Contar a sua história é o que resta a um homem que não tem mais nada, por Waldomiro J. Silva Filho

28/07/2026

“... foi assim que nasceu a literatura: um deus perde seu amado amigo para a morte, tem notícia de uma fonte que poderia o trazer de volta à vida e sai na sua aventura. Gilgamesh, rei de Uruk, enfrenta desafios inimagináveis, encontra a fonte da imortalidade, logo a perde, fracassa, e quando volta não tem nada, apenas uma história para contar. Só escreve, só conta uma história quem não tem nada.

Um homem bom, p. 32.

1. Um homem bom é um romance sobre a culpa do sobrevivente, aquela pessoa que não sabe por que recebeu a graça de não ter sido tragada por uma insana máquina da morte. Ela não entende a graça, só vive sob os escombros do seu oposto. Essa pessoa está tão atordoada que o seu relato envereda por uma zona indefinida entre o vivido, o herdado, o pesadelo, o pressentimento, em que a experiência e a imaginação se misturam e a própria autenticidade da sua narrativa é posta sob suspeita. Foi aí que o meu trabalho de escritor se tornou possível, não para criar um testemunho edificante, mas na tentativa de dar forma ao que nunca deveria ter sido vivido por aquela pessoa e que tampouco poderia ser evitado, em razão das suas escolhas.

Este romance, Um homem bom, na verdade uma novela em sua forma, é uma peça que foi escrita aos poucos, enquanto eu procurava entender como seria a vida de uma pessoa que teve todos os sonhos do mundo, mas a quem lhe sobraram apenas fios soltos, uma dor crônica que não estaciona em nenhuma parte específica do seu corpo, uma história por contar. 

2. Eu escrevo à mão com lápis Dixon Ticonderoga N. 2 HB em cadernos e blocos. Tenho preferência por cadernos Moleskine. É um capricho, eu sei. Escrever assim tem a velocidade precisa e se ampara em toda tecnologia que me basta... isso me permite chegar perto e me deter. Não tenho pressa, meu personagem está sentado em uma cadeira desconfortável, e não me parece que ele vá a algum lugar. Ele já não tem motivos para fugir. 

Em geral, sou muito disciplinado e escrevo pela manhã: acordo muito cedo, um pouco antes das 5h, faço uma caminhada de 4km durante a qual vou escrevendo mentalmente. Há uma bela área verde com muitos pássaros nos arredores da minha residência, o que me pacifica tanto da turbulência onírica das garras da qual eu acabo de me livrar quanto da incógnita que me espera no novo dia. Depois que retorno, tomo banho e partilho o café da manhã com minha esposa, lanço no papel o que escrevi na mente. Escolho a companhia de uma generosa xícara de café e gosto muito de ouvir jazz, especialmente Miles Davis, Wynton Marsalis e Keith Jarrett. O modo como escrevo  requer um longo período de pesquisa, anotações e reflexão. Faço três tipos de anotações: (a) notas dispersas (que podem envolver registro de leituras e pesquisas), (b) esboços da estrutura geral da narrativa e informações que podem contribuir para estabelecer característica do ambiente, do personagem, de episódios a serem narrados e do enredo e (c) a primeira versão do texto. Muitas vezes me surge somente uma frase e é com isso que terei de me virar – não há motivo para desprezar o que tenho à mão; para mim tudo é despudoradamente valioso.

Com uma ideia mais clara do texto, passo para o computador, imprimo e faço novas anotações e correções no papel, num processo quase sempre muito demorado. Um trecho ou capítulo pode ter mais de 30 versões. Nesse trabalho, uso um lápis alemão da Faber-Castell que editores e revisores do século passado usavam, conhecido como “checking pencil” ou “editor’s pencil”. Ele tem uma ponta vermelha e outra azul que me servem para destacar correções (vermelho) e adendos (azul). Também uso canetas de várias cores – gosto especialmente das canetas Pigma Micron 01 ou 02 mm que conheci através do meu filho, João. Concluído o manuscrito completo, quando imagino que a história ganhou forma e autonomia, já é capaz de se sustentar sobre as próprias pernas, imprimo tudo mais uma vez e volto a fazer anotações, correções, subtrações e acréscimos. 

Meu romance anterior, Os dias, teve 18 versões e Um homem bom, 12. A terceira versão completa de Um homem bom tinha cerca 340 páginas, a última, 120. Em ambos os casos, foi uma bela batalha diária até que eu já não tinha mais forças para brigar e fui salvo por uma editora que decidiu publicar e me tirar o fardo de tentar, em vão, escrever algo que me deixasse plenamente satisfeito.

3. No início, que pode ser o início de todo o processo ou o início de uma jornada diária de trabalho, sou possuído pela fantasia de que a história e o texto são bons, valem a pena chegar a alguém. Porém, invariavelmente, quando o texto está impresso sobre minha mesa e passo a ler aquilo com mais cuidado, sou tomado por uma desagradável sensação de decepção. Avanço na leitura, incrédulo, e, para meu desalento, nasce em mim a convicção de que o texto não passa de um amontoado de clichês, lugares comuns ou simples imitações de coisas que eu já li em algum lugar, mas não me lembro onde. Nesse ponto, só consigo pensar que foi um erro ter insistido naquela história. A matéria prima do meu trabalho de escritor é algo bruto, indelicado, feio, desagradável, algo que nem mesmo eu gostaria de ter ao meu lado, um malassombro. “Resto” talvez seja a melhor palavra. Mas não tem jeito, são os meus restos, estão aqui comigo, carrego-os para todos os cantos, como o fantasma que arrasta suas correntes por corredores inabitados.

Como eu escrevi logo no parágrafo anterior, isso acontece invariavelmente, esse desalento acontece invariavelmente e, por isso mesmo, familiarizado com minha autocomiseração, já não é algo que me perturbe e paralise. É importante não ser muito dramático, pois é nesse exato instante que eu começo a trabalhar de verdade: lapidar, polir, rever, rever mais uma vez, buscar a forma mais simples, esse é meu ofício. Como um operário cioso das suas obrigações, faço isso todos os dias (vamos lá, quase todos os dias), como instalar um novo sistema hidráulico ou uma nova rede elétrica em um apartamento muito antigo e condenado. É um processo muito árduo, incerto, porém prazeroso. Não me redime das minhas aflições, não cura as minhas dores, mas, quando escrevo, quase nunca sou incomodado por ondas de angústia e ansiedade. É parecido com estar fazendo algo importante.

Virgínia, minha esposa, é a minha primeira leitora. A leitora. Ela me dá o rumo e o ânimo que preciso para seguir em frente, ainda que, algumas vezes, eu siga na direção oposta – mas ela me entende.

4. Um homem bom demorou anos para chegar à versão que encaminhei à Companhia das Letras (a versão número 9 de 12). Em várias oportunidades me pareceu que eu havia chegado a um beco sem saída. Escrever este romance foi aprender a lidar com as dificuldades de uma narrativa em primeira pessoa com um personagem levado por eventos que ele não compreende e com seu ponto de vista precário, parcial, falível, um homem ao sabor do que se lhe aparece. Hoje eu sei que, quando eu me envolvi com essa história, o que eu queria com este romance era impossível de ser feito. Não é sempre assim, afinal? Dia após dia, eu precisava criar o ambiente para o narrador viver, colocá-lo em eventos que exigissem algo dele, ouvir o que ele tinha para dizer, pois é importante deixar claro que eu não tenho qualquer relação com ele. Fora a coincidência de alguns gostos musicais e literários e termos nascido na mesma cidade, Camacã, Bahia, eu não sou o homem bom. Por isso, a parte mais árdua, para mim, foi não ouvir o que se movia na minha alma, nos meus sentimentos, na minha memória; eu precisava ouvir o que se movia nele, que emoções varreram o seu corpo, que memórias fugiam do seu controle. Calçar os sapatos de um homem devastado, uma devastação que não era minha, mas com a qual eu podia (eu devia?) me reconhecer.

O que me fez escrever Um homem bom? Não sei, sinceramente. Foram motivações dispersas em várias experiências, datas e circunstâncias. Só posso dizer que um dia acordei, fiz minha caminhada, me pareceu que a vida tem sido generosa comigo e decidi que enfrentaria um incômodo que me perseguia há mais de trinta anos: eu não conseguia concluir a leitura de É isto um homem? de Primo Levi, um livro dilacerante (o mais dilacerante!) e... ilegível... para mim: “Não voltaremos. Ninguém deve sair daqui; poderia levar ao mundo, junto com a marca gravada na carne, a má nova daquilo que (...) o homem chegou a fazer do homem.” Como na imagem criada por Wittgenstein, aqui está a rocha dura que entorta, entortou e entortará a minha pá.

Só consegui superar os obstáculos que me impediam de levar adiante a leitura de Levi depois de ter retomado Os anéis de Saturno, de W.G. Sebald, e, daí, ler toda a sua obra. Posso dizer que fiz uma escolha moral ao seguir o trabalho Sebald em vez de recorrer a qualquer narrativa de superação ou redenção. Interessa-me a literatura que nasce da perplexidade de conhecer a dor do outro, do desencontro essencial em encontros acidentais, de ser um escritor que não sofreu diretamente o horror e que aceita o desafio de falar sobre alguém que viveu o horror e escapou dele. Qual a diferença entre nós dois, entre mim e meu personagem, uma vez que nós dois estamos vivos, respiramos, temos fome, dormimos e choramos? Tratou-se, para mim, de perseguir memórias que não são as minhas próprias, mas que me assediam como uma herança incômoda, indevida, um indecente segredo de família. O meu romance não pretende trazer revelações que levem à verdade, como as tragédias shakespeareanas. Minha tentação foi  revirar o que restou de uma pessoa humanamente ferida e quase sem esperanças, mas que quer seguir viva, mesmo sem a verdade e a expectativa da redenção, como nas tragédias tchekhovianas. 

Meu narrador-personagem, vocês verão, não tem coisa alguma. Resta-lhe contar, tentar contar, uma história.

5. Eu não tenho um método. Tenho apenas um modo como passo uma parte do meu dia. Escrevi Um homem bom nas manhãs frescas de Salvador, durante minha visita à Alemanha (uma beleza erguida sobre uma desgraça), entre minhas aulas de filosofia, minhas leituras literárias e filosóficas, o amor que nutro por minha esposa, meu filho, meu pai e meus amigos, as sessões de análise, as aflições de um mundo que se recusa a ser como eu desejo que ele seja, no intervalo entre um jogo e outro do Fluminense.

 

Conheça Waldomiro J. Silva Filho


WALDOMIRO J. SILVA FILHO, natural de Camacã, Bahia, é filósofo, professor do Departamento de Filosofia da UFBA e torcedor do Fluminense. Foi pesquisador visitante no MIT e em Harvard, nos Estados Unidos, e na Universidade de Colônia, na Alemanha. Tem extensa produção acadêmica sobre filosofia, democracia e ceticismo, como os livros "Por que a filosofia interessa à democracia", "Epistemology of Conversation" e "A calamidade". Os dias, seu romance de estreia, foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura.

 

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