A adoção é uma forma legítima de formar uma família.
Não é um ato de caridade. Não é um salvamento. E não representa o “nascimento”, ainda que simbólico, da criança ou do jovem que passa a fazer parte de uma nova família.
“A adoção não dá conta de tudo”, como escreve a jornalista e bacharela em direito Larissa Alves, fundadora do perfil @olharadotivo e co-fundadora da primeira Associação Brasileira de Pessoas Adotadas no texto, “Adoção por amor não dá conta do recado: bem-vindo à complexidade adotiva". Não, o amor e os laços construídos com a família adotiva não dão conta de tudo. Não preenchem todas as lacunas de uma história muitas vezes apagada. Não dão conta da curiosidade sobre as próprias origens. E não resumem a existência dos adotivos - que é carregada de complexidade - a serem apenas filhos. Muitas vezes amar a família adotiva não anula o desejo de conhecer as próprias raízes - algo que é direito de todo adotivo.
No livro Onde está a mamãe? (Companhia das Letrinhas, 2026), da jornalista Adriana Carranca e da ilustradora Isabela Santos, Owen, um pequeno hipopótamo azul, encontra afeto e segurança em Mzee, uma tartaruga-gigante-de-aldabra. O pequeno se perdeu de sua família de origem e encontrou em Mzee seu novo lar. Eles se envolvem nos aprendizados mútuos, mas em determinado momento, surge a vontade do filho de saber do paradeiro de sua manada.

Owen sentia um vazio que não conseguia entender. Às vezes, o vazio era tomado por outros sentimentos, como tristeza e raiva. Quando isso acontecia, Owen dizia coisas das quais depois se arrependia. Ele já sabia falar, mas não dizer o que sentia” Onde está a mamãe? (Companhia das Letrinhas, 2026)
“Nesse modelo de sociedade patriarcal, onde se valoriza tanto o consanguíneo, essa ideia de perpetuar genes, de transmitir nossas melhores características de um lugar bem egóico, ainda há um discurso que coloca os adotivos como vítimas. É um discurso com um objetivo. É uma forma de diminuir o super poder dos adotivos: a resiliência emocional, que é perceber que apesar de muitas marcas, em fases importantes do desenvolvimento, teve algo que manteve uma chama acesa. O adotivo pôde ser cuidado, pôde construir novos vínculos e afetos. E, sim, a gente pode amar mais de uma pessoa com a mesma intensidade, construir novas relações, novos apegos seguros”, afirma Mari Muradas, primeira doula de adoção do Brasil e co-fundadora do Doulas de Adoção, um instituto pensado para apoiar famílias em todas as etapas da parentalidade adotiva.
Larissa e Mari são filhas via adoção. E têm ajudado não só a colocar em pauta os direitos dos adotivos como, principalmente, a repensar a forma como a adoção precisa ser compreendida. A literatura também pode contribuir. Livros como Onde está a mamãe? podem ajudar as crianças - adotivas ou não - a entenderem melhor a adoção, ampliarem seu conceito de família e se conectarem com as experiências de adotivos. Mas para que os tabus e estereótipos em torno da ação sejam desconstruídos, primeiro é preciso que os adultos estejam dispostos a atualizar sua visão, encarando-a como um processo complexo, sensível e que coleciona delicadezas próprias.
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O direito às origens e às histórias e conexões que precisam ser preservadas
Não há como falar em adoção sem pensar em direito às origens. Todo adotivo tem uma história própria, que antecede o encontro com a família por adoção. Carrega o nome de uma família e o sangue de outra. E sua existência é inevitavelmente marcada por essa dualidade. Mesmo quando se fala na adoção de recém-nascidos, há ainda em muitas famílias adotantes esse desejo de “começar do zero”, como se o bebê fosse uma “folha em branco”. Não é. “Se a gente desrespeita essa origem, essa biografia, é como considerar que a criança só passa a existir a partir da adoção e que a história dela não vale nada”, explica Mari.
É instintivo que todo ser humano se pergunte: “De onde eu vim? Quem veio antes de mim?” Esses questionamentos fazem parte da formação da identidade.
E o conhecimento da própria genealogia faz parte desse direito à identidade, que é garantido por lei. Mas saber as origens da família biológica, conhecer os nomes dos genitores ou saber de onde eles vêm pode não ser suficiente. Uma das questões que foram importantes no processo de Larissa foi a do espelhamento genético, que é saber de onde vêm suas características físicas, biológicas, seus traços. Ela foi aprendendo com o tempo que determinadas respostas sobre si partem de parâmetros. Muitas vezes, mesmo que o amor faça a pessoa se sentir segura, os questionamentos de identidade precisam de outras referências. "A materialidade do nosso corpo também faz parte da nossa história."
O direito às origens deveria ser compreendido de forma ampla - além dos pais biológicos e da família estendida no caso da adoção. Deveria incluir as pessoas com quem a criança conviveu: os profissionais, as outras crianças do abrigo e também os lugares, os contextos em que o adotivo esteve inserido. É o não-apagamento de forma ampla”, Larissa Alves
É comum que crianças adotivas, principalmente as que foram adotadas mais velhas, queiram visitar os amigos e profissionais que cuidaram delas nos abrigos ou manter contato com a família de acolhimento. Faz parte da história delas e de quem elas são. Mas quando um adotivo traz esse desejo à tona, muitas vezes o direito de resgatar sua história é confundido com ingratidão ou desafeto. Imagine, então, se ele quiser ir em busca de sua família biológica...
Tem muitos adotivos que não sabem nem o dia em que nasceram. As políticas de adoção foram construídas nessa lógica de apagamento.”, explica Larissa.
A adoção no Brasil hoje

Historicamente os adotivos não são os protagonistas dos processos de adoção. “As adoções eram mais centradas nos interesses dos adotantes do que dos adotivos. Era uma família que queria uma criança. Mas pouco se falava dos interesses da criança, nem havia uma preocupação em prepará-la para esse processo”, conta Mari Muradas.
A adoção por aqui tem um longo histórico de informalidade, que por anos abriu uma lacuna sobre os direitos dos adotivos. As adoções informais sempre aconteceram por aqui - uma família quer um filho, alguém tem uma criança que não consegue cuidar e pronto. Muitas vezes, o menor era registrado como filho ou filha biológica dos pais adotivos, apagando o direito de sequer colocar em questão sua origem.
É preciso falar de desigualdade social e racial. A adoção ainda é um fruto do privilégio branco e isso gera incômodo - e tem que gerar mesmo. É preciso ampliar o olhar e entender a estrutura que impede que crianças pretas e pobres não permaneçam com a sua família”, Mari Muradas
O grande avanço nos processos de adoção veio por meio da promoção do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em 1990, que estabelece no artigo 48 o direito ao adotado de conhecer sua origem biológica e acessar irrestritamente seu processo de adoção ao completar 18 anos. Mas não é tão simples. De um lado, tramita a destituição da criança do poder familiar, um processo que é feito em sigilo, sobre o qual os adotivos podem acessar detalhes a partir dos 18 anos por meio de relatórios que costumam narrar burocraticamente as causas da separação do núcleo familiar biológico. Do outro, acontece o processo de adoção em si, que é paralelo e subsequente à destituição. De acordo com dados de 2024 do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), há atualmente cerca de 34 mil a 35 mil crianças e adolescentes em acolhimento no Brasil, sendo que aproximadamente 5 mil deles estão aptos para adoção. Isso significa que cerca de 30 mil crianças estão em abrigos ou famílias acolhedoras - lares temporários para crianças em situação de vulnerabilidade - aguardando a conclusão de seus processos. Ou seja: esperando saber se irão retornar para sua família de origem ou a família será destituída.
Ainda assim, a construção desse histórico, que deve constar nos processos do adotivo, ainda passa longe do ideal. Não basta saber nome e sobrenome dos genitores e conhecer a narração burocrática do seu processo. Há muito mais que poderia ser incluído: fotos, relatos do nascimento, da infância e - por que não - talvez até recursos que permitam gerar mais proximidade com a própria história, como gravações e outros recursos audiovisuais?
Esse apagamento das origens, além de ter implicações bem práticas, como a falta de histórico médico, tem grande peso na saúde mental dos adotivos e influência na forma como eles estabelecerão relações muito além da família adotiva.
Vamos falar com as crianças sobre adoção?
Imagine a cena: a professora chega na sala toda animada para desenhar com cada aluno da sala sua própria árvore genealógica. Mas tem um estudante ali no meio que é adotivo. Como fica essa criança? É esse tipo de situação que muitas crianças e jovens adotivos são expostos por puro despreparo tanto da escola quanto dos outros alunos e pais que fazem parte da comunidade escolar. “O maior desafio ainda é lidar com os adultos. É o professor que coloca a criança adotiva nesse lugar de ‘tem que ser bom aluno’, como se ele precisasse ser sempre grato. Ou quando acontece algo ruim na sala, envolvendo um grupo, não é raro que a única criança levada para a diretoria seja a adotiva”, comenta Mari.
O estigma sobre os adotivos pesa. Se, por um lado, a ficção com frequência os transforma em personagens problemáticos, em filhos-perturbados que não encontram sua identidade, do outro, fora das telas, é como se o fato de “ter sido escolhido” para fazer parte de uma família fosse um pressuposto para a gratidão eterna - onde já se viu fazer bagunça na escola, essa criança devia ser grata por ter a oportunidade de estudar! Ficar bravo(a) com os pais? Que criança mal-agradecida!
Em casa, é preciso colocar esse assunto em pauta para combater estigmas. Sempre importante reforçar que há muitas maneiras de se formar uma família - e que a adoção é uma delas. Que ser adotivo faz parte da história de muitas crianças e de quem elas são. Mostrar interesse genuíno pela história delas é o primeiro passo para que a adoção seja vista por inteiro. Lembrando que é normal ter curiosidade, mas cada adotivo lida de uma forma e vai estar mais ou menos à vontade para compartilhar sua história. Evite cair em comentários ultrapassados como “tem filho da barriga e tem filho do coração”, porque ninguém nasce do coração. Toda criança é gestada na barriga. Ou ainda expressões como “Ela pegou a criança para criar”. O adotivo é filho. “É preciso ter cuidado no discursos com todas as formas que distanciam a criança adotada da sua biografia, da sua história. Porque isso alimenta a ideia de que nós adotivos não conseguimos construir novas relações fortes a partir do que nos aconteceu”, explica Mari.
Por trás das histórias de sucesso sobre adoção há muito trabalho, disposição e confiança de construir vínculos, de pertencer, de receber e dar afeto. A adoção pode ter muitas histórias de tristeza, mas também tem beleza. Em cada laço que se tece por desejo, por vontade, por presença, há a confirmação de que o amor é possível de muitas formas - e que um afeto não anula o outro. Os amores sempre podem coexistir.
(Texto: Naíma Saleh)