O que o Brasil precisa é de mais escritores, por Roberto Taddei
Roberto Taddei compartilha a provocação que está por trás de seu novo livro, "Ser escritor"
Meu livro [Vida doçura] não pretende figurar no balaio de “literatura de cura”. Apesar de o mote ter partido de um fato basilar da minha biografia – o suicídio da minha mãe quando eu tinha apenas nove anos –, Vida doçura não me curou e nem pretende curar as dores lancinantes de um luto dessa ordem. Ele pretende descobrir novas paisagens por meio da ficção.
O livro esmiúça e cavouca a enorme falta de uma filha que foi abandonada pela mãe. A partir desse ponto, desenvolvi um romance com pinceladas de thriller, um drama díptico, em que duas mulheres completamente diferentes se entrecruzam em uma atmosfera tensa e quase absurda.
Como dois ímãs que se repelem à aproximação, Jovana é muito limpa e ordeira, Jocasta é suja e desorganizada. O que Jocasta procura exaustivamente em Jovana? Porque sua obsessão pela youtuber é tão significativa ao ponto de atravessar as telas? E por que Jovana filma e expõe sua vida de forma compulsiva?
Há várias formas de viver. Tanto o meu primeiro romance Os tais caquinhos como este que lanço agora atestam essas possibilidades, contestando radicalmente as formas prosaicas de se constituir como gente, de como ordenar a própria casa, de como conduzir o fio da própria vida. O ordinário e o extraordinário são condutas impossíveis de se escapar. Há também a área cinza – e nela, penso, habitamos a maioria de todos nós.
Meus personagens tensionam esses “modos de vida” ao extremo. Por isso, na escrita de Vida doçura percebi que estava escrevendo uma trilogia. A trilogia da desordem. Meu segundo romance é complementar ao primeiro, e com o terceiro romance – ainda em fase de organização – sinto que vou solucionar ou ao menos pôr em ordem a investigação estética e pessoal que me acompanhou a vida inteira.
Já aviso que em Vida doçura você não encontrará respostas, mas enigmas. Enigmas pelos quais rondei por muitos anos, martelando na cabeça e no corpo – minhas percepções de mundo, das relações familiares, da vida comum e da morte, tão incongruente quanto ordinária.
Mergulhei por anos em um mar sonoro, táctil, formal, sinestésico, integrado por ficção e memória. Ao sair desse mar, fiz uma colagem das impressões que capturei e dos sustos que tomei, e assim percebi recentemente que é desse modo que escrevo meus livros.
É isso. Espero que vocês gostem de nadar na minha praia. E se espelhem, como na areia molhada, em Vida doçura.
Um beijo,
Natércia
——
.png)
Jocasta é uma escritora que leva uma vida isolada e desregrada em um apartamento bagunçado no centro de São Paulo. Enquanto tenta se dedicar a escrever seu novo livro de contos, mergulha nas lembranças provocadas pelo trauma de ter perdido a mãe aos sete anos.
Ao longo desse processo dolorido e caótico, desenvolve uma compulsão nada óbvia pelos vídeos de Jovana, uma youtuber que apresenta sua rotina perfumada, organizada e alegre, em um estereótipo de como a vida deveria ser.
Ao se deparar com o oposto radical de sua própria existência, a protagonista se vê atormentada pela solidão em uma trama a um só tempo comovente e tragicômica, com toques de suspense policial.
——

NATÉRCIA PONTES nasceu em 1980, em Fortaleza, e mora em São Paulo. É autora do livro de contos Copacabana Dreams (Cosac Naify, 2012, reeditado pela Companhia das Letras em 2024), finalista do prêmio Jabuti, do romance Os tais caquinhos (Companhia das Letras, 2021) e Vida doçura (Companhia das Letras, 2026).
Roberto Taddei compartilha a provocação que está por trás de seu novo livro, "Ser escritor"
Conheça as ações que celebram os 40 anos da Companhia das Letras
Fabiane Guimarães compartilha como escreveu seu novo romance, "A linguagem dos desastres"