“A mediação de leitura é a melhor forma de formar leitores na escola”: conheça a educadora Cristiane Oliveira

04/02/2026

Antes de ser mediadora de leitura, Cristiane Oliveira foi professora durante 20 anos. Entre a educação infantil e os primeiros anos do fundamental, ela começou a se envolver com a literatura e a mediação observando o que funcionava - e o que não funcionava - na formação de novos leitores. Hoje, ela atua como mediadora de leitura, professora de pedagogia e ainda como pesquisadora, cursando mestrado na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde investiga o papel da  mediação de leitura como estratégia para a formação de leitores no contexto escolar. A convite da Companhia na Educação, Cristiane será uma das mediadoras de leitura do Clube Entre Livros e Leituras, da Companhia na Educação, focado especialmente em professores.

 

Cristiane durante uma roda de leitura em Recife (PE)

Cristiane durante uma roda de leitura em Recife (PE)

 

Para a educadora, é preciso, sim, dizer e repetir: “A mediação de leitura é a melhor forma de formar leitores na escola”, afirma. Além de procurar refletir sobre sua prática e procurar teorias sobre o tema, Cristiane carrega em si dois elementos essenciais para uma boa mediação de leitura: o afeto pelo livro e a convicção de que a vida pode ser transformada por eles. “A literatura faz parte de quem eu sou. Mudou tudo. E se eu sou quem eu sou hoje, é porque eu tive uma mãe porreta demais, que não estudou, mas que sabia que a educação é que transformaria a minha vida”, conta.

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Uma trajetória guiada pela vontade de formar leitores


Já fazia parte da personalidade de Cristiane como professora cuidar de um jeito próprio de seu planejamento de aula. Ela levou esta prática para organizar os momentos de mediação de leitura, dentro da escola e em outros espaços. A leitura e o contato com os livros tinham um lugar garantido: em rodas de leitura, em idas à biblioteca com os estudantes, em indicações de livros que compartilhava com seus alunos. Mas, de algum modo, ela sentiu que isso ainda não bastava. Nem para formação leitora das crianças, nem para sua própria formação, até então como professora e leitora. “As crianças curtiam o momento, mas o prazer da leitura precisa de planejamento, de atividades específicas para ser desenvolvido. Chegou um momento em que essas intervenções não tinham mais sentido. Eu precisava ampliar meu olhar para a formação de leitores na escola”, lembra.

Cristiane constatou na prática o que Teresa Colomer [professora da Universidade Autônoma de Barcelona e doutora em Ciências da Aprendizagem] defende: a necessidade de propor práticas mais significativas do que as fichas de leitura, que muitas vezes limitam a experiência com os livros ao preenchimento das respostas esperadas. Há outras estratégias que favorecem o diálogo, a interpretação e o engajamento ativo dos estudantes com o texto. E como educadora, Cristiane estava disposta a investigar essas outras possibilidades de trabalhar com o livro. 

 


É preciso ler junto, conversar sobre a obra. É assim que a gente forma leitores. A própria ficha de leitura faz a experiência perder o sentido - a gente vai ler para responder perguntas, para ter uma nota” Cristiane Oliveira, mediadora de leitura, professora e pesquisadora


Em 2016, ela encontrou um caminho. Foi durante uma formação que ela participou com a professora Giselly Lima de Moraes, docente da Universidade Federal da Bahia (UFBA) do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFBA. “Ela me apresentou uma forma diferente de fazer roda de leitura para criança. Foi o primeiro momento que eu tive contato com as perguntas que convidam e provocam as crianças a refletirem sobre as obras. Não era uma receita pronta. Era mais do que técnica, do que metodologia, era uma forma de pensar a formação de leitores”, lembra.

Mas foi por indicação de uma colega professora, Lídice Brito, que Cristiane consolidou sua formação, passando pela experiência de aprofundamento e trocas de A Taba, empresa de curadoria de livros e formação de mediadores de leitura - e de leitores - que hoje pertence à plataforma A Árvore. Junto com um grupo de professores, ela viveu um período intenso de aprofundamento e trocas de referências fundamentais para pensar a mediação de leitura e construir repertório. “Foram dois anos estudando sobre esse tema para me sentir mais segura para começar a fazer as mediações no meu estado”, conta Cristiane. De um lado, participar de mediações de leitura de profissionais mais experientes foi de grande ajuda para pensar em como ela  exerceria o papel de mediadora. De outro, a busca por referências teóricas ajudou-a a refletir sobre a prática. A argentina Cecília Bajour e o chileno Felipe Munita, dois especialistas em leitura, são alguns dos nomes que ela considera como inspiração.

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O início da atuação como mediadora de leitura 


Em 2020, em pleno período de isolamento social devido à pandemia da COVID-19, Cristiane viveu sua primeira experiência de promoção de roda de leitura no modo online, pela Taba.  A experiência foi um marco. “Eu lembro de pensar: ‘ Quero fazer assim na minha sala de aula”.

Porém, foi só em 2021 que a professora tomou coragem para fazer sua primeira mediação de leitura por conta própria - ainda durante a pandemia. “Convidei meus estudantes, meus primos, meus amigos. Fiz minha primeira mediação lendo Gorila (Pequena Zahar, 2021), de Anthony Browne, e logo a coisa começou a ganhar corpo. As pessoas gostaram, perguntaram quando ia ser o próximo e, assim, comecei a fazer todo sábado, no final da tarde”. 

Com o afrouxamento das regras de isolamento, as mediações passaram a acontecer no quintal de Cristiane, nos finais de tarde. Um começou a trazer o lanche, o outro trouxe violão para tocar, uma escritora quis vir apresentar sua obra. O que era “apenas” uma mediação virou encontro, partilha, celebração. Sem querer, ela criou um movimento que começou a partir dele: o livro. 

Mas, sem aviso, o marido de Cristiane foi transferido para a Bahia. E ela teve que dar adeus às tardes de quintal cheio. Ainda assim, persistiu no desejo de continuar com as mediações de leitura. “Recém-chegada, fui batendo de porta em porta e apresentando meu projeto de leitura. Hoje tenho um clube de leitura na Livraria do Jardim”, conta . Ela também realiza mediações de leitura em espaços comunitários, uma experiência totalmente diferente das mediações em contexto escolar. “São lugares de chão batido, com esgoto passando, não tem estrutura. Nesse contexto, quero que a literatura leve esperança e mostre outros mundos”, afirma.

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As lições acumuladas com a mediação de leitura


Hoje, com mais experiência como mediadora, na hora de fazer o planejamento das práticas, Cristiane leva em consideração principalmente a duração da mediação, pensando no tempo de concentração das crianças. “Eu também não esgoto todas as chaves de leitura. Escolho com cuidado que pontos vou conversar com as crianças para convidá-las a olhar mais de perto para esse livro. Em um segundo momento, se tiver oportunidade, posso até retornar para o livro e olhar para outras possibilidades que ainda não foram trabalhadas. Mas é preciso escolher”, conta. 

Ela também acha fundamental o exercício de fazer perguntas abertas e não impor opiniões pessoais. “É a criança que, através do livro, das ilustrações e do texto, vai respondendo às perguntas. E eu não vou confirmando, mas trazendo outras perguntas para que o diálogo possa acontecer de forma atenta, prazerosa”, diz. Outro ponto-chave é a curadoria: escolher livros potentes é essencial para uma boa mediação. 

Aos poucos, ela foi montando sua própria biblioteca. Quando se prepara para fazer uma mediação, leva na mala obras que apresentam uma diversidade de autores, de linguagens, de estéticas, de temas. E leva também toda a bagagem que vem acumulando em anos de prática e de estudo. Como a própria Cristiane diz: “o livro não é só um livro”. E a mediação também não é apenas uma mediação. Mas uma possibilidade de diálogo, de reflexão, de partilha e de construção de novos significados. Tudo a partir de uma escuta atenta e de uma experiência afetiva.

(Texto: Naíma Saleh)

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