Mario Quintana e a poesia minimal, por João Anzanello Carrascoza

28/07/2026

Quando, tempos atrás, fui convidado por Daniela Duarte, da editora Alfaguara, para organizar uma antologia poética de Mario Quintana, a fim de aproximar a sua obra de leitores das novas gerações, encantou-me, logo no início do trabalho, o reencontro com dois elementos enfáticos de seu estilo: a observação singular dos homens, dos objetos e de seus movimentos, e o talento para registrar, com mínimos recursos linguísticos, esse seu ângulo perceptivo. 

O humor, a espirituosidade e o lirismo são também traços demarcatórios de sua poesia, mas os dois acima mencionados ganham proeminência neste texto-homenagem – além de realçados por muitos de seus pares, como Carlos Drummond de Andrade no poema em prosa Quintanas’s Bar. Especialmente porque, numa esfera comparativa com a avalanche de frases de efeito, slogans, vídeos curtos e outras formas breves, são tão insígnes que comprovam o quanto essa produção minimal contemporânea é uma enchete de irrelevância. 

Basta citar alguns poemas de Quintana, até mesmo os de uma linha só, publicados em qualquer um de seus livros, sejam nos primeiros, sejam em O caderno H, onde proliferaram em maior quantidade:

Se me esqueceres, só uma coisa, esquece-me bem devagarinho.

Nunca me acertei bem com os padres, com os críticos e com os canudinhos de refresco.

Sempre me senti isolado nessas reuniões sociais: o excesso de gente impede de ver as pessoas...

Se esses poemas citados ganharam a forma de microcontos, com a presença do conflito obrigatório ao gênero, outros tantos mimetizam o formato de conceito, de definição:

Linha curva
O caminho mais agradável entre dois pontos.

Linha reta
Linha sem imaginação.

Vento
Pastor das nuvens.

Na estruturação da antologia que nomeei de O segundo olhar, apoiei-me no poema “As coisas”, no qual Quintana afirma que muitas coisas são fundamentais em nossa existência diária, mas as julgamos insignificantes porque não lançamos a elas um segundo olhar, como ele faz em relação à natureza, e o consubstancia em dezenas epigramas. Eis alguns:

Uma folha, ai,
melancolicamente
cai!

Quando abro a cada manhã a janela do meu quarto
É como se abrisse o mesmo livro
Numa página nova...

Ah, nunca a vida fez uma história mais triste
Que a de um caminho que se perdeu... 

O viajante
Eu, sempre que parti, fiquei nas gares
Olhando, triste, para mim...

Verão
Há sempre, afastada das outras, uma nuvenzinha preguiçosa que ficou sesteando no azul.

Grande é o poeta que, mesmo em seus poemas de curta extensão, semeia o segundo olhar e a sua consequente condensação poética em novas vozes literárias. Vejo, por exemplo, a linhagem minimalista de Quintana se expressar na estreia recente de duas poetas: Vanessa Corrêa, com seu belíssimo Tinge tudo dentro de mim; e Cristina Dias com os delicados haicais de Lembrança libélula.                                                    

Vanessa Corrêa nos apresenta cápsulas de alta voltagem lírica, à moda de Mario Quintana:

abelha  

que se suja de pólen      

levando para longe                      

outra promessa de flor

 

dorboleta          

voava                  

se virasse           

a letra

 

naquele dia       

você fazia sol     

e eu chovia

 

inveja dos rios   

que não sabem para onde vão  

e chegam ao mar

 

poesia                                             

é a língua                                       

lambendo                        

o nosso ouvido

Cristina Dias também emerge com versos de cepa similar à do poeta gaúcho e mirada de igual sensibilidade: 

eu nasci só,

tão só, que           

nem a minha mãe             

estava lá.

 

o asfalto amarelo

é presente do ipê,          

o homem nem vê.

 

penas de aves                                              

só são livres

ao vento.

 

alegria                                            

brisa furta-cor,                                                                         

acaba de passar por mim                          

um beija-flor.

 

poesia                              

ganhei um livro               

quintana de bolso.                       

fiquei rica.         

Celebremos, pois, os 120 anos de nascimento de Mario Quintana, a sua extensa produção poética, seus micropoemas, suas nanonarrativas e as novas poetas que brotaram da raiz de sua verve.     

——

Conheça Mario Quintana

MARIO QUINTANA nasceu em 1906 na cidade de Alegrete, no Rio Grande do Sul. Nos anos 1930, começou a trabalhar como jornalista e tradutor. Dele, a Alfaguara publicou suas primeiras obras, como A rua dos cata-ventos (1940), Canções (1946) e Sapato florido (1948), além de seus livros mais marcantes, como Apontamentos de história sobrenatural (1976) e A vaca e o hipogrifo (1977). Quintana recebeu importante prêmios, como o Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras em 1980. Faleceu em 1994, aos 88 anos.

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