
O que é preciso fazer para criar crianças empáticas?
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- Mamãe, podemos comprar aquele brinquedo?
- Não, filho. Agora, não temos dinheiro para isso.
- Ué, é só você passar o cartão!
Quem tem filhos ou convive com crianças pequenas certamente já viveu ou viu cenas parecidas. E isso não é novidade. “As crianças fazem esse tipo de questionamento desde a época em que os pais utilizavam talão de cheque, nos anos 1980!”, lembra Marina de Carvalho Naime, gerente da B3 Educação, hub de educação financeira da bolsa de valores brasileira. Por isso, segundo ela, é importante explicar, nesses momentos, que o “dinheiro que está no cartão” é um reflexo do que está no banco e que, portanto, é limitado - ou seja: não dá para comprar tudo. O conceito de que o dinheiro é um recurso limitado, aliás, é o principal ponto da educação financeira.
Ilustração de O Clube do Pepezinho - Colaborações
Por não ser infinito e, na grande maioria dos casos, ser duro de conquistar, é preciso compreender que usar esse recurso com inteligência é fundamental para garantir o nosso bem estar e o de todos que vivem ao nosso redor. Mas parece que Melvin e Nanda, em O Clube do Pepezinho - Colaborações (Companhia das Letrinhas, 2024), de Dav Pilkey não entenderam muito bem que ganhar dinheiro tem um preço - e vem com uma responsabilidade, como seu pai, Flippy, tentou mostrar. Na história, os sapinhos fecham um acordo com uma editora pela publicação de seus quadrinhos e recebem um pagamento por isso. Todos ficam em êxtase, mas ninguém sabe muito bem como aplicar da melhor forma. Flippy faz o que pode para orientá-los, mas eles acabam errando feio e agindo de maneira impensada. A leitura pode ser um bom pretexto para conversar com as crianças sobre dinnheiro, gastos, economia e principalmente: consumo.
Capa de O Clube do Pepezinho - Colaborações
O dinheiro é uma forma de facilitar as trocas de bens e serviços realizadas na sociedade. Por isso, ele está presente na nossa vida desde antes mesmo de sabermos o que significa. “Muitas famílias entendem que dinheiro não é assunto de criança e, de certa forma, esse comportamento pode dificultar a percepção delas sobre o tema, que permeia toda a vida”, aponta Marina. “As crianças são parte integrante da família e da sociedade e, como tal, devem, na medida de sua maturidade e compreensão, participar da vida financeira da família”, orienta.
Para ela, quanto mais cedo acontecer o contato com o assunto, mais cedo poderá ser despertado o interesse em entender como o dinheiro funciona na sociedade. "A criança pode e deve aprender, desde pequena, que se trata de algo escasso, que os pais obtém trabalhando, e que é por meio dessa troca entre trabalho e dinheiro que a família provê o alimento, a viagem, a casa e cumpre com as suas obrigações”, explica a especialista. A educação financeira, que consiste em adquirir o conhecimento necessário para usar o dinheiro de forma consciente e inteligente, é de interesse de todos.
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Por outro lado, o excesso e antecipação também podem ser prejudiciais. O assunto não pode se tornar uma fonte de preocupação demasiada ou de estresse para a criança. Discussões ou desabafos sobre as contas ou gastos da casa, entre adultos ou mesmo diretamente com os pequenos, por exemplo, podem levar à ansiedade. Lembre-se: ganhar e cuidar do dinheiro é função dos adultos. Então, fiquei atento para não compartilhar informações que podem gerar na criança preocupações que não são dela.
As crianças aprendem educação financeira no dia a dia, com a família, em casa, durante diversos momentos. Desde a hora de fazer compras no supermercado, até vendo os pais dividirem a conta restaurante, decidindo fazer um passeio ou uma viagem. A escola também é um lugar importante para adquirir conhecimento sobre dinheiro, seja na rotina, como o momento de comprar o lanche na cantina, ou mesmo com conteúdo direcionado.
Apesar de tudo isso, é recente a preocupação de inserir o tema educação financeira dentro dos programas de ensino. Uma das iniciativas mais significativas nesse sentido no Brasil foi o lançamento, em maio de 2023, de um programa gratuito de Cursos de Educação Financeira nas Escolas, feito pelo Sebrae e pela Comissão de Valores Imobiliários (CVM), em parceria com o Ministério da Educação. As aulas são voltadas para professores do 1° ao 9º ano do Ensino Fundamental, de escolas da rede pública e privada. De acordo com o Sebrae, os cursos são totalmente estruturados em trilhas de aprendizagem totalmente conectadas à Base Nacional Curricular Comum (BNCC), um documento que aponta os saberes que estudantes de escolas públicas e particulares precisam desenvolver em cada etapa.
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“A importância de as crianças aprenderem educação financeira desde cedo reside na promoção de hábitos saudáveis, no desenvolvimento de planejamento financeiro, na compreensão do valor do dinheiro, na promoção da autonomia e construção de resiliência financeira, preparando-as para tomar decisões conscientes e responsáveis ao longo da vida”, aponta a gerente Fabiana Pinho, da Unidade de Educação Empreendedora (UEDE) do Sebrae MG. “O objetivo do programa é capacitar as crianças e promover o conhecimento, responsabilidade, mostrar as necessidades, desenvolvendo uma cultura que poderá ajudar, no futuro, para uma economia nacional mais forte, com pessoas mais estruturadas, sabendo investir, utilizando os recursos de forma consciente, fazendo planejamentos e realizando sonhos”, complementa.
Mas, por que, sendo um tema tão fundamental, a educação financeira demorou tanto a integrar os assuntos tratados na escola? Na visão de Fabiana, o atraso na incorporação da educação financeira no ensino pode ser atribuído a uma combinação de fatores. Entre eles, estão a tradição curricular, o foco em disciplinas consideradas básicas, a falta de conscientização sobre a importância do tema, a resistência a mudanças no modelo educacional, os desafios de implementação, a percepção de responsabilidade familiar e uma mudança gradual de paradigma global em relação à importância da educação financeira na formação de cidadãos capazes de enfrentar os desafios econômicos modernos. “O reconhecimento crescente da relevância da educação financeira tem impulsionado a inclusão nos currículos escolares, mas o processo tem sido gradual e variado em diferentes regiões e sistemas educacionais. As políticas de implementações são recentes, mas sem estruturação para quem vai aplicar. O professor depende de formações independentes, de parceiros ou de interesse político que forneça a formação/inclusão do tema na escola”, destaca. Parece que assim como os sapinhos do Clube do Pepezinho, ainda temos muito que aprender sobre dinheiro e a importância de ensinar as crianças a lidarem com ele.
Ilustração de O Clube do Pepezinho - Colaborações
Mostrar aos pequenos o que é o dinheiro e formas mais saudáveis (e responsáveis) de se relacionar com ele não é só dos pais ou só da escola, mas de toda a sociedade. Para começar, com a ajuda de Marina de Carvalho Naime, da B3 Educação, selecionamos alguns exemplos que você pode seguir desde já:
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