Quando, onde ou como uma família começa?

26/01/2026

O livro Onde está a mamãe? (Companhia das Letrinhas, 2026) começa com um temporal. Um temporal no mar. Galhos, troncos, barco, pneu, tudo em meio a muita água até que a gente vê Owen, um pequeno hipopótamo azul encolhido, se agarrando ao que pode. Vieram os guardas-florestais, mas ele tinha muito medo. 

capa do livro Onde está a Mamãe?

- Mama! Mama! 

Os homens ali não sabiam bem de onde ele tinha vindo e o levaram ao parque Haller, um refúgio para animais serem cuidados. Ele era muito pequenininho – se é que um hipopótamo poderia – e frágil e assim que conseguiu caminhar vai em direção à Mzee, uma tartaruga-gigante-de-aldabra de suas toneladas! 

O casco dela era um bom lugar para ele se acolher e se esconder daquilo tudo do qual ele não entendia nada.

E assim começa uma história comovente sobre adoção. Nasceu no coração da jornalista Adriana Carranca, que queria muito tratar da questão com as crianças. Autora de Malala – A menina que queria ir para a escola (Companhia das Letrinhas, 2015) e Entre Sonhos e Dragões (Companhia das Letrinhas, 2022), é seu primeiro livro para os bem pequenos. Para a parceria, foi apresentada ao trabalho da mineira Isabela Santos (autora também de Eu Também, parceria com Patricia Auerbach, Companhia das Letrinhas, 2021). Isa amou a ideia assim que soube que os personagens eram animais. “Adoro fazer bicho!”, contou em entrevista ao Blog Letrinhas. Depois que leu o texto e viu as tantas camadas, ficou ainda mais empolgada. “Me identifiquei em várias questões. Porque uma história nunca é só uma história para mim. Ela se ramifica em várias outras histórias que são contadas a partir do leitor, do livro do espectador. Essa questão de se sentir diferente, às vezes, no ambiente independentemente da família, tem isso de você estar em família e está se sentindo estranho, diferente, que não se encaixa. Se sente perdido. Se questiona. Eu identifiquei algumas coisas que eu quis trabalhar também: essa melancolia de não se sentir parte.”

Mas que história é essa?


Coisas da natureza, sim!

Owen e Mzee existem! Esta história de adoção aconteceu de fato em 2004, após um tsunami que atingiu o litoral da Indonésia e da Tailândia, na Ásia. As ondas gigantes atingiram a costa do Quênia, na África Oriental, onde foi encontrado um pequeno hipopótamo, na Baía de Malindi, depois resgatado pelo Serviço de Vida Selvagem do Quênia, e então realmente levado para Haller, um santuário que fica próximo de Mombaça, cerca de 110 quilômetros de distância. 

Lá neste parque já vivia a tartaruga centenária que, para sorte do hipopótamo, é um tipo que também fica muito na água. O pequeno dormia sobre o casco de Mzee, e ele passou a segui-la para todos os lados (no livro e na história real). 

No livro, no entanto, eles conversam. Foram percebendo o que tinham em comum e como também eram bem diferentes: por exemplo, Owen precisava comer cada vez mais conforme crescia! Também sentia outros tipos de vazio e não conseguia nomear nada – mesmo depois que começou a falar.

— Por que ninguém aqui se parece comigo, Mzee? 

Eles tiveram uma linda conversa sobre a importância das diferenças, que era especial ser “ele mesmo”. Mas a questão seguinte se aprofundou um pouco mais: quem era ele? 


— Mzee, o que aconteceu com a minha mamãe? Por que ela nunca mais voltou?

A tartaruga ficou surpresa, pois muito tempo tinha se passado desde a chegada de Owen ao parque. Mais do que surpresa, Mzee sentiu medo. E se Owen reencontrasse sua família-hipopótamo? Será que ele ainda vai gostar de mim? , ela pensou.

É aí que Mzee se torna ainda mais gigante ainda e sugere a Owen que saiam os dois em busca de descobrir as raízes do hipopótamo. E nessa jornada ambos animais conhecem muita coisa juntos e descobrem algo bem especial. 


Forma e conteúdo

Viver é uma porção de desafios um atrás do outro. E, por mais que tenhamos experiências anteriores de determinadas situações, cada uma será única. Para Adriana Carranca, até mesmo formar uma família, que parece ser algo natural, mas um “natural” carregando a palavra “automático”, é um desafio que pais e filhos vivem, seja qual forem as características de formação. Afinal, formar laços não é algo automático - todo vínculo é uma construção, de sangue ou não. A diferença é que famílias formadas via adoção têm delicadezas muito particulares, que precisam ser observadas e respeitadas.

 

A maternidade é um processo de aceitação de um e de outro. E foi isso que eu tentei mostrar na história da Mzee e do Owen. Não aconteceu uma mágica entre eles. Não é isso. Ele chega e reconhece nela, por algum motivo, um lugar de proteção. Ela acolhe. Mas isso é só o começo. Essa relação é construída ao longo da relação entre eles, do cuidar dela, da percepção dele de ser diferente fisicamente mas, mesmo assim, pertencer”, Adriana Carranca, autora e jornalista

 

No caso de uma adoção, há, pelo menos, duas vidas pregressas ali, que irão se acompanhar, conviver e criar uma história juntas. “Para mim, o livro é sobre família. E é sobre a família estendida. O pai e a mãe é a família, comunidade também. Quem acolhe, o lugar a que você pertence. É uma floresta. Fiz para mim mesma essa analogia de que o processo de adoção é como um replantio de uma raiz. De alguma forma, aquele lugar onde essa planta foi plantada, onde se originou, em algum momento não pôde mais garantir o crescimento dela. Então ela precisa ser replantada. Mas a raiz é a mesma. Ela não corta as suas raízes. Pelo contrário, se você corta a raiz da planta, ela não cresce mais no outro lugar. Precisa tirar cuidadosamente, replantar, mas com as mesmas raízes. Então essas raízes são importantes. É importante fortalecer essas raízes. É a base do crescimento dessa planta”, diz Adriana. 

Manter as raízes é uma das premissas do direito dos adotivos, que é garantido por lei. A adoção no Brasil tem um longo histórico de informalidade, que por anos deixou muitos adotivos sem respostas - sem passado, sem pistas, sem registros da vida que já existia antes do encontro com a família adotiva. Esse apagamento, além de ter implicações bem práticas, como a falta de histórico médico, tem grande peso na saúde mental dos adotivos e influencia profundamente a forma como eles estabelecerão relações muito além da família adotiva. 

De acordo com dados de 2024 do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), há atualmente cerca de 34 mil a 35 mil crianças e adolescentes em acolhimento no Brasil, sendo que aproximadamente 5 mil deles são aptos para adoção. Essas crianças carregam em si não só traços e histórias de sua família de origem, mas também dos abrigos e famílias acolhedoras. Elas nutrem relações com cuidadores, com outras crianças, com os funcionários do abrigo - e isso tudo também faz parte de quem elas são e um dia, será parte de suas memórias.

Junto a um texto delicado e preciso, a ilustradora Isabela Santos criou uma narrativa visual cheia de ambientação, formas e detalhes informativos e afetivo-poéticos, podemos dizer assim. Primeiro escolheu o azul como uma referência à melancolia, essa solidão estranha que Owen sente, mesmo tão bem acolhido. Ela se inspirou em esculturas egípcias. A partir de muitas pesquisas tanto dos modos de vida de pequenas vilas africanas, como em artes visuais, transferiu detalhes para o corpo dos animais. “Eu não quis pegar uma região somente: tudo que eu fui vendo, fui absorvendo. E eu quis criar o personagem do hipopótamo e da tartaruga com diferenciais que seriam ornamentos no corpo. Então, a Mzee tem um símbolo de uma flor, como se fosse uma flor no casco. E o Owen tem uns ornamentos na testa: eu queria que esses ornamentos também conversassem entre eles. Porque apesar de eles serem diferentes, eles têm uma conexão”, explica Isabela. Há também um pássaro por toda a jornada, que é aquele conhecido “pica-boi”, que voa próximo aos mamíferos nas savanas. 

Para o tsunami que abre o livro, ela tomou um cuidado. “Eu não queria trazer algo muito chocante, mas, sim, aquela história do barro, das coisas do galho, do pneu, da rede do barco, que vai tudo, e que é momento de ruptura na vida do hipopótamo. E depois o encontro dele com outros hipopótamos, vemos que é uma jornada. A Mzee, acho tão interessante, ela observa. Ela não questiona. Ela acolhe aquela vontade dele de entender de onde ele vem. Então aí eu quis trazer isso também nas cores. Às vezes mais terrosas, às vezes mais suaves, às vezes mais escuras também. Vai passando o tempo, com a inquietação daquele personagem. Junto, a questão da ancestralidade: o hipopótamo vem com uma marca, e a tartaruga, com outra. Tanto que, no final, ele tem aquela visão, uma visão meio espiritual”, detalha Isabela e paramos por aqui para não dar mais spoilers! 

(texto Cristiane Rogerio com colaboração de Naíma Saleh)

 

 

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