Escrever, antes que apague

22/06/2026

Antes que apague é um romance que busca contornar a impossibilidade da relação entre uma filha e sua mãe que vai perdendo a memória para o Alzheimer. Busca inutilmente, e fracassa. 

Por saber que essa tarefa não pode ser realizada, o livro incorpora a dúvida quanto à sua legitimidade desde o princípio. A memória da mãe não vai voltar, a relação nunca poderá ser remediada e há questões éticas importantes de se contar no lugar de quem já não pode falar. 

A ideia inicial era que fosse um romance de não-ficção; eu acreditava, talvez um tanto ingenuamente, que oferecer minha própria vida seria não só a mais óbvia, mas também a melhor maneira de abocanhar o encontro entre literatura e realidade. Ao longo do percurso, porém, a ficção se impôs não só como exigência da lógica interna do romance, mas também como melhor via de acesso à verdade não unívoca do livro. 

Depois de imposta, a ficção se fez de diversas maneiras. Tomei emprestado, por exemplo, um personagem de Philip Roth, o dentista Henry, irmão do protagonista Nathan Zuckerman, como inspiração e referência para Henrique, um dos irmãos da narradora de Antes que apague. Henry, em O avesso da vida, é parte do jogo primoroso de Roth que torce a realidade e a reinsere a cada capítulo, sempre dentro da ficção. Outros personagens foram criados, e a articulação das histórias que eu tinha para contar com as anotações que eu havia coletado exigia também que eu, por vezes, inventasse cenas e acontecimentos. 

A escrita de Antes que apague aconteceu em dois movimentos. Primeiro, uma longa e trabalhosa construção a partir de estilhaços (anotações e fragmentos) que preenchiam pouco a pouco uma estrutura, como pedaços de uma argamassa que, ao se juntar, iam compondo um edifício; depois, uma “secagem” minuciosa do texto, que se intensificou em uma sequência de cortes tão brutal que mais parecia uma destruição. Eliminar palavras, excluir frases, parágrafos, capítulos, páginas inteiras – era como se, em algum lugar, eu quisesse que o livro não existisse. Todo o processo de escrita foi permeado de intensa angústia, como eu jamais sentira diante da confecção de um texto.

A primeira versão do livro começou a ser escrita ao longo das quatro semanas que passei na Art Omi, uma residência literária em Ghent, Nova York, para a qual fui aceita com o projeto deste romance[1]. O que me soava como idílio ― quatro inéditas semanas só para escrever, sem atendimentos, sem obrigações domésticas ― se provou um tempo de indescritível aflição. A culpa me aguardava dos dois lados, caso eu não conseguisse escrever e caso eu escrevesse. Eu acordava assustada às madrugadas me sentindo num pesadelo, um pesadelo que eu mesma estava construindo. Por um lado, a culpa me arrebatava porque parecia que eu estava profanando a memória da minha mãe sem memória; por outro, eu não me sentia digna do tamanho da história que eu tinha para contar, e o texto nunca me parecia bom o suficiente para valer tal sacrifício. Tamanha atribulação resultou no trabalho de texto mais incansável e minucioso que já empreendi, como se a melhor solução para as questões éticas que o livro levantava fosse estética. 

Ao longo dos meses de reescrita e edição, entendi que a sensação que às vezes me abatia por escrever partindo de eventos tão opressivos ― adoecimento, mortes, violência ― era causada por uma interpretação tão equivocada quanto onipotente: em algum lugar, eu sentia como se estivesse causando tudo aquilo, em vez de estar apenas escrevendo.

O mais poderoso antídoto que tive não foi teórico. Decidi conversar com alguns primos para adiantar-lhes algumas das histórias de que parti para ficcionalizá-las em meu romance. Eu temia feri-los, ou que nos afastássemos ainda mais, ou mesmo que passassem a me odiar. Combinamos de nos encontrar numa tarde de domingo. Cheguei na hora do almoço; saí quando o dia caía, depois de quase cinco horas de conversa. Uma conversa leve, prazerosa, divertida, embora o assunto fosse o mais pesado possível. Eles não só me escutaram, como contaram diversas anedotas e fatos que eu desconhecia. O resultado foi bem diferente do afastamento que eu imaginava e temia. A literatura, entendi, mesmo que se debruce sobre rupturas ― talvez porque enfim se debruce sobre elas ― pode, paradoxalmente, aproximar pessoas. 


Este texto é uma adaptação de um trecho da apresentação da tese de doutorado: Antes que apague: o caminho até o romance, defendida no Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da FFLCH - Universidade de São Paulo. 


[1] O diário dessa residência literária foi publicado em maio no site da revista Quatro cinco um. 

 

Conheça Natalia Timerman
 

NATALIA TIMERMAN nasceu em São Paulo, em 1981. É autora de Desterros: Histórias de um hospital-prisão (Elefante, 2017, reeditado pela Todavia em 2025), do volume de contos Rachaduras (Quelônio, 2019, finalista do prêmio Jabuti) e dos romances Copo vazio (2021) e As pequenas chances (2023), ambos pela Todavia. Em 2025, foi selecionada para a Art Omi, residência literária em Nova York, onde se dedicou à escrita deste romance.

 

Conheça Antes que apague

Ao descrever uma relação entre mãe e filha marcada por um passado doloroso, a autora de Copo vazio e As pequenas chances constrói uma história poderosa sobre os vínculos afetivos.

Diagnosticada com Alzheimer, a mãe da narradora perde, em velocidade assombrosa, os traços que definem sua identidade. No luto antecipado desse apagamento, vêm à tona revelações inesperadas sobre o passado materno. Este livro - uma investigação sobre a força da memória e dos laços familiares - atesta o poder da literatura contra o esquecimento.

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