Eu geralmente busco aplicar que o traço fique mais gentil realmente, para a criança despertar realmente o interesse em ler”, diz. “Na literatura infantil, tanto o autor da escrita e o autor da parte visual, os dois são autores. Esse livro, o livro infantil, ele não existiria se tivesse só o texto”, lembra a artista.
Tai contou detalhes do processo criativo e lembrou histórias, por exemplo, da construção das imagens do livro Tuiupé. “Quando a gente pensou no Tuiupé, um cuidado muito grande que tinha era na questão do maracá”, afirma a artista, contando que quando ele foi criando os esboços dos personagens, já com base num cuidado de pesquisa das representações da família da escritora Auritha, tema do livro, foi definindo qual seria a estética da obra. “E tinha esse detalhe do maracá, que o maracá da Tuiupé era um maracá específico, que era diferente do maracá do pai dela. E o maracá do pai era diretamente inspirado no maracá da Auritha. Então ela me trouxe exemplos de maracás que o povo dela tinha, pra gente poder fazer as ilustrações baseadas nisso. Aquilo que a gente fala na sensibilidade de autor indígena: quando ela me falou dessa questão do maracá, imediatamente eu pensei: ‘ok, precisamos então ter representações diferentes desse maracá”, diz Tai que pediu à escritora fotos, por exemplo, do instrumento.
Raquel Teixeira também abriu um pouco do fazer do Sou Indígena. Comentou sobre as muitas conversas com a escritora Claudia, como elas foram identificando pontos em comum da vivência de cada uma. A escritora foi dizendo o que pensava como ornamentos, e Raquel também incluiu detalhes de sua história, pensando até mesmo na temática do livro, das identidades. “Aí uma coisa que que eu incluí foi um grafismo que já me foi entregue assim através dos meus parentes, o grafismo que eu coloquei no braço dela”, diz. “Fui englobando também, fazendo essa mescla, né? E aí a gente conversou bastante, bateu alguns pontos. Tem parte do livro que aparece a avó dela que é xamã, e a gente conversou um bocado sobre como seria a representação da avó dela”.
Já em Tanãmak, uma guerreira mura (Brinque-Book, 2025), até mesmo uma dificuldade de conversar com a escritora Marcia Mura influenciou na produção do livro. “Na época, se eu não me engano, ela tava construindo a comunidade dela no interior de Rondônia. E aí ela ficava muito tempo sem internet. E aí era muito raro a gente conseguir ter uma reunião. Geralmente eram as editoras que conseguiam quando ela tinha um sinal de internet, ela via e mandava apontamentos.” Em um momento da obra, Tanãmak vira guerreira, quando ela já é adulta e então ela tem especifamente um determinado grafismo que é da própria autora, Márcia. Ela mandou uma foto só que o braço estava suado e o desenho, borrado. Raquel finalizou com a referência e enviou o rafe (esboço das imagens) e, então ouviu das editoras: “ah, é porque ela falou que suou e já tinha borrado’. E ela desenhou para mim como seria mesmo o grafismo, ele intacto sem o calor armazônico (risos), e aí eu fiz toda a modificação”, contou Raquel, completando que esse exercício de “checagem” ela faz também com seus parentes, confirmando a forma de algum elemento específico, fruta, ou outros detalhes.
O bate-papo teve muito mais do que conseguimos relatar aqui. Sem dúvida, qualquer pesquisador de literatura infantil pode reconhecer que esta conversa foi um momento histórico. Um dos bem bonitos.
A conversa está completa no canal da Companhia na Educação no Youtube, com tradução em libras de Ketlyn Cavasini e Dani Mendes:
(Texto Cristiane Rogerio)
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