Sobre ser pai e ser filho: 3 perguntas para Jeferson Tenório

05/08/2026

Além de autor de Estela sem Deus (Companhia das Letras, 2022) e de O avesso da pele (Companhia das Letras, 2020), llivro vencedor do prêmio Jabuti 2021, Jeferson Tenório também é pesquisador, pai e agora tradutor. Foi ele quem criou a versão em Língua Portuguesa de Papai (Brinque-Book, 2026), novo livro do autor e ilustrador americano Christian Robinson, com o qual o Blog Letrinhas conversou nesta matéria.

Jeferson Tenório

A partir de exemplos da natureza, Christian vai construindo em Papai um retrato multifacetado do que é um pai, inspirando-se em comportamentos reais de diferentes animais - inclusive aqueles que seriam passíveis de críticas entre os humanos, como pais que se afastam de seus filhotes e até os que, mesmo sem intenção, acabam ferindo-os. Essa história, que não esconde a imperfeição de vários tipos de pais, de certa forma também conecta Robinson e Tenório, já que autor e tradutor cresceram com a ausência de uma figura paterna. 

LEIA MAIS: 'Papai' mostra muitas formas de ser pai – principalmente as imperfeitas


O Blog Letrinhas conversou com Tenório sobre como foi o processo de tradução de Papai, mas principalmente sobre o que é ser pai e ser filho. Confira:


Blog Letrinhas: Christian Robinson, assim como você, não teve essa referência de figura de pai. Mas você é pai. Como foi o processo de traduzir 'Papai'? Você se colocou mais no lugar de pai ou de filho?

Jeferson Tenório: O livro de Christian trata a paternidade de modo muito particular, mas que diz muito sobre o que é ser pai e o que é ser filho. Tentei traduzir estes sentimentos de afetos, sensibilidades, inseguranças, presenças, ausências e as complexidades numa relação dessas. É um livro infantil, mas que diz algo importante aos pais. Mostra de maneira simples e poética uma paternidade não idealizada, mas uma paternidade possível. É de fato um livro cativante e sensível.

Papai, de Christian Robinson


Blog Letrinhas: Pode falar um pouco sobre como a sua busca por seu pai se transformou depois que você se tornou pai?


Jeferson Tenório: Quando me tornei pai pela primeira vez, entendi que precisava refletir mais profundamente sobre a paternidade. Tempos depois iniciei meu doutorado em que discuti a representação do pai na literatura. Em determinado momento da pesquisa percebi que a busca pelo pai é também uma busca pela mãe. Isto é, não se pode pensar uma paternidade sem pensar a maternidade também, sobretudo quando há ausência desse pai, pois de certo modo a mãe acaba assumindo uma dupla responsabilidade na criação dos filhos. Sabemos que a realidade brasileira é muito dura com mulheres que educam seus filhos sozinhas. E foi a partir dessas reflexões, que cheguei nos meus livros Estela sem Deus e O avesso da pele.


Blog Letrinhas: A partir da sua experiência como pai e como filho, o que é ser pai para você? Como essa figura de pai pode ser representada?


Jeferson Tenório: É difícil definir o que é ser pai, porque há várias formas de ser pai. No entanto, me parece que não há como exercer a paternidade sem uma ética do cuidado. Uma ética que pressupõe um comprometimento com aquela vida em formação. Entender que educar é repetir, que educar é dar segurança e espaço para que um filho possa conhecer o mundo. Acho que a representação paterna, de modo geral, raramente é positiva na literatura. Isso se deve a um modelo patriarcal em que não havia uma participação efetiva dos homens na educação dos filhos. Mas felizmente, ainda que devagar, temos visto pais participando mais da criação dos filhos.

(Texto: Naíma Saleh)

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