Livros sobre biomas para aprender sobre plantas e animais
Conheça livros que apresentam biomas no Brasil e no mundo, nos ajudando a contemplar a vastidão e a abundância da natureza - e nos inspirando a preservá-la
A imagem de um "Velho sertão”, nome estampado na capa deste lançamento da Pequena Zahar, vem acompanhada da secura de uma terra laranja em contraste com as vidas na paisagem. No caso aqui, um menino montando em um cavalo. Conforme entramos neste livro de Fernanda Rios e Marcelo Tolentino, os tons terrosos vão se alternando, e Tolentino vai nos ambientando um lugar. Enquanto isso, em texto, Fernanda, nos especifica a quem pertence a narrativa.
Saía todos os dias para entregar leite que o pai tirava das poucas vaquinhas.
Toda manhã bem cedo, enfrentava o mesmo trecho de estrada, riscando as canelas.
A ida até que não era tão ruim.
O problema era a volta.
Pronto, nos abrimos aí para viajar com os dois autores por um “velho sertão” ainda mais específico e que nos convida a ir virando as páginas devagar. Textos e imagens sugerem um jogo de zoom in e zoom out ao leitor, à leitora, delimitando entre eles uma interpretação poética, reflexiva e, ao mesmo tempo, inocente da relação entre um menino, um velho a partir de um bem desejado por um e possuído pelo outro: alguns goles d’água.
O Blog Letrinhas fez uma conversa com os dois autores que chegaram ao livro em momentos diferentes. Fernanda, anos atrás, compôs um conto misturando imaginários do pai nordestino, das próprias viagens que ela fez com ele na infância e a ideia literária que temos da poética da seca e seus paradoxos. Já Tolentino chega à obra com texto vivido, mexido e remexido, à procura de brechas para que a ilustração cumpra não apenas o papel de dar o contorno para o enredo imaginado mas, também, entre no jogo do narrar, com elementos próprios e ritmo de leitura compartilhado.
Fernanda Rios: Para mim é esse lugar, um lugar imaginário, que é uma mistura de muitos lugares. A cidade do meu pai, onde eu passei as férias; são os lugares por onde ele passou, que ele me contava da desnatadeira do meu avô. É uma mistura de referências literárias, de referências do cinema. Então não é um lugar só, no final das contas, apesar de ser uma história muito cunhada nas histórias do meu pai. É um lugar meio para mim apenas. É um lugar eterno, digamos assim. Um lugar onde essa história sempre se passa.
Marcelo Tolentino: Para mim não tem essa camada tão pessoal que tem pra Fernanda. Eu acho que pra mim, tem, talvez, uma identificação com o menino. Mais no sentido dessa transição de adolescência, de você perder a inocência, sacar que você tem algum poder, de também ganhar mais autonomia e tal. Então acho que são coisas que aparecem no personagem, que talvez tenham conversado com um Marcelo adolescente.
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Marcelo Tolentino: Uma coisa que eu achei que também tem essa história muito pessoal da Fernanda com o pai dela foi que, logo no começo, apareceu uma referência, uma ideia de que era um duelo. Que tinha a ver com o “western espaguete” [Tolentino se refere a um gênero no cinema muito forte nas décadas de 1960 e 70, o “spaguetti western”, faroestes filmados na Itália com baixo orçamento, chamados assim pejorativamente pela produção dos Estados Unidos]. Meio filmes de cowboy americano também. Apesar de ter essa ambiência do sertão, que é uma coisa que eu também nunca fui muito próximo, mas sempre teve uma relação grande com meu pai, justamente pelos filmes. Meu pai sempre fala do John Wayne, do Clint Eastwood (aí já são as estrelas hollywoodianas), ele sempre assistiu milhões de vezes a todos esses filmes. Então, de algum jeito. Também trouxe essa conexão, né? Tipo o - eu sempre troco a ordem - O Bom, o Mau e o Feio, que é a do Sérgio Leone com o Clint Eastwood. Além disso, foi uma oportunidade também, de fazer uma imersão num trabalho de fotografia brasileira, principalmente as fotos da Maureen Bisilliat [artista inglesa que fixa residência no Brasil no final dos anos 1950, quando se dedica completamente à fotografia e faz registros muito focados nas cores e texturas que ela encontra pelo país]. Não podendo estar no sertão, me ajudou muito poder olhar para o trabalho de alguém que esteve lá e olhou com um olhar sensível e fora do estereótipo.
Fernanda: Uma coisa que ninguém nunca perguntou. Chama “velho sertão” porque é velho oeste. Era isso. A ideia sempre foi que fosse um duelo entre o menino e o velho. E, também, a relação desse sertão, que é uma memória ali na vida da gente, Os Sertões, Grande Sertão: Veredas... Então é quase uma referência para todo mundo. Mas eu achei legal que o Marcelo fez o caminho dele, sabe, assim fez um caminho diferente e ajudou a compor. Acho que é isso que é interessante.
Fernanda Rios: Eu não lembro quando eu escrevi esse texto. Foi 2018 ou 2019.
Fernanda Rios: A escrita toda começou como um conto no curso de Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz. Eu tive a sorte de ter muitas leituras desse texto. Todos os meus amigos da turma, depois Dani Gutfreund [editora e pesquisadora que orienta projetos no espaço de cursos Lugar de Ler]. E também, depois, o estudo na PUC-SP e a tese de doutorado focada na linguagem do livro ilustrado. O Marcelo trouxe camadas, no final das contas ele acabou virando um livro ilustrado e eu queria que isso acontecesse, que ele trouxesse significações na imagem. E aí o texto foi ficando cada vez menor e menor, até ter várias duplas que não tem texto.
Fernanda Rios: Porque é um texto difícil. A gente sabe as complexidades que ele tem. Mandei o texto. E aí ela aceitou, depois de um tempo. E ela e a equipe de arte que indicou o Marcelo. Eu confesso que o Marcelo nunca passou pela minha cabeça. Imagina o Marcelo fazer o meu livro ! (risos)
Marcelo Tolentino (encabulado): Mas a gente teve poucos contatos. Assim, a gente teve uma reunião inicial, a gente fez uma leitura juntos. E eu já recebi esse texto na forma de um PDF paginado.
Marcelo Tolentino: Ele já tinha um tanto do ritmo, já bastante trabalhado, uma visão do que a Fernanda havia pensado com a Dani antes. Ele já tinha esse jogo do texto da página e do que poderia aparecer. O que me deu muita vontade de fazer o livro foi que eu achava que era uma proposta muito legal do ponto de vista do que eu ia poder desenhar, dá vontade de desenhar o livro. E, a outra coisa, com um final totalmente aberto. Leia e pense. O que você acha sobre isso? Se tem alguém mais certo do que o outro, se tem alguém mais errado. O que eu achei corajoso e difícil de fazer. E me tirou um pouco da zona de conforto. E tem a coisa da Fernanda vir do cinema, que também era uma referência para o livro. Então eu acho que já visualizava muito. Como ele poderia funcionar. Na descrição inicial, quando o menino via que o velho tinha a água para dar, tinha uma coisa de ser o brilho da caneca que ele via um de longe e tal. Num filme funcionaria perfeitamente, porque a câmera está passando e a gente vê aquele ponto de luz que brilha e apaga. Mas como que isso ia se traduzir numa ilustração estática? Fiquei um tempo e pensei em trazer mais protagonismo para o gato. Ele vê o gato bebendo essa água que caiu atrás do velho.
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Fernanda: Eu tenho medo da hora que as pessoas vão ler (risos). Porque já está gerando reações diversas, assim não sei qual foi a sua!
(pausa no texto para não dar spoiler completo)
Fernanda: Pois é. O vilão era o velho. Era assim nitidamente. Aí começaram a me falar “não, mas esse menino é muito sacana também”. E aí, no final das contas, é legal, por isso. Ninguém é tão bom e tão ruim.
Marcelo Tolentino: Eu acho que tem algumas coisas que vieram na imagem mesmo. Por exemplo, tem uma inversão da hierarquia e do respeito que se dá pelos chapéus. O menino sempre que ele chega para falar com o velho, o velho está com chapéu, mas ele, tira. Ele está sempre num nível abaixo do velho e na hora do troco... tem algumas coisas sutis na imagem, mas que eram para mostrar esse ponto de virada. Ele deixou de ser criança, perdeu a crença ali, ali.
Fernanda Rios: É a minha coisa isso, né? Da minha formação do cinema. Eu já enxergava o filme. Opa, filme (risos), ó, falei errado. O livro eu enxergava como um filme. E o Marcelo foi escolhido por conta dessa coisa do cinema, porque a gente falava. De ter uma visão cinematográfica e precisava de se aproximar e se afastar para você ter a dimensão de estar sozinho naquele sertão, e de ver o suor na cara do menino. Então não podia ser qualquer ilustrador que não tenha essa perspectiva. Essa coisa do enquadramento mesmo. E também tinha que ser alguém que entendesse de livro ilustrado. Para conseguir criar essas camadas. Eu não vi o Marcelo fazendo esse livro, e foi o total acerto das meninas.
Marcelo Tolentino: Eu acho que tem uma coisa, que antes de também aceitar fazer, era a minha preocupação, que é a coisa de distante dessa realidade do sertão e o medo de cair no estereótipo. Tentei me aproximar, olhar para esse sertão. O que é essa relação seca? Quem que é esse personagem menino perdendo a inocência, tinha até uma coisa no primeiro texto, que depois caiu do texto, que mencionava uma mulher que o velho um dia teve, e que tinha deixado ele. Pensei: acho que é legal ter alguma indicação que aponte do porquê que talvez esse velho seja tão amargurado: a foto na parede.
Marcelo Tolentino: Sim. Como trazer essa sensação de uma coisa muito árida neles também? Na paleta reduzida, na ideia de ter trabalhado os originais num papel que era ultra absorvente. Então, assim a hora que eu botava o nanquim no papel, a água já fazia assim e assim. Apesar da coisa ser digital depois, tem uma coisa da materialidade que eu que reforça tudo. Fui procurando as brechas também.
Fernanda: Meu pai. Ele é de uma família muito pobre, tem nove irmãos. Então eram dez filhos. Meu avô tinha uma desnatadeira. Meu pai era esse menino que levava o leite, que entregava o leite nas fazendas ao redor. Então é sobre o meu pai, mas não é. Fui pegando coisas dessas e outras histórias que eu ouvia. Essa ideia que eu queria passar, sabe? O Marcelo me pediu foto do meu pai, mandei foto dos latões. Mas meu pai leu e disse que gostou. Então é isso pra mim, no final das contas: um grande presente pro meu pai. Meu pai nunca estudou, não terminou a escola, então, de certa maneira, eu sou muito grata a ele por ter me dado uma formação que eu pude devolver um presente para ele.
(texto Cristiane Rogerio)
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