20 perguntas para Ian McEwan
O "The Times Literary Supplement" conversou com o autor de "Enclausurado" sobre suas preferências literárias.
Ao lançar sua coletânea de textos de estreia aos 27 anos, o inglês Ian McEwan ganhou um apelido peculiar: Ian Macabro. Nos contos que possibilitaram ao autor espaço para experimentação, leitores identificam justificativas para a alcunha que marca essa primeira fase criativa. Com linguagem seca e já explorando as guinadas narrativas que marcariam sua obra, McEwan insere nos contos a base temática para os trabalhos seguintes: as fricções entre humanos, a ambiguidade moral, os impactos psicológicos do trauma, a aberração sexual e a obsessão pelo grotesco.
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Ian McEwan (c) Annalena McAfee
O primeiro romance de McEwan, O jardim de cimento, condensa de maneira potente o estilo até então experimental. No romance, publicado em 1978, quatro crianças refazem o núcleo familiar após a morte dos pais, entregando-se a todo tipo de sensações e descobertas bizarras. É a partir dessa obra, que teve resenhas positivas em veículos como Kirkus Review e The Times Literary Supplement, que McEwan começa a chamar a atenção do público e da crítica literária.
Com A criança no tempo, romance publicado em 1987 que narra a angústia de um casal após o desaparecimento da filha, o autor inicia uma fase mais madura de sua carreira. A perturbação pelo grotesco dá espaço para a desordem psicológica e o desajuste emocional de personagens que, presas à inevitabilidade do passado e do futuro, são moldados pelas questões políticas que regem o presente.
É com Amsterdam, lançado em 1998 e vencedor do Booker Prize, e Reparação, lançado em 2001 e considerado um dos melhores livros do século, que McEwan se torna um dos principais escritores do seu tempo aos olhos da crítica. Os livros aprofundam a exploração da angústia íntima de personagens que se movimentam atravessando as particularidades políticas de seu tempo. Outras obras do autor esmiúçam grandes questões sociais em narrativas que hipnotizam o leitor: a invasão do Iraque em Sábado; o ativismo ambiental em Solar; a guerra fria em Serena; o brexit em A barata.

O que podemos saber, o novo romance de McEwan, pode ser considerado o ponto onde os temas e os recursos narrativos de toda sua obra convergem. Na primeira parte do livro, que se passa em 2119, o professor de literatura Thomas Metcalfe pesquisa obsessivamente um poema desaparecido, cujo conteúdo é um misterio. Escrito por Francis Blundy - um dos principais poetas do século XXI - para sua esposa Vivien, o texto se tornará um repositório de sonhos e de nostalgia torturante àqueles que olham para os escombros do passado e se perguntam sobre tudo o que foi perdido.
A segunda parte do livro é narrada por Vivien Blundy que, em um relato de amor e violência, desenraíza as suposições de Tom sobre o poema e as circunstâncias em que foi criado. Essa disrupção narrativa - típica de McEwan - levanta a pergunta que dá nome ao título: o que realmente podemos saber sobre o passado? Ao mesmo tempo uma busca, um thriller literário e uma história de amor, O que podemos saber é uma obra-prima que nos resgata da sensação de catástrofe iminente e imagina um futuro em que nem tudo está perdido.
O "The Times Literary Supplement" conversou com o autor de "Enclausurado" sobre suas preferências literárias.
Das realidades alternativas ao aprendizado de máquina, Ian McEwan fala sobre as perguntas levantadas em seu último romance, "Máquinas como eu", e sobre o porquê de o romance distópico ser na verdade sobre o presente.
Jorio Dauster escreve sobre suas traduções de Ian McEwan em homenagem ao aniversário de 70 anos do escritor.