Companhia das Letras comemora 40 anos
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A inspiração para um livro está sempre fora do nosso controle. Às vezes ela vem de um personagem que conhecemos quase pronto, às vezes de um fato que testemunhamos ou do qual ouvimos falar, ou até de um sentimento, seja nosso ou emprestado. No caso do romance Outras guerras, veio de um tema, e já com a ambientação de brinde. No segundo semestre de 2020, enquanto eu acabava de escrever o romance Peixe estranho (publicado pela Companhia das Letras em 2022), um colega de serviço me encaminhou uma reportagem do programa Fantástico, da Rede Globo, sobre a rotina de marinheiros que trabalham no Farol do Albardão, na praia do Cassino, no extremo sul do Brasil, considerada a praia mais extensa do mundo, entre as cidades de Rio Grande e Chuí. Como esses marinheiros são voluntários e ficam lá oitenta e cinco dias praticamente sem comunicação com o mundo externo (família, amigos etc.), fiquei intrigado com as razões que levariam uma pessoa a tal isolamento. Por outro lado, achei fascinante eles terem que varrer a areia das instalações todos os dias para que não fique tudo soterrado graças ao vento forte e “eterno” (o repórter entrevistou também moradores da região que já tiveram suas casas soterradas pela areia). Então juntei os dois elementos numa metáfora: nossos conflitos mais íntimos e estruturantes são como essa areia e esse vento, com os quais se luta sempre e para sempre; e isolar-se, ou seja, fugir, não adianta nada: como estão dentro de nós, eles nos acompanham. Isso está bem resumido no texto da contracapa do livro: “A culpa, o desejo, o tempo. Guerras eternas que não podem ser vencidas, quando se luta, dia após dia, somente para não se perder”. Pois bem, eu ganhei de presente o tema, guerras contra duas naturezas, a exterior (a praia) e a interior (impulsos, desejos, culpas), mas faltavam os personagens e o enredo. O farol do Albardão tem costumeiramente apenas dois marinheiros trabalhando nele de cada vez, porém, como o “meu” farol não era exatamente o Albardão, e sim baseado nele, tomei a liberdade de criar um terceiro marinheiro, porque eu queria trabalhar com mais possibilidades de lidar com... o quê? Vou chamar de “algo”. Assim as histórias se construíram: um deles vai para o farol porque foge de “algo”, outro porque procura “algo”, e, para o terceiro, “algo” já aconteceu, ele está isolado lá em penitência. E o enredo, por fim, veio dos conflitos que causaram tal fuga, tal procura e tal penitência, no passado, e seus efeitos no presente, que por sua vez geram outros conflitos, pela interação dos personagens. Às vezes dá a impressão de que certas histórias se “puxam” sozinhas, que uma ideia leva a outra, quase como se elas pedissem para serem contadas. Claro que isso é apenas uma forma subjetiva e poética de encarar a impossibilidade de dizer não às ideias. Elas são como o vento e a areia na praia do Cassino: sempre estão ao nosso redor, soprando e ameaçando nos soterrar se ousarmos ignorá-las.
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Neste romance preciso, magistral, três homens se isolam numa praia sem começo nem fim, com a tarefa de zelar pelo funcionamento de um farol de navegação. Durante quase três meses, vivem e trabalham em instalações simples ao redor do farol, cercados de areia por todos os lados. Mas o que os leva até lá não é necessariamente o dever, e sim o medo e a culpa, a penitência e a fuga.
Agostinho, o mais velho, tem problemas com a bebida e, ao se voluntariar para o farol, acredita estar purgando um ato sem perdão: alcoolizado e sem memória, foi acusado de algo abominável e não tem como se defender. Ariel, o mais novo, foge para tentar se encontrar: nunca tomou decisões por conta própria, foi sempre influenciado pela vontade dos outros, e agora, na solidão do farol e dedicado aos seus orixás, procura entender quem realmente é.
Já Skawinski está ali pela culpa e pelo desejo. Cresceu sem a mãe, com um pai ausente, e desde cedo ficou aos cuidados da meia-irmã mais velha, Vanda, com quem criou um laço afetivo perigoso. Jovem sem pouso nem futuro, teve de ser acolhido na casa dela e do marido. Mas o amor por Vanda e a impotência perante seu casamento o forçaram a partir.
Isolados no farol, são acossados pelo vento e pela areia, que se acumula, invade e encobre tudo. Os marinheiros, afundados em suas guerras pessoais, em breve serão tomados também pelo delírio.
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Leonardo Brasiliense nasceu em 1972, em São Gabriel, RS. Tem doze livros publicados, entre eles Três dúvidas (2010, que recebeu o prêmio Jabuti) e Roupas sujas (2017, finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). É também roteirista de cinema e fotógrafo amador.
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