Por que os brinquedos não estruturados fazem tanto sucesso?
Caixa, fita, embrulho, garrafa pet... A brincadeira livre é importante para desenvolver a imaginação das crianças e ajudá-las a entender o mundo e buscar de soluções
Estéfi Machado faz mágica com um pedaço de papelão (e outros restos de coisas), cola quente e estilete. Caixa de frutas vira casinha de fadas e pregador de roupa é facilmente transformado em tubarão. “A brincadeira está nos olhos de quem vê!”, diz a “designer, mãe, fotógrafa, mãe, ilustradora, mãe e muito crafiteira – e mãe”, autora de O livro da Estéfi.

Se perguntada sobre a origem de suas ideias, Estéfi não sabe bem responder e rapidamente emenda: “Parece que as coisas falam comigo e sugerem ser outras coisas!”. Às vezes, elas surgem numa viagem, brotam ao ver um filme com o filho, nascem de referências e pesquisas diversas. Ao passear pelo corredor de frutas do supermercado, pode voltar com a sacola cheia de inspirações.
Muitas dessas invenções foram parar primeiramente num blog, espaço em que ensina passo a passo como criar inúmeras brincadeiras a partir de simples materiais ou coisas que iriam para o lixo, como caixinhas de suco, sacos de papel de pão e vidros de geleia. Sucesso imediato, o blog virou site e gerou um livro.
O gosto pelas habilidades manuais vem da infância, quando estudou numa escola Waldorf e lá teve aulas de tecelagem, tricô, lapidação e marcenaria. “Foi fundamental para desenvolver e despertar em mim habilidades que eu jamais pensei ser capaz.” Já a criatividade vem do fato de ser a filha do meio entre cinco irmãos. “A gente estava sempre inventando alguma coisa!”, brinca.
Mas parece que as ideias passaram a jorrar mesmo depois da maternidade. Foi o filho, Teo, que estimulou a designer a inventar mundos feitos de papelão e outras coisinhas já sem serventia. Foi a cola que Estéfi encontrou para ficar grudada no menino, driblando necessidade de trabalhar e o desejo de tê-lo pertinho no dia a dia. Hoje ele é seu maior parceiro de criação!
Por isso que as atividades propostas no livro são um convite para pais e filhos criarem (e brincarem) juntos, assim como Estéfi e Teo. E não é preciso ter muita habilidade manual, não. “Encorajo todo mundo a praticar. Capazes todos somos, uns com mais jeito do que os outros, mas a experiência sempre terá sido válida. Para mim, só não pode ter medo de errar. Errar é legal, eu erro muito”, conta. Mais do que o resultado, vale o processo. Ou a brincadeira. “Não tem nada mais prazeroso do que essa sensação de ter dado vida a uma ideia.”
As criações de Estéfi misturam influências de sua meninice, nos anos 80, com referências da infância de hoje, de seu filho. Tem máquina de escrever e rádio portátil, objetos que marcaram outras épocas. O tradicional cavalinho de pau, brinquedo de muitas infâncias, ganha uma releitura: é um unicórnio feito de, claro, papelão, copos descartáveis coloridos e fitas diversas que sobraram de alguma festa de aniversário.

Em casa, ela tem um verdadeiro arsenal de cacarecos e lixo, muito lixo! “Qualquer coisinha eu guardo para um dia virar algo”, diz. “Mas eu adoro especialmente ver uma caixa de papelão virar um sonho!”, afirma a autora, que não é adepta de seguir regras e receitas em suas criações.
Experimentação, assim como fazem as crianças, é a palavra de ordem. “Sempre digo que trabalho na Criançolândia! As crianças têm uma capacidade de encantamento que é única, a gente desaprende com o tempo. Beber dessa fonte me faz ficar mais ligada nisso, sabe? Transformar o trivial e o mundano é muito legal”, conclui a autora, uma criadeira de coisas.
(Texto atualizado em 15/8/2022)
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