O que o Brasil precisa é de mais escritores, por Roberto Taddei

20/04/2026

O que o Brasil precisa é de mais escritores, e não de mais leitores. Sei que muita gente vai torcer o nariz para uma frase como essa, mas a provocação está por trás do livro que lanço agora pela Companhia das Letras: Ser escritor: liberdade e consciência na criação literária. Vou tentar defender a tese de duas maneiras: com números e experiência pessoal.

Num dos últimos censos da educação no Brasil descobrimos que o país tem cerca de 20 milhões de pessoas com ensino superior completo. Esse número deveria, em alguma medida, servir como parâmetro para definirmos o tamanho do mercado editorial nacional. No entanto, todo mundo que escreve e publica literatura no Brasil sabe que isso é um pensamento mágico, fantasioso. Esse mercado teria no máximo uns dois ou três milhões de pessoas. Por que os outros 17 milhões não compram romances? Tenho amigos com doutorado, pós-doutorado, livre-docência que não leem ficção, apenas artigos e ensaios do próprio meio. E quase todos em inglês.

Esses 17 milhões de leitores não encontram na literatura aquilo que poderia lhes interessar. E 17 milhões é mais ou menos o tamanho do mercado editorial de países europeus que têm números muitíssimo mais expressivos em vendas e em publicação de títulos. São países que publicam muito mais livros, sobretudo de ficção, do que nós.

Na Inglaterra, por exemplo, a proporção de romancistas por habitante é pelo menos 10 vezes maior do que no Brasil. Some-se a isso outro dado alarmante e acho que consigo defender bem o meu ponto: mais de metade dos livros publicados no Brasil são traduções, ao passo que nos Estados Unidos esse percentual é de apenas 3%.

A pergunta que deveríamos fazer é: por que não há escritores suficientes no Brasil?

É aqui que minha experiência pessoal se torna parte da resposta. Desde o ensino fundamental busquei me formar como escritor e só consegui de fato ao fazer um mestrado no exterior. Em todos os espaços voltados ao estudo da literatura no Brasil que frequentei, ou mesmo aqueles voltados ao estudo da escrita, ouvi repetidas vezes que escrever não se aprende e não se ensina. Já ouvi diretores de escola e políticos com cargos públicos desaconselharem a leitura de livros como perda de tempo.

E, ao longo desse tempo todo, só o que não se alterou foi o discurso de que o brasileiro não lê, de que é preciso formar leitores, mediadores de leitura, professores, construir bibliotecas. É evidente que tudo isso é fundamental, assim como a existência de mais e excelentes editoras, e da maior quantidade possível de livros traduzidos para o nosso idioma. Mas o que o Brasil precisa, acima de tudo, é de mais escritores. Escritores que escrevam o que bem quiserem. Que escrevam e publiquem em todos os cantos do país. No gênero e estilo que quiserem. Sobre temas específicos ou sem tema algum. Que escrevam com liberdade e consciência do que estão fazendo.

Vale lembrar que no Brasil, desde o século XVI, por meio dos jesuítas, o ensino de escrita sempre foi estratégico: servia para formar indivíduos capazes de ler comandos e reproduzi-los, mas nunca para produzirem os próprios textos e dar voz aos próprios pensamentos. Esse tipo de “pedagogia” da opressão se manteve intacta até pelo menos o século XVIII. E em muitos lugares é ainda assim que as escolas ensinam os alunos a escrever. Dizemos às crianças que escrever é participar de uma “comunidade leitora”, mas tornamos muito difícil que participem dessa mesma comunidade como escritores.

O convite que faço com Ser escritor: liberdade e consciência na criação literária é para romper com essa herança, para que a prática da escrita criativa seja incorporada ao nosso dia a dia, desde o ensino fundamental até a vida adulta. Não para aumentar o mercado editorial, mas para ampliar nossa comunidade literária com as vozes de quem ainda não está escrevendo.

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Conheça Ser escritor

Escrever é um gesto simples - e, ao mesmo tempo, uma das tarefas mais complexas que alguém pode assumir. Entre a primeira leitura que nos transforma e a primeira frase que ousamos escrever existe um território movediço, povoado por dúvidas, desejos e forças históricas que moldam aquilo que chamamos de literatura.

Combinando ensaio, crítica literária e uma espécie de pedagogia da imaginação, Roberto Taddei parte de uma pergunta aparentemente modesta - como alguém passa do lugar de leitor para o de autor? - para construir uma reflexão ampla sobre liberdade criativa, consciência formal e autonomia. A partir da leitura de textos de Virginia Woolf, Clarice Lispector, Anton Tchekhov, Jorge Luis Borges, Alice Munro, J.M. Coetzee, Geovani Martins, Cidinha da Silva e outros autores, ele mostra como a literatura é atravessada por gênero, classe, raça, história colonial e tradição, e como cada escritor, ao escrever, negocia com essas forças para criar algo que seja verdadeiramente seu. Sem condescendência nem simplificação, uma reflexão sobre o que pode a literatura hoje, e sobre o que pode cada um de nós quando decide transformar sua própria experiência em linguagem.

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Conheça Roberto Taddei

Roberto Taddei nasceu em São Paulo, em 1975. É mestre em Escrita Criativa pela Columbia University. Escritor, tradutor e jornalista, escreveu os romances Terminália (2013) e Existe e está aqui e então acaba (2014), bem como o livro de poemas Essa música não é minha (2019). Coordena, no Instituto Vera Cruz, a pós-graduação Formação de Escritores.

 

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