Famílias da literatura que têm tudo a ver com famílias reais
Selecionamos livros que mostram famílias de todo tipo - que não seguem convenções nem se formam só por laços de sangue - mas onde o amor é presente
Um urso encontra um ovo achando que garantiu seu almoço… mas da casca sai uma gansinha. Uma criaturinha falante e cheia de energia que imediatamente tem certeza de que aquele animal peludo e imenso é seu pai. A gansinha, que ganha o nome de Ganzi, começa a seguir o urso por todo canto – o que de início, o deixa bastante irritado. A contragosto, ele se vê no papel de protegê-la e de ensiná-la a sobreviver. Mas, pouco a pouco, o urso vai se dobrando… E os dois acabam formando uma família nada tradicional – mas nem por isso com menos afeto.
Aos poucos, o urso vai se dobrando à gansinha que o adotou imediatmente como pai em Ganzi, a gansinha (Brinque-Book, 2026)
Ainda assim, há coisas que a gansinha precisará aprender, como usar suas asas para voar, que o urso jamais será capaz de ensiná-la…
Em Ganzi, a gansinha (Brinque-Book, 2026) o novo lançamento de Julia Donaldson, célebre autora de O Grúfalo (Brinque-Book, 1999), com ilustrações de Sara Ogilvie e tradução de Gilda de Aquino, não vemos apenas como uma família pode se formar nas circunstâncias mais improváveis. Mas também como ela pode se expandir e ir além do núcleo, criando uma verdadeira aldeia.
Ganzi encontra outros gansos como ela. É com eles que ela aprende a voar e é com eles que ela faz o que todos os gansos fazem: migrar para terras mais quentes para fugir do frio invernal. Mas os laços com o urso fazem com que ela sempre regresse. Quando o mundo dos dois se expande, Ganzi vive coisas que ela não conseguiria experimentar se ficasse só com o pai urso. E ele também tem a oportunidade de hibernar tranquilo – como todos os ursos fazem.
Não é à toa que o tema de criar filhos como algo da ordem do coletivo aparece em tantas histórias: é nosso recurso ancestral de sobrevivência. Sobrevivemos porque formamos grupos. E, por isso, a falta de uma rede de apoio tem um impacto tão grande, especialmente etre famílias que habitam as cidades. “Em muitas culturas, especialmente indígenas e africanas, o cuidado sempre foi coletivo, envolvendo parentes, vizinhos e a comunidade. Todo mundo já deve ter ouvido, em algum momento, o provérbio africano ‘é preciso uma aldeia para educar uma criança’”, observa a autora literária e educadora Waldete Tristão, reforçando que a responsabilidade pelo cuidado e pela criação das crianças não é natural nem individual, mas, sim, socialmente construída.
Para a psicóloga Natalia Pinheiro Orti, professora na The School of Life Brasil, essa valorização da família nuclear, composta por pais e filhos, em detrimento da família estendida, que pode incluir avós, tios e primos em uma convivência mais integrada, está muito ligada à forma como a sociedade moderna se organizou. “Desde o início do processo industrial e, principalmente, com o avanço e a consolidação do capitalismo, a inserção no mundo do trabalho passou a exigir cada vez mais migração para centros urbanos, o que produz mais afastamento dos sistemas familiares ampliados. As famílias passam a se organizar como unidades menores e com mais condições de mobilidade geográfica. O aumento constante do custo de vida e as habitações de tamanho reduzido, em geral, diminuem a probabilidade da convivência mais próxima e recorrente com outros familiares. Além disso, vivemos em um momento histórico-cultural no qual a autonomia e a individualidade ganharam muito valor e importância. Assim, as tomadas de decisão são cada vez mais centradas em aspirações e narrativas pessoais, em detrimento de escolhas de trajetórias mais coletivas”, pontua.
É fato que, no modelo de sociedade atual, os pais são os responsáveis legais pelos filhos e devem ter a prerrogativa de tomar as decisões e arcar com as consequências relacionadas aos mesmos, mas isso não deveria impedir o compartilhamento da responsabilidade com redes mais ampliadas – que incluam família estendida, amigos, escola e o próprio estado”, Natalia Pinheiro Orti, psicóloga
Autora dos nossos livros O quintal das Irmãs (Pequena Zahar, 2024) e do Orún ao Ayé (Companhia das Letrinhas, 2026), Waldete chama atenção também para o caráter patriarcal da sociedade em que prevalece essa nucleação do cuidado, que acaba recaindo sobretudo nas mulheres. “Essa função do cuidar atribuída quase exclusivamente às mulheres, associando-as ao espaço doméstico e à ideia de ‘instinto materno', é um projeto cultural que foi construído, mas pode ser transformado. A industrialização reforçou essa divisão ao separar o trabalho produtivo – dos homens – do reprodutivo – das mulheres.” Ela cita ainda o papel de tradições religiosas que foram reforçando essa ideia da mãe como cuidadora principal e da falta de políticas públicas que contribuem para o isolamento das famílias no cuidado, como creches e a própria falta de espaços públicos de convivência, como praças, bibliotecas.
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Mas não é em todas as comunidades que essa nucleação prevalece. Pelo contrário: há sociedades em que o coletivo é a regra. “Nesses contextos, a criança não pertence apenas aos pais: ela pertence ao grupo, à aldeia, ao quilombo, ao terreiro, à comunidade ampliada”, explica Waldete. Ela lembra que, entre diversos povos indígenas no Brasil, o cuidado ainda é compartilhado entre mães, pais, avós, tios, irmãos mais velhos e até pessoas sem laços de sangue. “Crianças circulam livremente entre casas, aprendem com diferentes adultos e constroem vínculos múltiplos. A responsabilidade é distribuída e a transmissão de saberes como as histórias, rituais, modos de viver, acontecem na convivência cotidiana, não dentro de uma casa isolada”, explica a autora.
Waldete lembra ainda que nas famílias negras, tanto no período escravista quanto no pós-abolição, o cuidado coletivo foi uma estratégia de sobrevivência e resistência. “Mulheres negras criavam juntas, compartilhavam tarefas, amamentavam filhos de outras mulheres, e crianças eram cuidadas por tias, madrinhas, vizinhas e pela comunidade do entorno. Em terreiros de religiões de matriz africana, o cuidado é parte da própria estrutura social: mães e pais de santo, ekedis, ogãs e mais velhos participam da formação das crianças, transmitindo valores, proteção e pertencimento”.
O que se tornou exceção foi o modelo branco, urbano e individualista que a modernidade consolidou. (...) O que se perdeu nesse processo foi o senso de comunidade: a ideia de que uma criança pertence ao coletivo, de que várias pessoas participam de sua formação e de que o cuidado é um trabalho social”, Waldete Tristão
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O que acontece quando todas as tarefas e a carga mental relacionadas aos cuidados com as crianças ficam concentradas nas famílias nucleares?
Sobrecarga.
Tanto física quanto emocional.
Isso se traduz em aumento do estresse parental, de tensão conjugal e de riscos à saúde mental, especialmente no aumento do risco de esgotamento sistêmico – o famoso burnout, como explica Natalia. Até porque, o trabalho dos pais normalmente não se limita aos filhos, há todo um entorno: o trabalho formal remunerado, o trabalho com a organização e manutenção da casa… Isso cria conflitos diretos em relação ao autocuidado dos pais, que, muitas vezes, estão completamente exaustos, o que impacta direta e indiretamente a experiência de convívio com a crianças por conta de mais “irritabilidade, impaciência e menor disponibilidade afetiva”, como explica a psicóloga. Com isso, o próprio vínculo com os filhos pode perder a qualidade.
Se, de um lado, os pais sentem o peso de serem inteiramente responsáveis pelo cuidado com as crianças, do outro, as crianças também sentem a falta da rede que poderia distribuir melhor os cuidados. “A total dependência dos pais como cuidadores diretos restringe o contato das crianças com a diversidade de modelos de cuidado que costumam existir em redes ampliadas”, explica Natalia. Quando a organização do cuidado assume um caráter coletivo, rotinas se tornam mais sustentáveis, os cuidados passam a ser melhor distribuídos e os adultos também têm mais tempo para se reabastecer e cuidar de si.
“Para as crianças, o cuidado compartilhado amplia a segurança emocional, porque elas contam com vários ‘adultos de confiança”, explica Waldete. Isso enriquece o desenvolvimento social. Assim como conviver com outras crianças de idades diferentes, com outras famílias que se constituem e se organizam de forma diferente. “Também aumenta a autonomia, já que ambientes coletivos estimulam cooperação e responsabilidade”, completa a educadora.
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A gansinha sempre volta para o pai urso em Ganzi, a gansinha (Brinque-Book, 2026)
“Pode parecer um tanto de saudosismo, mas trazer de volta uma lógica mais comunitária de cuidado não exige ‘voltar ao passado’, mas reconstruir, no presente, formas de convivência e apoio que se perderam", defende Waldete. Para ela, isso pode acontecer em gestos pequenos, cotidianos, que ampliam a rede de uma criança e aliviam a solidão das famílias. “O ponto central é recuperar a ideia de que criar não é um ato isolado, mas uma prática compartilhada”, conclui.
E não é preciso se limitar a laços de sangue para construir uma rede. Criar pequenas comunidades entre famílias que têm crianças, pensando em possibilidades de encontros e convivência é um caminho. “É possível desenvolver algum senso de comunidade entre pais que compartilham o trabalho de cuidar dos próprios filhos e podem encontrar uns nos outros um apoio consistente e seguro”, defende Natalia. Ela lembra que, em alguns casos, a escola pode ser o espaço para o encontro de famílias com afinidades e sinergia “para acordos, colaborações e compartilhamentos”. Essas aproximações podem ser feitas de forma intencional, com ofertas concretas de apoio mútuo. Por exemplo: pensar em como os pais podem se revezar no transporte das crianças para a escola e atividades extracurriculares, pensar em passeios e encontros em grupo, criar o hábito de uma vez na semana se reunir na casa de alguém para passar a tarde ou fazer a lição de casa junto. Conviver com diferentes dinâmicas familiares, estar em outros espaços além da casa e da escola também traz repertório para as crianças e estimula essa flexibilidade de se adaptar a contextos diversos.
Um modelo de cuidado coletivo mostra que criar uma criança é um trabalho social, não uma tarefa privada da família. Ele ensina que o desenvolvimento infantil acontece melhor quando várias pessoas participam, quando há vínculos diversos e quando o peso do cuidado não recai sobre um único adulto. Esse modelo revela que o cuidado não depende de “instinto”, mas de disponibilidade, apoio e convivência e que redes comunitárias fortalecem tanto as crianças quanto os adultos”, Waldete Tristão
“Também é importante ocupar espaços coletivos como praças, bibliotecas, centros culturais, associações de bairro etc. porque eles ampliam o círculo de convivência das crianças e fortalecem vínculos afetivos fora da casa. Quanto mais a infância circula, mais ela pertence ao coletivo”, explica Waldete.
Ampliar o círculo do cuidado alivia o peso dos pais e traz para a criança mais adultos de confiança que podem se tornar referência e ensinar coisas que os próprios pais não sabem. Todo mundo ganha. Quando se compartilha o cuidado, se compartilham saberes, histórias, afetos. Voltamos a ser um “nós”, como sempre foram nossos ancestrais.
(Texto: Naíma Saleh)
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