A infância e as muitas primeiras vezes que as crianças vivenciam
Crescer é bonito, mas não é fácil. As crianças estão descobrindo o mundo e, ao mesmo tempo, construindo sua própria identidade. E os adultos se esquecem de como isso é difícil
Um menino em seu burrico percorre a aridez do sertão sob o sol que não dá trégua. Cada vez que passa em frente à casa de um velho, o garoto pede um pouco de água. Mas o senhor diz que ali não há. Que se tivesse lhe ofereceria. A cena vai se repetindo e o menino desconfia do velho… E o faz com toda razão. É essa a história contada em Velho Sertão (Pequena Zahar, 2026), de Fernanda Rios e Marcelo Tolentino. A obra tem muitas camadas… e uma delas é justamente entender que ali, na experiência daquele menino, acontece uma descoberta, talvez até um tipo de revelação: nem todo mundo fala a verdade. Nem todo mundo escolhe ser gentil. Nem todo mundo é bom.
Ilustração de Marcelo Toletino em Velho Sertão (Pequena Zahar, 2026)
O crescimento, e as novas experiências que ele traz, vão aos poucos minando a ingenuidade preservada pela infância. É um processo de descoberta do mundo, que descortina a realidade da natureza humana e das relações, com todas as suas ambivalências, contradições e imperfeições. Assistir a um filho descobrindo o mundo pode ser para os pais um exercício de fascínio e de assombro. Pode despertar um doce orgulho mas também trazer certo amargor, quando os desejos e comportamentos, trilhando um caminho próprio, vão se afastando daquilo que os pais idealizaram. “O filho real é muito distante do que a gente imagina, do que a gente planeja. E ainda bem que é assim. Senão, um filho não conseguiria andar com as próprias pernas e seria uma extensão dos nossos próprios desejos como pais”, explica a psicóloga e psicanalista Elisa Motta Iungano, da Entrelaces Psicologia (SP).
A criança está inserida no mundo. É impossível pensar que, por mais ativos e zelosos e atentos que sejam os pais e cuidadores, tudo vai passar pelo crivo deles. Nem todas as vivências da criança poderão ser mediadas. “Para além da experiência privada, há uma experiência coletiva, que ultrapassa o controle dos pais. Os espaços por onde a criança circula, como a escola, os parquinhos, a própria casa e o acesso que ela tem a informações trazem elementos que podem ser apreendidos de formas que os adultos não conseguem perceber”, explica a psicóloga Shaiene Lima. Ou seja, mesmo nas experiências que se dão sob o olhar dos pais, não há garantia de como cada criança vai viver aquilo. As vivências são experimentadas por cada um – e não há como antecipar ou controlar o que cada pessoa vai sentir e levar delas. A mesma situaçao pode ecoar de formas diferentes em cada um.
Nesse sentido, é possível pensar que essa experiência de descoberta do mundo tem um quê de solidão. Ou, como Shaiene prefere dizer, é uma “experiência pessoal”. “Quando digo pessoal, me refiro ao fato de que cada pessoa vai ter sua própria experiência e sentir que ela lhe pertence. E, para que essa experiência seja pessoal, é necessária a presença de um outro, mas uma presença que dê espaço para a criação do mundo e das próprias experiências da criança”, reflete.
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Quando uma criança nasce, os pais escolhem tudo por ela, como uma espécie de filtro, que tenta selecionar só o que é bom. Decidimos o que ela vai ou não comer, que espaços vai frequentar, que tipo de brinquedos vai ter, que livros vai ler, como vai se vestir. E algumas vezes, nos reviramos achando que o bolo que a avó deu antes do jantar acabou de arruinar todo o investimento em uma alimentação à base de brócolis e frutas da estação.
“Muitas vezes, por medo de encontrar uma experiência prejudicial, de estragar, de sair da linha, de não ser ´o melhor´, os pais acabam cortando a possibilidade de aprendizados, de riquezas. Vejo que há uma certa rigidez”, conta Elisa. Sim, existe um certo desejo dos pais de controlar as experiências dos filhos. E no comecinho da vida, isso é um ponto bom. “Essa ilusão dos pais no início é importante para que eles se coloquem nesse lugar central de cuidado. Nesse momento, os cuidados pertencem tanto aos principais cuidadores quanto ao bebê. Não há ainda uma separação clara entre um e outro”, explica Shaiene. Dessa forma, quando os pais olham para a criança há uma projeção de aspectos de si mesmos, de suas próprias necessidades e é a partir desse espelho que eles constróem sentido para a experiência do bebê. Esse olhar para si através dos filhos é o que sustenta essa ligação tão intensa, quase visceral, que se estabelece com o bebê e faz com que os cuidadores estejam inteiramente comprometidos com o cuidado. “No entanto, com o crescimento, é importante que essa ilusão vá se dissolvendo, abrindo espaço para mais flexibilização e permitindo que a criança manifeste seus próprios gestos, caminhando em direção à exploração e à descoberta do mundo”, explica a psicóloga.
Conforme a criança vai crescendo, acontece essa separação entre ela e os principais cuidadores. Ainda assim, os pais continuam exercendo um papel fundamental de “digerir” o mundo para os filhos. Isso significa garantir que eles não sejam expostos a situações e informações que ainda não têm condições de lidar. “Isso permite que, aos poucos, a criança desenvolva um aparato mental capaz de pensar, perceber e antecipar. Assim, ela deixa de ser apenas passiva diante do que acontece e passa, gradualmente, a ir ao encontro das experiências”, explica Shaiene.
Com o passar do tempo, é importante que os pais não preencham todas as necessidades da criança e possam permitir pequenas faltas. São justamente essas faltas, ou pequenas falhas, que possibilitam que a criança entre em contato com a realidade e com aquilo que escapa ao seu controle. Isso a impulsiona a criar, a inventar saídas e a manifestar gestos espontâneos, que fortalecem seu protagonismo no mundo”, Shaiene Lima, psicóloga
Ainda na primeira infância, a criança passa a ser inserida em outros espaços além do núcleo familiar e nem tudo que chega até ela vai passar por essa mediação dos pais. Outras vivências e informações vão atravessá-la e isso foge do controle parental. Acontece em todas as famílias. A criança ouve um amigo falar na escola sobre guerra. Sobre a floresta que pegou fogo. A criança vê pessoas em situação de rua pela janela do carro. Escuta notícias de crimes . Por isso, é tão importante ir apresentando o mundo aos poucos para as crianças. Sobretudo quando falamos de assuntos difíceis. O problema é quando o desejo de proteger e cuidar do filho se torna alienador, no sentido de querer restringir as experiências da criança ou até de preservar uma certa ingenuidade do mundo, excluindo a criança dos problemas. “É preciso entender de onde vem esse medo de expor a criança. Vem proteger ou de querer, de certa forma, manter a criança pequenininha?”, questiona Elisa.
É claro que o contexto social é um fator que define essa possibilidade dos pais de digerirem esse mundo além da compreensão das crianças. Nem sempre é possível fazer isso, uma vez que mesmo o cotidiano da infância pode ser atravessado por violências, injustiças e outras tantas questões complexas de se elaborar. E quando a criança traz aos pais algo desse tipo, é preciso tratar desse assunto, com sensibilidade, dentro das capacidades de compreensão da criança. Nessa hora, é bom lembrar da parceria com a escola, trocar informações com outros pais, para saber de onde surgiu essa questão que a criança trouxe, e até consultar um profissional que possa ajudar, se for o caso.
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Essa permissão para que a criança possa viver suas próprias experiências de forma livre começa desde cedo, no dia a dia. Por exemplo, quando pais e cuidadores não fazem por ela aquilo que ela já sabe – ou deseja tentar – fazer sozinha. Pode ser se vestir, enrolar o próprio macarrão com o garfo ou tentar resolver a lição de casa sozinha, ainda que você precise revisar depois. Em alguns casos, a criança pode até precisar de um empurrãozinho para viver as próprias experiências. Talvez baste um “acho que você já dá conta de fazer isso sozinha(o)”.
Ampliar o círculo de convivência da criança também é algo importante. Para Elisa, o fato de vivermos em uma sociedade que estimula um certo individualismo, muitas vezes deixando para trás modelos de cuidado mais coletivos, em que se conviva também com a família estendida – avós, tios, primos - e até vizinhos. “Acho que isso incentivou os pais a acreditarem que eles podem controlar as experiências dos filhos, que ficam menos compartilhadas”, observa Elisa.
É importante para a criança ter outras pessoas de referência, que possam regular os pais, nos exageros e nas faltas. Não é saudável para a criança ter só uma ou duas pessoas como cuidadoras. Faz bem ter outras fontes”, Elisa Motta Iungano
Para Shaiene, não dá para pensar que os pais estarão envolvidos no cuidado com os filhos deixando totalmente de lado os seus próprios desejos e expectativas em relação eles. “Sempre haverá alguma implicação dos pais na forma como os filhos vão descobrindo o mundo. O trabalho dos pais não se faz a priori, antes do que é vivido, não há como prevenir tudo. É importante que a experiência venha primeiro e, dentro dela, estar aberto à maneira como o filho está descobrindo o mundo”, explica. Em outras palavras, ainda que seja impossível antecipar as experiências que as crianças vão viver, é importante que os pais estejam abertos para receber e acolher aquilo que os filhos trazem – mesmo que isso gere uma certa estranheza. Fazer diferente dos pais é um comportamento de certa forma esperado e importante para que a criança se desvencilhe dos desejos dos seus genitores. "A criança encontra formas diversas de burlar o controle parental. São pequenos sinais de vida que ela reconhece e propaga, ampliando aquilo que não está sendo escutado pelos adultos. Eles podem até tentar controlar a criança e o que chega até ela, mas isso nunca é total, sempre haverá algo que escapa", lembra Shaiene.
Ser apoio. Escutar. Se interessar. Acolher. A descoberta do mundo pode ser menos solitária quando é compartilhada. Não, os pais não conseguem ter o controle das experiências que atravessarão os caminhos dos filhos. Mas podem estar sempre abertos para acompanhar os relatos de cada nova travessia.
(Texto: Naíma Saleh)
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