Saúde mental: quando pais e cuidadores não estão bem
Entenda como a saúde mental dos pais pode afetar os filhos e por que é importante que as histórias mostrem o lado mais humano e frágil de todos nós
“Você é um CHA-TOOOOOOOOO!”
Atire a primeira pasta de dente quem nunca foi chamado de chato/insuportável/bobo/feio/monstro (ou tudo isso junto) apenas por estar tentando fazer um mini ser humano escovar os dentes. Mesmo cantando a música do “Rock rock” (sim, aquela, do Castelo Rá-Tim-Bum), fazendo graça com a escova de dentes, deixando a criança escolher o sabor da pasta… não teve jeito. Você ganhou o título de “grande chato do universo”.
Quem dera toda criança ficasse tao empolgada em escovar os dentes como o leão... Do livro Pegue a escova de dentes e… escove, escove escove (Brinque-Book, 2026)
E mesmo sabendo que você está fazendo o que é preciso ser feito, ostentar essa denominação para sustentar um limite ou algo que precisa ser feito não é uma tarefa fácil. Especialmente quando a criança chora, grita, se joga no chão e às vezes até tenta machucar você.
Mas ser firme é preciso.
“Ser capaz de sustentar a frustração da criança passa por sustentarmos a nossa própria frustração de ver a criança frustrada com a gente. E isso também é manejo de emoções. Não existe vínculo com alguém que seja responsável por cuidar que traga só sentimentos positivos”, explica a psicóloga Natalia Orti, professora na School of Life Brasil.
Entre o medo de traumatizar o filho e a vontade de ser legal, muitos pais e mães se esquecem que está tudo bem ser chato. Está tudo bem se nossos filhos sentirem raiva de nós. Está tudo bem até que eles nos odeiem - se não for por muito tempo, claro. Ser chato faz parte do árduo ofício que é cuidar e educar pessoas que estão em formação. Tem coisa que não vai ser legal, nem para crianças nem para adultos. Ou alguém adora pagar boleto, limpar geladeira, procurar pés de meias perdidos?
A criança tem o direito de manifestar seu descontentamento. Mesmo quando o adulto explica, argumenta, insiste - a criança pode continuar bufando e revirando os olhos. O problema é quando os adultos confundem acolher com agradar ou quando querem poupar a criança de sentir frustração.
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Os animais também precisam escovar os dentes em Pegue a escova de dentes e… escove, escove escove (Brinque-Book, 2026)
Há muitas formas de tornar mesmo as circunstâncias mais enfadonhas para as crianças - como a espera em uma viagem longuíssima de carro - em experiências mais divertidas. E há muitos livros que são pensados também com esse propósito. Em Pegue a escova de dentes e… escove, escove escove (Brinque-Book, 2026), com texto de Bernd Penners, ilustrações de Henning Löhlein e tradução de Hedi Gnädinger, a ideia é que a criança ajude os animais da história a escovarem os dentes. O livro tem cinco adesivos reutilizáveis que a criança destaca para dar uma mãozinha ao coelho que comeu um montão de cenouras, ao elefante que tomou um banho quentinho, ao urso que se deliciou com mel, ao cachorro que roeu vários ossos e à família do leão que está pronta para dormir!
O célebre Ratinho de O que tem dentro da sua fralda? (Brinque-Book, 2010), que ficou famoso por apresentar o maravilhoso uso do penico, também é um personagem que pode ajudar as crianças em circunstâncias que inspiram pouca empolgação. Não apenas no momento do desfralde, como também na hora de ir para a cama em Vamos dormir? (Brinque-Book, 2023), quando ele investiga quais são os rituais de sono de seus amigos, inspirando a preparação para o sono de forma mais leve.
Os livros, assim como as músicas, as brincadeiras, os paineis de marcação de tarefas diárias e outros tantos recursos podem ser usados para apresentar atividades pouco - ou nada divertidas. De dobrar as roupas sujas, a lavar as mãos sempre que chegar da rua, tudo pode ser levado como brincadeira. Mas isso não é garantia de que a criança se empolgue com tomar banho ou com fazer a lição de casa. A questão é que mesmo sem vontade, a contragosto ou te detestando, há deveres que precisam ser cumpridos.
“A frustração é um fenômeno emocional inerente a quando temos um conflito entre o que desejamos e o outro ou um conflito em relação aos próprios desejos”, como explica Natalia. E é vista como uma emoção negativa, que frequentemente desemboca em choro, descontrole e outras expressões difíceis de lidar. Mas achar que precisamos sufocar a frustração é um erro.
É impossível permitir que a urgência de satisfazer a um desejo se sobreponha a tudo. Isso faz parte da função do cuidar”, Natalia Ortiz, psicóloga
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Para lidarem melhor com as frustrações das crianças, sem sentirem que de alguma forma essas reações são uma falha decorrente de algo que eles fizeram ou deixaram de fazer, é preciso que os pais primeiro lidem com seus próprios sentimentos de uma forma mais tranquila.
Só que isso esbarra em muitas questões. Mães e pais, como parte de toda essa geração, estão sobrecarregados. “Essa é uma discussão que passa pelo mundo do trabalho, pela burocracia da vida adulta, pela falta de grana. É difícil chegar ao fim do dia com o potinho cheio”, observa Natalia.
Há também uma questão emocional, ligada a um certo narcisismo dos pais, que é essa vontade de ser amado. “Há um desejo de exercer poder sem conflito, de ser uma autoridade sem provocar atritos”, completa.
A psicóloga e psicanalista Fe Lopes também chama atenção para o contexto social em que vivemos, em que há pouca tolerância ao erro e ao desconforto, em que as respostas devem ser rápidas, tudo deve ser ‘resolvido’. “Muitas vezes, qualquer sofrimento ou desconforto que a criança apresente, que é inerente à existência, é vivido pelos pais como uma falha pessoal. E aí há um impulso de ‘tentar resolver’, o que vai criando uma grande confusão”.
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“Há estudos afirmando que há algo específico dessa geração de pais que é a ideia de que a gente pode evitar o desconforto para garantir um ‘filho melhor’. Um filho que não vai ser traumatizado. Como se o trauma fosse induzido ou provocado por algo que os pais pudessem fazer na condução da parentalidade”, explica Fe Lopes. E aqui é preciso fazer uma distinção importante: frustração não é o mesmo que trauma.
Embora a intenção de aliviar frustrações das crianças seja até algo ridicularizado por gerações anteriores, para as duas psicólogas, trata-se de um esforço positivo porque é a primeira vez, ainda dentro de alguns recortes sociais, em que se nota entre os pais a importância de se falar sobre a saúde mental e emocional das crianças. “Esse discurso é novo. Talvez pela primeira vez os pais estão em condição de olhar para isso, porque foram olhar para a própria saúde mental. E essa ideia, esse saber, também traz mais responsabilidades em relação aos filhos”, reflete Natalia. “Não é que sejamos mais permissivos, muitas vezes até somos, mas temos mais informações. Somos mais preocupados com o vínculo, com construir melhor nossas historias e temos uma valorização muito grande da escuta e do acolhimento. É um avanço ver uma geração que não é mais atravessada pelos discurso de que ‘pais estão sempre certos e filhos sempre errados’. Somos uma geração que se questiona abertamente se estamos no caminho certo”, complementa Fe. Essa visão contribui para que a infância seja vista como esse território fértil para a formação de vínculos, de construção emocional, não apenas de disciplina.
O problema é achar que é possível seguir algum tipo de cartilha que evite eclodir nas crianças emoções que para nós adultos também são difíceis de lidar. Nessa hora, é essencial lembrar que o desconforto também faz parte do papel de cuidar. “A gente precisa manter a nossa função de sustentar essa margem, de dar o contorno, mesmo vendo a criança frustrada”, conclui Natalia. Acolher é possível. Mas é diferente de ceder. Acolher passa por reconhecer o que a criança sente, e que ela tem esse direito, mostrando formas de lidar com essas emoções, mas manter uma certa posição.
Para Fe, o acolhimento atrapalha quando vira uma negociação infinita e que muitas vezes acaba chegando ao desejo da criança. “Parte da tarefa de cuidar é entender que os pais existem para botar limite. Para fazer a borda. Mostrar que o caminho é até aqui. Quando o adulto tenta ser legal e agradar o tempo inteiro, ele pode acabar saindo do papel de ser referência, de transmitir o que a cultura nos diz que é certo e errado”, explica.
As crianças precisam de pais que sustentem decisões. Que banquem ser impopulares, que sustentem que vão ser eventualmente desgostados pelos filhos. Que organizem uma rotina, que digam que tem hora para dormir e acordar. Esse é o nosso papel. É assumir a responsabilidade de sermos os adultos da relação”. Fe Lopes, psicóloga e psicanalista
A frustração é parte do trabalho de ser pai e mãe.
Pode ostentar com orgulho seu título de “grande chato(a) do universo”. É um sinal de que você está fazendo um bom trabalho.
(Texto: Naíma Saleh)
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