Meu livro [A vida doçura] não pretende figurar no balaio de “literatura de cura”. Apesar de o mote ter partido de um fato basilar da minha biografia – o suicídio da minha mãe quando eu tinha apenas nove anos –, Vida doçura não me curou e nem pretende curar as dores lancinantes de um luto dessa ordem. Ele pretende descobrir novas paisagens por meio da ficção.
O livro esmiúça e cavouca a enorme falta de uma filha que foi abandonada pela mãe. A partir desse ponto, desenvolvi um romance com pinceladas de thriller, um drama díptico, em que duas mulheres completamente diferentes se entrecruzam em uma atmosfera tensa e quase absurda.
Como dois ímãs que se repelem à aproximação, Jovana é muito limpa e ordeira, Jocasta é suja e desorganizada. O que Jocasta procura exaustivamente em Jovana? Porque sua obsessão pela youtuber é tão significativa ao ponto de atravessar as telas? E por que Jovana filma e expõe sua vida de forma compulsiva?
Há várias formas de viver. Tanto o meu primeiro romance Os tais caquinhos como este que lanço agora atestam essas possibilidades, contestando radicalmente as formas prosaicas de se constituir como gente, de como ordenar a própria casa, de como conduzir o fio da própria vida. O ordinário e o extraordinário são condutas impossíveis de se escapar. Há também a área cinza – e nela, penso, habitamos a maioria de todos nós.
Meus personagens tensionam esses “modos de vida” ao extremo. Por isso, na escrita de Vida doçura percebi que estava escrevendo uma trilogia. A trilogia da desordem. Meu segundo romance é complementar ao primeiro, e com o terceiro romance – ainda em fase de organização – sinto que vou solucionar ou ao menos pôr em ordem a investigação estética e pessoal que me acompanhou a vida inteira.
Já aviso que em Vida doçura você não encontrará respostas, mas enigmas. Enigmas pelos quais rondei por muitos anos, martelando na cabeça e no corpo – minhas percepções de mundo, das relações familiares, da vida comum e da morte, tão incongruente quanto ordinária.
Mergulhei por anos em um mar sonoro, táctil, formal, sinestésico, integrado por ficção e memória. Ao sair desse mar, fiz uma colagem das impressões que capturei e dos sustos que tomei, e assim percebi recentemente que é desse modo que escrevo meus livros.
É isso. Espero que vocês gostem de nadar na minha praia. E se espelhem, como na areia molhada, em Vida doçura.
Um beijo,
Natércia
——
Conheça Vida doçura
.png)
Jocasta é uma escritora que leva uma vida isolada e desregrada em um apartamento bagunçado no centro de São Paulo. Enquanto tenta se dedicar a escrever seu novo livro de contos, mergulha nas lembranças provocadas pelo trauma de ter perdido a mãe aos sete anos.
Ao longo desse processo dolorido e caótico, desenvolve uma compulsão nada óbvia pelos vídeos de Jovana, uma youtuber que apresenta sua rotina perfumada, organizada e alegre, em um estereótipo de como a vida deveria ser.
Ao se deparar com o oposto radical de sua própria existência, a protagonista se vê atormentada pela solidão em uma trama a um só tempo comovente e tragicômica, com toques de suspense policial.
——
Conheça Natércia Pontes

NATÉRCIA PONTES nasceu em 1980, em Fortaleza, e mora em São Paulo. É autora do livro de contos Copacabana Dreams (Cosac Naify, 2012, reeditado pela Companhia das Letras em 2024), finalista do prêmio Jabuti, do romance Os tais caquinhos (Companhia das Letras, 2021) e Vida doçura (Companhia das Letras, 2026).