Autores de ‘Mas por quê??! A história de Elvis’ falam sobre escrever teatro para criança
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Num palco pequeno e circular, a atriz Sandra Vargas acaricia cuidadosamente o chão de terra, morada de seus segredos de menina. A luz é intimista, não há cores nem muitos elementos cênicos. Algumas palavras são quase sussurradas pela intérprete, vestida simplesmente de branco. Ao redor do palco de terra, olhinhos brilham e acompanham atentos todos os gestos, lentos, e todas as falas, poucas.
Nos espetáculos para bebês criados pelo veterano grupo Sobrevento, 30 anos de trajetória, tudo é bem diferente dos objetos coloridos e barulhentos – de brinquedos a livros, muitas vezes oferecidos aos bem pequeninos. A peça Terra, terceira montagem voltada à primeira infância, rompe com ideias pré-concebidas do que é criado para os bebês.

“O teatro para a primeira infância mostra que é possível instaurar um clima poético”, conta Sandra logo após uma apresentação da peça Terra, que traça uma arqueologia da memória com a escavação de objetos cheios de história. São cacos de prato que trazem a saudade da avó, concha com as lembranças do pai, livro recheado das histórias narradas pela mãe. Ao desenterrar esses pequenos tesouros, cria imagens relacionadas à imensidão da noite e ao aconchego do chão da infância.
A cada apresentação a atriz diz que fortalece a crença de que a gente nasce com a poesia e vai perdendo ao longo da vida. “As pessoas crescem, ficam aceleradas demais e muitas vão perdendo essa capacidade de se conectar facilmente com a poesia”, afirma Sandra, cujo grupo já montou sete espetáculos para crianças, incluindo os três para bebês.
Para a experiente intérprete, também dramaturga, esse potencial poético parte da premissa de que a criança vive o instante presente. “Ela está no agora. Isso faz com que ela viva tudo, cada coisinha, cada gesto, cada fala. Vivencia a delicadeza, o deslumbramento, o olho no olho”, explica. É nítida a emoção dos pais diante do maravilhamento dos filhos.
Engana-se quem pensa que os bem pequenos não captam as metáforas que permeiam os espetáculos do grupo. Em apresentações da peça A bailarina, outro solo com a atriz, ela ouviu comentários que provam como absorvem as imagens da poesia. “Num momento do espetáculo, eu coloco uma corrente nos braços, e eles dizem: ‘Ela não vai poder dançar porque está presa’. O que mais eu quero? Captaram tudo.”

Outro espetáculo para bebês do grupo Sobrevento, Meu jardim, semeia imagens metafóricas em meio a um deserto, onde um viajante entediado faz florescer incríveis transformações. Na peça, interpretada por Luiz André Cherubini, a sensorialidade é bastante explorada.
Ao crítico e jornalista Dib Carneiro Neto, Cherubini contou que é uma surpresa para os pais descobrir que os bebês são autônomos em uma experiência teatral. “E que gostam não só de xilofone e cores vivas ou tons pastel, mas de violino, piano, branco, marrom, cinza.” Leia a entrevista de Cherubini, um dos fundadores do Sobrevento, aqui.

Assim, é importante romper com alguns mitos da primeira infância. Em oficinas de formação com educadores em creches, a atriz observa que muitas vezes os professores colocam as crianças para cantar em todas as situações. “E a gente pode caminhar e observar o chão”, exemplifica Sandra, destacando que os momentos de contemplação ou de silêncio instauram a poesia. “Quando uma criança está perto da gente, ela nos coloca no chão, o que deveria ser verdadeiramente nosso chão.”
Anote na agenda
Espetáculo Terra, recomendado para crianças até 3 anos de idade
Quando: sábados e domingos, às 11h, até 11 de dezembro; fazer reserva por e-mail (info@sobrevento.com.br)
Onde: Espaço Sobrevento (rua Coronel Albino Bairão, 42 - Metrô Bresser, Mooca).
Quanto: grátis
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