O que o Brasil precisa é de mais escritores, por Roberto Taddei
Roberto Taddei compartilha a provocação que está por trás de seu novo livro, "Ser escritor"
A ideia inicial surgiu em 2016, o mundo era absolutamente outro. O Brasil era tão diferente, ou pelo menos não mostrava essa cara, que revelou em 2018. O clima esquentou, em todos os termômetros, apesar dos negacionismos insistentes. Enquanto isso, fui escrevendo Dakota Blues, criando um tempo próprio dele, uma cápsula à margem dos tempos de fora.
Quando a primeira versão ficou pronta, depois de algumas leituras-chave, ficou numa pasta de documentos, esperando sua hora de vir ao mundo, que chegou com uma festa de amigos&autógrafos, em 4 de abril de 2025, no centro de São Paulo.
A protagonista é Alice, paulistana que nasceu em meados dos anos 1960, e conta sua vida a partir das mortes - físicas e simbólicas - que viveu. Alice cresce no Brasil da ditadura, vive o fim da ditadura e os primeiros anos da redemocratização. Um país que saía de uma bolha de violências e silêncios para descobrir o mundo. O Brasil da Alice era juvenil. Tinha uma efervescência a respeito dele que inspirou músicas, bandas de porão, poetas marginais, novas vozes políticas, havia uma crença legítima em um vento novo. São Paulo era contexto e palco. Nos primeiros anos da década de 1980, o Queen veio para o Morumbi e milhares de isqueiros acenderam suas chamas românticas ao som de Love of my Life. Uma imagem linda. Um pouco antes, John Lennon tombou baleado em frente a um prédio, em plena Manhattan. Uma imagem dura. Um sonho grande acabou ali, cravejado por aqueles tiros. E o pesadelo da Aids, que começou poucos anos depois, ceifou Freddie Mercury, Cazuza, tantos outros.
Fui testemunha desse tempo, assim como a minha protagonista. Contar essa história me pediu memória, mas também pediu muita pesquisa. Me debrucei em jornais da época. Li livros, artigos, matérias sobre o nosso país, assisti vídeos sobre Nova York, sobre a queda do Muro de Berlim, sobre a atmosfera dos anos 1980 e 1990. Revirei antigos álbuns de fotografia, os tantos diários que escrevi, tudo para embalar o crescimento da Alice. Um crescimento rodeado de mortes e de vidas.
Tenho um fascínio por quem consegue desenhar o arco narrativo antes de começar a escrever. Eu não. Fico com a história na minha cabeça andando para lá e para cá, no banho, no carro, durante o jantar, no meio de uma conversa. Frases soltas, boiando movediças. Até que vem o começo. E é o primeiro parágrafo que me guia, são essas primeiras palavras que puxam as personagens, determinam a linguagem, pegam a história no laço.
Dos nove anos do Dakota Blues, desde o primeiro parágrafo ao primeiro autógrafo, foram muitos os momentos. O da pesquisa, o aprofundamento nas personagens, o mergulho na
linguagem, desde o início eu queria fazer uma linguagem que acompanhasse as fases da Alice, que envelhecesse com ela. Pensei em palavras e metáforas para a infância, a adolescência, a juventude, a maturidade. Uma linguagem de formação para um romance de formação. Outra questão em relação à linguagem é que eu queria a leveza, falar da morte a partir do frescor de uma menina que vive o luto lado a lado com as descobertas da vida, na velocidade da juventude. A vida da Alice passa rápido, como a nossa.
O momento da edição foi uma redescoberta, é muito louco quando você abre novamente o arquivo e revê os personagens, as cenas, descobre furos inacreditáveis - como deixei passar isso? - encontra trechos que emocionam - que bonito! Foi muito legal essa fase. De novo eu passei a dormir e acordar com o romance na cabeça.
E aí, com a publicação, chegou a grande surpresa do Dakota Blues: seus leitores. É muito louco você redescobrir a sua história pelo olhar do outro, por seus espelhamentos e estranhamentos. Recebi mensagens de muitos leitores da minha geração, alguns anos mais novos ou mais velhos, e muitos leitores jovens, muito jovens, que gostaram de ler um livro que se passa nos anos 1980, que se identificaram com a juventude da Alice e que passaram a ouvir as playlists, Dakota Blues Nacional e Dakota Blues Internacional. Isso sem falar nos Clubes de Livro, uma revolução incrível e amorosa para um país que precisa ler muito mais.
E agora, depois de um ano inteiro, Alice passa o bastão para novas personagens, minhas novas obsessões. Finalmente começo a criar outro tempo interno, dando espaço para uma nova história. Enquanto isso lá fora, nosso planeta chega de novo na lua, faz de novo a guerra e continua pulsando no absurdo.
Alice é ainda uma criança quando o pai morre num acidente de carro. Foi ele quem a ensinou a gostar de música, cinema, arte, tudo o que viria a formar sua identidade. Mas a vida segue -- a mãe tentando lidar com a viuvez e as contas que se acumulavam, a irmã focada no novo namorado, o irmão exilado no auge da ditadura militar. É a década de 1970, e o Brasil está em ebulição.
Mais velha, Alice decide estudar jornalismo, e na faculdade conhece Nando, seu primeiro amigo abertamente gay. A relação de cumplicidade que se estabelece entre eles é maior do que a de qualquer amor que Alice desejasse, mesmo que o procurasse em outras pessoas. É o final dos anos 1980, e a epidemia de aids toma proporções inauditas.
Para escapar dos lutos e frustrações que parecem persegui-la, Alice viaja para Nova York, onde encontra uma nova paixão, novos amigos, uma nova Alice. A última década do milênio promete transformações. É quando surge Antônio, quem dá tom e letra ao melancólico blues de Alice.
Com uma prosa despojada que amadurece com a protagonista ao longo das páginas, Simone AZ elabora o retrato de uma geração que atravessou décadas de conturbada trajetória política, enquanto constrói — com o humor e os dramas de uma jovem em constante transformação — um sofisticado quebra-cabeça, cujas peças só se encaixarão por completo ao final.
SIMONE AZ nasceu em São Paulo, em 26 de setembro de 1964. É escritora, roteirista, redatora e jornalista. Seu primeiro livro, a coletânea de contos Beijo de língua no espelho (Quelônio, 2022), foi finalista do Prêmio Sesc de Literatura de 2018. Dakota Blues é seu primeiro romance.
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