Parassocial: a conexão que sentimos com personagens que amamos
Sabe aquele personagem que pode existir só na imaginação, mas que desperta em você uma conexão inexplicável? Como se vocês se conhecessem? Fizemos uma lista de personagens asssim:
As eleições de 2022 se avizinham, e com elas a presença constante do assunto política no cotidiano do país. Da escola às reuniões de família e o convívio com os colegas, as crianças são espectadoras desse debate nacional. Porém, muitos podem pensar: "se elas ainda não compreendem os elementos que compõem o jogo político, por que falar sobre o assunto com as crianças?" Conversamos com cinco especialistas para refletir sobre essa pergunta e, assim, convidar nossos leitores ao questionamento: se viver é político, por que crescer não seria?
Daniela Tafuri, Márcia Thomazinho, Isabella Gregory, Anna Rosa Amâncio e Rafaela Pacola, que contribuíram neste texto, fazem parte da equipe do CECIP (Centro de Criação de Imagem Popular). Trata-se de uma organização sem fins lucrativos que atua há mais de 30 anos no fortalecimento da cidadania por meio da educação e da comunicação, e que desenvolve estratégias de participação infantil em políticas públicas e projetos de formação em relação à infância e educação.
Ilustração do livro Quem manda aqui? (Companhia das Letrinhas), de Larissa Ribeiro, André Rodrigues, Paula Desgualdo e Pedro Markun. Resultado de oficinas feitas com crianças, a obra pode ser uma alternativa criativa de educação política por meio da literatura
A palavra "política" faz parte do vocabulário da vida social de forma tão enraizada que nem sempre paramos para pensar no que ela significa. Porém, é justamente na desautomatização dos seus muitos significados que está a chave para compreendê-la além do senso comum. Então, antes de falar da importância da política para a infância, não podemos deixar de defini-la. Afinal, se nós adultos não pensarmos em tudo o qsue a política pode ser ou representar, a criança pode crescer sem a dimensão adequada de como ela nos impacta.
“Sabemos que a palavra 'política' deriva do grego “polis”, que significa cidade, e segundo Aristóteles, a primeira função da política era a de descobrir qual a maneira de viver que leva os indivíduos à sua felicidade, bem como desenvolver um modelo de governo e fazer com que as instituições sociais sejam as responsáveis por garantir esse modelo”, explica Márcia Thomazinho.
Por conta disso, é preciso lembrar sempre que política implica um gesto coletivo, o agir em prol da sociedade. Essa relação deve ser refletida no poder legislativo, judiciário e executivo.
“Tudo é política, porque ela diz respeito a tudo que é da vida pública, da dimensão do coletivo, das relações sociais” - Daniela Tafuri
Para Thomazinho, temos também que afirmar e valorizar outra palavra grega, a "democracia" ("demos" + "kratos", ou seja, "povo" + "governo"), que significa que a soberania é exercida pelo povo.
“Escolhemos presidente, governador, prefeito, senadores, deputados federais e estaduais e vereadores para representar os nossos anseios e assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça, dentre outros valores.” - Márcia Thomazinho
Criança não vota. Mas será que apenas por isso elas não precisam fazer parte das discussões sobre as funções de cada cargo político, qual a necessidade de escolher candidatos que reflitam valores sociais e coletivos, e como funciona a política nos interesses práticos do dia a dia?
A política está no Congresso, no Senado e no Planalto, mas também está no preço do feijão no supermercado, na qualidade da educação pública à qual as crianças têm acesso, e nas muitas possibilidades (ou impossibilidades) de se ter bem-estar social enquanto cidadão. Tudo isso diz respeito inevitavelmente à criança, que a Constituição Federal e o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) compreendem como prioridade absoluta.
Também previsto no artigo 227 da Magna Carta, o princípio da prioridade absoluta determina que crianças e adolescentes sejam tratados pela sociedade e, em especial, pelo Poder Público, com total prioridade pelas políticas públicas e ações do governo.
“Geralmente associamos política à atividade de partidos ou de um governo e, enquanto cidadãos, nosso fazer político acaba por se restringir ao voto, que é sim algo fundamental”, explica Isabella Gregory
No entanto, faz parte de uma educação política infantil consistente e responsável elevar a discussão sobre o assunto para o patamar da colaboração entre grupos – Estado, sociedade civil, famílias e poderes estabelecidos.
“A política atravessa o nosso cotidiano e as nossas relações. Existem várias definições de política. Para mim, é um conjunto de ações realizada por um grupo de pessoas, instituições ou um indivíduo em busca de uma convivência plural em sociedade”, defende Gregory.
Principalmente neste momento no Brasil, com o processo eleitoral em andamento e as campanhas em todos os meios, inclusive na TV, é comum as crianças ficarem curiosas e fazerem perguntas. Mas, para não afastá-las do interesse sobre o assunto, não é necessário teorizar a política, pelo contrário; o mais importante é responder pergunta por pergunta das crianças, com naturalidade e sem a pretensão de achar que o adulto precisa saber tudo. É o que defende Anna Rosa Amâncio.
“O fundamental é que as crianças vivam experiências de práticas democráticas e vivências que as ajudem a formar os conceitos de liberdade, solidariedade, coletividade, colaboração.” - Anna Rosa Amâncio
Já para Thomazinho, antes de mais nada, é importante que a criança saiba por que o adulto precisa votar. Além disso, dependendo da idade da criança é fundamental também que os pais e/ou professores façam uma correlação com o universo dela. Uma maneira simples é fazer perguntas e contar histórias para mediar o assunto.
“Uma história é um bom começo. Pode fazer a relação de como ela escolhe as coisas, de como ela queria que fosse a escola dela, por exemplo, e por que escolher um bom governante é importante. Explicar para a criança que, se esse governante for bom, ele pode “lutar” por aquilo que ela quer, e, se não for, isso pode demorar a acontecer.” - Anna Rosa Amâncio
Já Márcia chama a atenção para a importância da representatividade dos direitos da criança nas propostas de governo de cada candidato. Pensar na infância desde o momento de acompanhar as campanhas de cada candidatura é uma forma de priorizar a participação infantil e afirmar o lugar social da criança como cidadã. Para isso, vale ter em mente o princípio da responsabilidade compartilhada sobre a criança, que a Constituição e o ECA definem como dever simultaneamente do Estado, da família e de toda a sociedade.
“Os adultos devem pensar bem e escolher os candidatos que pretendem lutar pelas necessidades da sua cidade, da sua família e da vida das suas crianças - Márcia Thomazinho
Associar política à infância pode ser um incômodo para as pessoas que relacionam política necessariamente a um partidarismo. Mas, como defendem os especialistas no assunto, é fundamental ampliar essa noção.
“A criança é parte da sociedade. Ela frequenta praças, parques, se locomove pelas ruas e avenidas, tem acesso a alimentos de melhor ou pior qualidade, frequenta serviços básicos de saúde, assistência e educação. A participação social e a prática cidadã não é algo que se aprende de uma hora para a outra. Faz parte do desenvolvimento integral do sujeito”, pontua Gregory.
“As crianças devem entrar em contato desde cedo com temas como ética, respeito, liberdade, democracia e solidariedade." - Isabella Gregory
Mas então, como traduzir para as crianças e o universo comum em que elas transitam conceitos políticos mais complexos, como "democracia" ou "liberdade"?
Segundo Rafaela Pacola e Anna Rosa Amâncio, quanto mais as crianças exercitarem na prática uma conversa ativa sobre essas questões, mais saudável pode ser o seu desenvolvimento de pensamento crítico e autonomia. “As crianças têm a oportunidade de participar de experiências coletivas e também individuais, em que elas sejam convocadas a opinar, argumentar, ouvir, negociar, decidir, resolver problemas, conversar sobre conceitos complexos como liberdade, direitos, cidadania, democracia podem se tornar mais interessantes e mais próximos, porque estão vivenciando exemplos práticos e concretos desses conceitos", dizem Anna Rosa Amâncio e Rafaela Pacola
“O importante é entrar no universo da criança. Faça a relação da democracia, com aquilo que a criança conhece; da liberdade também. Por exemplo, liberdade. O que a criança gosta de fazer? E se ela não pudesse fazer o que gosta... e se ela não pudesse brincar, passear.” - Márcia Thomazinho
Precisamos confiar no potencial de entendimento das crianças, elas são muito mais capazes de compreender do que imaginamos, mas nem tudo precisa se resumir a entender, e sim a vivenciar e dialogar. “É importante pensar em como aproximar esses conceitos de situações concretas que acontecem no dia a dia. Às vezes, nos preocupamos demais em definir, dizer o que é e o que não é, mas é mais eficaz aproveitar momentos por exemplo de conflitos, de questionamento de uma regra ou da negociação de um brinquedo, do que ficar vários minutos tentando explicar algo que é tão abstrato”, pondera Isabella Gregory
Os adultos mais próximos são as principais referências das crianças. Com a política, não seria diferente. São as micropolíticas do cotidiano que constroem o pensamento crítico dos pequenos sobre o tema. Sendo assim, como incentivar um pensamento autônomo nas crianças em relação às crianças? “O exercício democrático é trabalhoso e não é fácil, é preciso ouvir, falar, ponderar, negociar. É na prática do dia a dia que as crianças aprendem a serem críticas”, lembra Anna Rosa Amâncio.
“A relação familiar é uma ótima maneira de começar. Em sua família provavelmente deve haver opiniões divergentes em relação ao voto. A criança precisa entender que nas relações deve haver respeito. Que na sua casa ninguém briga porque o vovô, por exemplo, escolherá um candidato diferente do seu. Que às vezes você tenta ajudar ele a entender o porquê o seu candidato é melhor que o outro. E faz isso com amor, e só faz porque você estudou sobre a vida do candidato e sobre o que ele planeja fazer", explica Márcia Thomazinho.
Para ela, essas questões também podem estar associadas a brincadeiras. “Por que um gosta de bola e o colega de carrinho, por exemplo? Uma criança não precisa gostar do mesmo brinquedo que o amigo. Ela pode ter gostares diferentes”, explica.
Para ter autonomia é preciso que a criança se sinta segura para perguntar, questionar e discordar; que seja exposta a diversidade de pensamentos e opiniões, selecionando fontes confiáveis e respeitando sua faixa etária; e que os adultos sejam coerentes com seus discursos.
“Muitas vezes, pedimos paz e amor, mas xingamos o vizinho que gosta do candidato com o qual não simpatizamos. Num contexto como este, a criança não sente que tem liberdade para pensar diferente, ela entende que se questionar pode ser ofendida também.” - Isabella Gregory
“Não é um movimento fácil, porque também exige que nós, adultos, saiamos das nossas bolhas, exercitemos nossa escuta, nosso diálogo e nossa tolerância. Mas se optamos pelo caminho oposto, ao de impor a criança a uma determinada crença ou pensamento, não conseguimos ensiná-la sobre a convivência em sociedade, que é plural e diversa”, explica Gregory
Como romper, tanto entre os adultos quanto com as crianças com a ideia de que política é um assunto chato, e, ao contrário, passar a vê-la como um vetor de transformação social?
Para Rafaela Pacola, só se faz isso tomando consciência de que tudo o que lidamos no nosso cotidiano é atravessado pela política, e mesmo não gostando, precisamos escolher quem serão os representantes que melhor defenderão nossas necessidades e que têm propostas capazes de solucionar problemas coletivos.
“As crianças também vivenciam o impacto das problemáticas do cotidiano, usam os serviços, circulam na cidade... e estão acompanhando esse período eleitoral, que é perfeito para ir contando para elas o que cada candidato e cada cargo faz e representa.” - Rafaela Pacola
Por outro lado, Isabella Gregory reitera a importância de associarmos a criança à participação da vida pública. Para ela, não trazer o tema para nossos espaços de convívio só nos afasta de nos educarmos politicamente. “A ideia de que política é algo chato vem do fato de nos percebermos pequenos demais para alcançá-la, para trazer alguma contribuição e efetivar alguma mudança no cenário. Um caminho possível para transformarmos esse nosso medo, essa tristeza e essa desesperança é agirmos sobre aquilo que está ao nosso alcance, onde podemos realizar mudanças concretas, seja dentro de nossas residências, dos condomínios ou no bairro”, conclui Gregory
“A escola e a cidade como um todo podem oferecer práticas cidadãs para as crianças, fazendo conselhos mirins e escutas para que elas possam dizer o que precisam e o que querem para os espaços onde convivem.” - Rafaela Pacola
(Texto de Renata Penzani)
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