Isol, autora de "A costura", fala sobre sua criação, bordados e censura

12/06/2023

Se você conhece o trabalho da autora argentina Isol pelo livro do patinho (Ter um patinho é útil, fora de catálogo; já foi publicado pela Editora SESI-SP e pela Cosac&Naify), vai logo perceber que A costura, seu terceiro e mais recente título publicado no Brasil, retoma a narrativa que tem dois lados, em que frente e verso constroem o sentido da história. 

 

Capa do livro ilustrado "A costura", da autora argentina Isol

Capa do livro A costura, da autora argentina Isol, lançado pela Pequena Zahar

Em A costura, lançado pela Pequena Zahar, a ilustração foi criada sobre os bordados de um chale da autora, e a frente e o verso do objeto correspondem, na história, ao mundo “da frente”, que seria o “real”, mais organizado e onde vive a protagonista, e o “de trás”, mais caótico, cheio de pontas e linhas soltas, e acessível apenas em sonhos. No caso do patinho, isso acontece de um jeito físico, muito concreto: o livro é sanfonado e, de um lado, a história é a da perspectiva do menino e, quando ela acaba, a história recomeça do outro lado, com a perspectiva do patinho. 

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Frente e verso do chale da autora Isol na ilustração de seu novo livro, "A costura"

Frente e verso do chale bordado da autora Isol, que deu origem ao livro A costura

 

“Me interessa ter diferentes perspectivas das coisas, é um método poético e também científico. Me diverte e me ajuda a descobrir coisas, a ampliar minha percepção. Quando descubro uma nova forma de olhar para algo, é como encontrar um tesouro”, explica a premiada autora argentina sobre essa sua marca.  

A costura surgiu a partir de um pedido do Palestinian Museum, em 2021: criar uma história em que um elemento tradicional da cultura palestina fosse usado em um contexto diferente do original. Assim, ela resgatou um chale que havia ganhado de lembrança quando visitou a Palestina e o museu, em 2018. 

Eu não sei bordar, mas sou fascinada por bordados, os desenhos que se formam, as repetições, os fios… É uma forma de desenhar. (Isol)

A autora conta que a ideia da história começou com a observação dos dois lados do chale e com as imagens que encontrou bordadas ali. “O objeto e suas características me trouxeram a ideia dos dois mundos ‘colados’. Escaneei o chale e, com essas imagens, comecei a definir um conto, algumas paisagens. Então, pensei que essa ‘tela’ poderia rasgar, se desgastar e que, nesse mundo, haveria buracos”, conta Isol.

“Uma menina que vivesse ali poderia imaginar que as coisas que perdia iam para o outro lado por esses vãos. Enquanto desenhava, apareceu a voz da menina dizendo que ia remendar esses furos para não perder mais nada.” Foi assim que Lila, a protagonista de A costura, ganhou vida.

 

Isol: seus livros, prêmios conquistados e cachecóis perdidos

Isol é a maneira como o nome da autora Marisol Misenta aparece em seus livros, que são publicados mundo afora e já foram traduzidos para dezessete idiomas. Da Companhia das Letrinhas, o livro Conto de Natal de Auggie Wren (2009, esgotado), de Paul Auster, tem ilustrações da autora.

Seus vinte e quatro títulos renderam à autora um maiores prêmios da literatura infantojuvenil, o Astrid Lindgren Memorial Award (ALMA), em 2013. Ela também foi finalista do Hans Christian Andersen em 2008 e recebeu uma menção especial do mesmo prêmio, em 2006.

Isol conta na entrevista a seguir que é muito parecida com a Lila, de A costura, e que perdia muitas coisas quando era criança, especialmente chaves e cachecóis. “Guarda-chuvas também. E ficava muito frustrada por não encontrar minhas coisas. Hoje perco menos objetos, mas os cachecóis, parece, continuam querendo ficar em outros lugares e viver aventuras longe de mim (por isso minha mãe me dá dois cachecóis, feitos por ela, todo inverno)”, revela Isol.

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Lila, personagem de "A costura", novo livro de Isol

Lila espia "o lado de lá" por um buraco aberto em seu mundo

 

Como foi o processo de criação de A costura? O que veio primeiro: a história ou os bordados?

Isol: O livro começou com uma encomenda do Palestinian Museum, que visitei em 2018. No início de 2021, me escreveram para saber se eu poderia criar um conto a partir de algum elemento da cultura palestina, tirando-o do contexto de seu uso tradicional para utilizá-lo em uma obra nova. Então fui procurar um chale que me deram como lembrança nessa viagem à Palestina, e comecei a observá-lo de perto, em detalhes, para ver o que encontrava. Assim comecei olhar para seus dois lados, a encontrar imagens e uma história.

O objeto e suas características me trouxeram imagens e a ideia dos dois mundos “colados”. Escaneei o chale e, com essas imagens, comecei a definir um conto, algumas paisagens. Depois, pensei em um uma situação que pudesse acontecer nesse contexto, porque, sem uma anedota concreta, não haveria uma história. Então, pensei que essa “tela” poderia ser rasgada, se desgastar e que, nesse mundo, havia alguns buracos.

Uma menina que vivesse ali poderia imaginar que as coisas que perdia iam para o outro lado por esses vãos. Enquanto desenhava, apareceu a voz da menina dizendo que ia remendar esses furos para não perder mais nada. Vi que havia algo real aí, uma história interessante para desenvolver.

Isol envolta no chale palestino que deu origem ao livro "A costura", da Pequena Zahar

Isol com o chale palestino que deu origem ao livro A costura

 

No livro, também conhecemos o outro ponto de vista da história, como acontece de forma mais material com o livro do patinho. De onde vem seu interesse pelos outros lados da narrativa? 

Isol: Me interessa ter diferentes perspectivas das coisas, é um método poético e também científico. Me diverte e me ajuda a descobrir coisas, a ampliar minha percepção. Recomendo muito isso de sair de uma ótica fixa e poder se colocar no lugar do outro, se distanciar, se aproximar, se desapegar e também se entregar ao que nos acontece em relação a alguma coisa, a partir da sinceridade e da brincadeira.

Para fazer esses movimentos de perspectiva é preciso ser curiosa e não ter medo de descobrir que as coisas podem não ser como como você pensava. Quando descubro uma nova forma de olhar para algo, é como encontrar um tesouro.

 

Você percebe a influência de algum autor na história? Talvez algo do Shaun Tan?

Isol: Acredito que, se tivesse que falar de alguma referência, seria mais de Hayao Miyasaki, de suas meninas corajosas em mundos misteriosos. Minhas histórias, em geral, em contraste com as de Tan, têm um contexto bastante cotidiano, em que a fantasia rompe com o estabelecido, com o que está visível à primeira vista. No meu livro, esse Outro Lado só pode ser acessado nos sonhos, se você se deixa levar pela curiosidade e pela imaginação. A menina compartilha com a avó o fato de ter o tempo necessário para poder se ocupar dessas coisas que não são "práticas", e que eu relaciono com o lugar da arte, o inconsciente, as lendas de um povo, a meditação, a criatividade, o que não é controlado, a incerteza.

O livro foi criado durante a pandemia de covid, com muitas perdas humanas, muito medo, muitas dúvidas. Depois de um ano de isolamento e preocupação. E coincide com a morte do meu pai, que era uma grande inspiração para mim, como contador de histórias, pintor e filósofo. Os buracos do livro podem ser muitas coisas, realmente. Mas deixar que as coisas fluam sempre é algo vital.

Página dupla do livro "A costura", de Isol

Quando Lila costura os buracos para não perder mais nada do outro lado,
sua aldeia fica é encoberta por uma névoa misteriosa

 

Você acha que A costura também estabelece uma analogia com o próprio conceito de livro ilustrado (e com a literatura, de modo geral), com seus buracos que ampliam interpretações e possibilidades de leitura?

Isol: Também poderia ser! O que não se fecha em uma só mensagem, que permite perguntas e olhares diferentes é indispensável para um bom livro, eu acho. E no livro-álbum, o diálogo entre imagens e textos também deixa um entremeio para interpretações.

Acredito que os livros, a música, a arte em geral, são como janelas mais livres da alma humana, onde se pode falar de tudo e de muitas formas diferentes, por isso são tão libertadores e até perigosos para quem deseja que haja apenas uma maneira de pensar e sentir.

Um bom livro deixa escapar algo inesperado e mágico, uma fantasia, um fantasma. O que nos conecta com algo que pressentimos e que não podemos ver, ou sobre o que não falamos tanto. O livro toca essa dimensão sutil e potente quando deixa espaços de liberdade, sem controlar o que se deveria ler ali, como uma mensagem única, sem subestimar o leitor, porque isso é muito chato, não? (Isol)

Você fez uma postagem no Instagram há alguns meses sobre a memória dos crimes cometidos pela ditadura argentina, inclusive a proibição de livros infantis. Como você vê essa onda de proibições de livros nos Estados Unidos, um movimento que parte de grupos de famílias conservadoras? Isso também tem acontecido no Brasil, ainda que de maneira menos sistematizada. Acontece o mesmo na Argentina?

Isol: Na Argentina não há uma proibição, mas uma leva de livros politicamente corretos. Seria como a outra ponta da repressão da ditadura, que foi horrível. Não é o caso agora, isso parte de um lado progressista, de fazer livros sobre determinados temas que são necessários para discutir com as infâncias, como a inclusão do diverso, o feminismo, as novas configurações familiares, a não discriminação, os livros para lidar com as emoções… Mas digamos que o que acontece com a maioria desses livros é que eles não têm uma grande qualidade literária, já que o tema é tratado de maneira didática e previsível, e para isso há outros espaços, como as escolas, os livros didáticos ou informativos...

O livro de autor tem a grande possibilidade de nos presentear com mais que isso. Podemos ter personagens diversos e situações do momento histórico atual, mas também contar uma história interessante, com contrastes e conflitos, sem perder o detalhe do que é único e surpreendente, o monstruoso, o maravilhoso, o ridículo - que também é tudo que é humano. Se discute muito sobre diversidade, mas os livros falam todos da mesma coisa, da mesma forma.

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Que também é o que acontece com as mudanças na obra de autores como Roald Dahl, na Inglaterra, deixando os livros mais “apropriados” para as crianças de hoje...

Isol: Acredito que alguns livros tenham envelhecido um pouco e tudo bem que seja assim; são frutos de seu tempo, e algumas coisas ficam esquisitas hoje. Mas a solução não é cancelá-los ou mudá-los, mas fazer livros com autores de hoje. E assim teremos livros de muitas fontes, com seus valores e suas sombras, para escolher. Nunca deixar que um outro escolha previamente.

No caso das crianças, é bom oferecer livros de qualidade, que respeitem os leitores como sujeitos sensíveis e inteligentes. E, como mediadores, oferecer o que considerarmos que seja rico e que elas vão apreciar. Mas, muitas vezes, as coisas que assustam os adultos não têm o mesmo efeito nas crianças, e certas histórias têm essa qualidade de mistério e surpresa, que toca o pessoal, que fala disso que é especial e que temos em comum com outras pessoas.

Um bom livro deixa escapar algo inesperado e mágico, uma fantasia, um fantasma. O que nos conecta com algo que pressentimos e que não podemos ver, ou sobre o que não falamos tanto. O livro toca essa dimensão sutil e potente quando deixa espaços de liberdade, sem controlar o que se deveria ler ali, como uma mensagem única, sem subestimar o leitor, porque isso é muito chato, não?

(Texto: Paula Marconi de Lima)

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