Projeto Bonde das Estrelas: a mediação de leitura como experiência coletiva e de afeto
Ler de forma coletiva. Transformar a experiência literária em uma vivência autoral. O projeto expande o conceito de acesso aos livros e dá voz às crianças
Quase escondida. Li esta qualificação sobre a livraria Casa de Livros nestes comentários possíveis de serem feitos e divulgados via Google. Entre outras características, esta encaixa-se muito bem à realidade deste espaço que ocupa a esquina da rua Capitão Otávio Machado com a Rua São Mateus, no bairro Chácara Santo Antônio, zona sul da cidade de São Paulo. Fica bem no meião de um bairro de casas que resistem à especulação imobiliária da maior metrópole da América Latina. Quem presta atenção vê. E para.
É difícil precisar o começo de vida desta livraria. Tem a ver com trajetórias, estudos, consciência do direito à leitura, o primeiro boom do mercado de literatura infantojuvenil e uma vontade de compartilhar, tudo a partir da amizade de duas mulheres: Maria Ângela Prado de Melo Aranha e Denize Bianchi Silveira Carvalho. A primeira, formada em filosofia, a segunda em psicologia, se encontraram numa escola e, dentro dela, entenderam que o amor que elas tinham pelos livros, pelas histórias e o jeito amplo que pensavam sobre infância as obrigariam a dar um passo a mais.
Mas não pensem que, de cara, fluidamente, elas encontraram este sobrado com paredes amarelas, janelas azuis e uma porta que, com o desenho da menina de Espelho (Companhia das Letrinhas, 2021) da autora sul coreana Suzy Lee estampado, dá vontade de pedir licença e entrar (Suzy Lee, aliás, foi uma das dezenas de autoras e autores que já pisaram por lá – dá para espiar aqui neste vídeo exclusivo gravado lá para a Revista Crescer, em 2011, quando o livro foi lançado aqui, pela editora Cosac Naify).

A entrada da Casa de Livros - com a menina na porta
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Mas não era só compartilhar um amor. Para Andrea, vender livros tem a ver com criar vínculos. As pessoas precisam ver outro sentido na relação leitor, leitora e livreiros, livreiras. Ser um lugar de referência, de confiança. Quando alguém pede indicação para Andrea, ela mergulha. “Eu preciso saber de algumas poucas informações”, diz. Mas quais? “Nome, idade, do que gosta… É uma composição”, conta. Sempre que pode dá uma cutucadinha necessária nos adultos, nas famílias. “Por que será você que não está lendo mais com seu filho? A gente tem aquela fase, que é da escola, quando ele precisa ler sozinho. E as pessoas são tão literais para algumas coisas! E a gente fala assim: ‘E esse seu lugar de carinho que você tinha todo dia à noite contando uma história, você vai jogar fora? Não é substituição, é paralelo. Garante um tempo de escuta que é muito importante.”
Então criar vínculo é como quem compartilha um segredo? “Eu acho que o livro é o segredo e é por isso que ele é tão importante. Porque ele está ali, fechado. Você talvez iria passar reto. Mas eu olhei você e, como a minha mãe fazia, digo: ‘toma aqui este’. E eu preciso te escutar”, diz Marcela. “E aí então cria este vínculo entre a gente.”


O aconchego do espaço e os autógrafos de lembraança nas paredes na Casa do Livro
O aconchego do espaço físico, os autógrafos de autores escritos nas paredes, a maneira em que os livros estão acessíveis a todo mundo e a própria característica, a curadoria em si do acervo contam demais. Estratégias fazem parte, ações com parcerias, sessões de apresentações com artistas, oficinas de arte, o negócio do livro é complexo, precisa de incentivo de muitos lados, e exige uma consciência da importância do direito à leitura. Ambas relembram dezenas de histórias de crianças que entram, tiram os sapatos, ficam à vontade, mexem em tudo, circulam pelo lugar ainda em seus primeiros passinhos da vida. E isso parece compensar muito e também é uma forma de autorenovação: afinal, por mesmo que tudo começou? “São pequenos atos no todo, mas, sim, sempre o que foi o personagem principal aqui é o livro. O segredo é ele”, afirma Andrea.
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Trabalhos assim que entrelaçam tanto na vida pessoal também promovem desafios para os quais ninguém está preparado. Ângela e Denize, esta dupla de mulheres que sonhou uma casa para que os livros e os leitores morassem, se separaram pouco mais de 20 anos depois de começar a empreitada, seguindo próximas aos livros e às infâncias, mas em projetos paralelos, como a Distribuidora Casa de Livros. Em junho de 2023, no entanto, esse grupo todo viveu a maior dor de todas: o falecimento de Ângela, em decorrência de uma pneumonia grave, aos 71 anos de idade. A tecnologia digital dá lá seus confortos: no perfil da livraria no instagram - @casadelivros_livraria – qualquer pessoa pode rever ou conhecer Ângela, por conta de vídeos que ela começou a fazer, indicando livros. Muitos durante a pandemia e até ao lado de seu companheiro Tom, fiel cachorro e, segundo ele, leitor exigente. Certa vez, ela me disse: ‘Tudo que não existe eu invento, tudo que eu invento, existe'.


Acima, Maria Ângela, sempre lembrada. E logo abaixo, as presenças de Midlin e Adélia Prado registradas na Casa dos Livros
Denize foi quem nos forneceu as fotos acima e também coleciona lembranças. Algumas, claro, inusitadas. O próprio Mindlin “chegou” lá um belo dia. “De repente eu vejo um senhorzinho, de costas, olhando o livro pela vitrine. E quem era? José Mindlin! Ele morava ali pertinho. Gritei para dentro da livraria: ‘o José Mindlin!’ e fomos lá e começamos a bater palmas para ele! (risos) . Bater palmas! Foi uma emoção, nossa! E daí as pessoas vieram ver o que estava acontecendo. Quando ele viu aquela salva de palma, falou assim: de agora em diante, eu virei aqui sempre porque eu recebo palmas! (risos)”, conta ela. Ele começou a contar que na família presenteava todos com livros desde cedo, outras histórias incríveis que só ele poderia ter. E passou a ir lá outras vezes.
Também tem uma outra história de comover qualquer um: a presença do poeta Manoel de Barros (1916-2014). Denize conta que ele estava lá e um canal de televisão teria ido atrás. “Eu não tinha chamado a TV, nunca fomos disso. Souberam que Manoel de Barros ia lá. Ele parou na porta e não queria entrar. A livraria está cheia e ele me falou: você promete que não vai ter TV? E eu falei, claro, ‘prometo’ e foi. E aí ainda chega o Mindlin para vê-lo e o Thiago de Mello!”, recorda, referindo-se ao poeta amazonense, falecido em 2022. E não para por aí: até fechar rua para escola de samba elas chegaram a providenciar. Era Ziraldo e a Nenê de Vila Matilde, escola de samba de São Paulo que o homenageou em 2003.
“Eu e a Ângela batalhamos muito. Foi a época áurea da minha vida”, afirma Denize com emoção na voz. Para ela, o espaço livraria em si já é o diferencial. Mas não basta: tem que garantir o encontro, de verdade. Não adianta estar tudo acontecendo ao mesmo tempo. É o tal olho no olho, ler um trechinho, mostrar com calma. Voltamos ao tal “compartilhar um segredo”. “Livro é emoção, é meu refúgio até hoje, e o livro infantil nos regata algo da nossa história de criança, não paramos de ter obras maravilhosas até hoje”, reflete Denize, citando que a luta por sobreviver na área às vezes encobre o principal. “Quando a Ângela lia alguma coisa que ela amava, ela me ligava à noite, qualquer horário (risos), para ler aquele trecho. Eu também ligava para ela: ‘Ângela do céu, leia isso!’ A gente queria levar para todo mundo a emoção.”
E levaram e ensinaram muita gente que, como diz o artista e pesquisador francês Edmond Couchot (1932-2020), “a emoção é um modo verdadeiro de conhecimento”. Esta aí o segredo.
(texto: Cristiane Rogerio)
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