Quando os vilões não são assim tão maus

24/04/2026

O gato Janjão se tornou um dos mais queridos personagens da série O Homem-Cão.  E agora, ganhou um volume dedicado a contar sua história:  O Homem-Cão: Janjão, a origem (Companhia das Letrinhas, 2026). No livro, nos debruçamos sobre o passado do gato conhecido por sua positividade, antes, bem antes de ele se tornar o Comandante Bolinho - quando ele ainda era apenas Janjinho.

 

Janjao- a origem

 

O personagem aparece desde o primeiro livro da série, quando dividia cela com Pepê (outro ex-vilão!) na Prisão dos Gatos. Na prisão, Janjão assume a identidade do super-herói "Comandante Bolinho" durante a noite e tem como seu companheiro de cela, o Vovô, que acaba se tornando seu parceiro - o “Confeitos”. Assim como Janjão, o Vovô não é exatamente um vilão, mas um cara mal-humorado e um tanto mal intencionado… que também tem lá suas dores do passado… 

Janjão, Vovô e o gato Pepê, que também começou como vilão na série, trilham essa espécie de arco de redenção dos vilões. Por trás da vilania, os personagens de Pilkey revelam também fragilidade, dores, medos… E eles não estão sozinhos. 

Em Este é o lobo (Pequena Zahar, 2020), Alexandre Rampazzo transforma o animal reconhecido como antagonista de tantas histórias em um protagonista mais sensível - e desejoso de afetos - do que jamais se poderia imaginar. O Lobo, que tão mau parecia (ou assim o imaginávamos...), na verdade tinha seu próprio algoz: a solidão. A inspiração para o livro surgiu a partir de um desenho feito pelo sobrinho do autor, Matheus, que na época era uma criança pequena. Ele desenhou um lobo em um pedaço de papel e uma lua em outro e explicou ao tio em seguida que o lobo não estava mais ali… Essa ausência foi o que deu o estalo para que o autor criasse a história. "Me veio a ideia de partir desse personagem que habita o imaginário de tantas pessoas, tido como um personagem que está sempre pronto para atacar, para trazer prejuízo para os outros personagens, trabalhando com essa ideia de ausência”, conta o autor. O livro se aproveita da expectativa do leitor, que imagina que o lobo devora os personagens que vão sendo apresentados em uma página e estão ausentes na próxima... mas é justamente esse o ponto de subversão da narrativa. "Em nenhum momento o livro diz que é o Lobo Mau. O texto diz apenas 'Este é o Lobo'. Se faz uma leitura imediata de que nós estamos falando do Lobo Mau. Assim, o livro abre caminho para falar sobre estereótipos, expectativas...", comenta o autor.

este-e-o-lobo


Nem tão maus assim… 

Janjao e vovo


Mas o que acontece quando o vilão, ao invés de ser punido por suas maldades, acaba se redimindo? Quando é perdoado e chega a ser até querido pelo público - às vezes até mais do que o próprio mocinho?

Para o autor e professor de escrita Caio Tozzi, que assina Super-Ulisses (Escarlate, 2021) e estuda o papel dos vilões, essa trajetória de redenção, quando bem construída, não se torna algo forçado ou piegas e pode ser importante principalmente para essa faixa etária dos leitores de O Homem-Cão e de Super-Ulisses.  “Acho que quebrar a visão maniqueísta, de que o vilão é apenas mau, é um caminho bastante interessante se pensarmos que estamos falando com leitores pré-adolescentes. Lógico que quando pensamos em vilões de histórias, muitas vezes eles são mais caricatos e histriônicos, pesando algumas tintas, mas é neste período da vida em que o leitor ‘vai para o mundo’, que ele encontra muitos ‘vilões’ – partindo da ideia de que podem ser antagonistas em suas jornadas”, explica. 

Caio explica que esses “vilões” que os jovens leitores podem encontrar pelo caminho vão desde um colega que não joga limpo em uma partida de futebol até aquele que faz bullying. “Evidentemente, em caso de alguma ação errada, essas figuras devem ser punidas (como os vilões). Mas também olhar para elas levando em consideração a complexidade da nossa humanidade, pensando o que, de repente, faz com que tenham tais tipos de ação 'vilanesca' abre margem para conhecer também a história por trás da figura – e, se aproximar dela”, defende Caio.

Rampazzo diz algo parecido: "Às vezes, tem aquela criança que senta no fundo da sala e que está sempre inquieta, e que o professor suporta mais ou menos. Às vezes, é difícil fazer uma leitura de qual é o histórico dessa criança, de por que ela se comporta dessa forma. A gente esquece de tentar entender uma história pregressa, e aponta preconceitos que não dão conta daquele indivíduo", explica. Nesse sentido, podemos pensar que esse exercício que tantos vilões nos convidam a fazer, de olhar além de suas ações e aparências, pode ser um convite à descoberta de mais humanidade.

Um estudo realizado pela Universidade de Michigan (Estados Unidos) e publicado em 2023, analisou as expectativas de adultos e crianças em relação a “personagens com personalidade antissocial grave” - um jeito gentil de se referir aos vilões. Os pesquisadores realizaram três estudos com 434 crianças (de 4 a 12 anos) e 277 adultos, analisando os julgamentos dos participantes sobre vilões e heróis da ficção, tanto conhecidos quanto novos. Nos dois últimos estudos, os pesquisadores examinaram as crenças dos participantes sobre o caráter moral e sobre e a verdadeira essência de heróis e vilões. Os resultados mostraram que, tanto crianças quanto adultos, avaliaram consistentemente a verdadeira essência dos vilões como mais negativa do que a dos heróis. Mas, ao mesmo tempo, consideravam os vilões mais propensos do que os heróis a possuir um eu verdadeiro que diferia de seu comportamento externo. Em outras palavras: a tendência era acreditar que as ações maléficas dos vilões não refletiam a sua essência. Há uma esperança, de que, no fundo, apesar das atrocidades cometidas, eles não sejam tão ruins assim…

A pesquisa também mostrou que, em todas as faixas etárias, os participantes relataram com mais frequência que os vilões eram mais interiormente bons do que os heróis eram interiormente maus. E talvez isso explique nosso otimismo em relação a eles. "Ficamos sempre na expectativa do que vai acontecer com o vilão. Se será punido ou não, se existirá um acerto de contas, se o protagonista vai vencer ou não. Por isso que, dependendo do vilão, a gente até torce para ele – e isso é um ponto legal de se destacar: a torcida pelo vilão", comenta Caio. 

Mas o que faz um bom vilão, afinal?

A construção de um vilão, de um antagonista, é essencial, porque sem essa figura, o mocinho ou mocinha não tem lá muito o que fazer… “As ações da figura antagônica em uma história são as que, na maioria das vezes, geram os conflitos para serem resolvidos e, assim, fazem a história andar para frente – e fazem também com que os leitores fiquem conectados à trama do começo ao fim”, explica. Por isso, qualquer vilão que se preze - e que queira ser reconhecido como tal - precisa de um objetivo claro: fazer a mocinha sofrer como a madrasta da Cinderela. Ser a mais bela do reino como a Rainha Má da Branca de Neve. 

Para quem cria o personagem, é preciso contar: por que ele é um vilão? O que o motiva a ser a força que vai contra a jornada do protagonista? “A partir desse ponto estruturante, a gente vai colocando o entorno, deixando-o mais interessante e entendendo se ele caminha para algo mais cômico ou irônico; para uma figura séria, sombria ou misteriosa; se é alguém um tanto esperto que dá um nó nas outras figuras. Vai colocando elementos que compõem as características físicas e psicológicas dele. E, é claro, vai criando uma personalidade que se conecte também com o leitor. Porque acho isso importante: o vilão tem que provocar o interesse desse leitor para que ele compre a jornada do protagonista”, explica Caio.

Até o humor pode ser um fator importante na construção de um vilão. Caio cita como exemplo seu livro, Super-Ulisses, em que o vilão Danelon quer impedir que os moradores de São Petrucchio entrem na biblioteca da cidade por causa de ordens superiores. “Há passagens em que ele se mostra um tanto medroso e mete os pés pelas mãos. Os leitores e leitoras o adoram por conta disso”, comenta.

Talvez essa experiência de enxergar no vilão a fragilidade por trás do perverso, de reconhecer atos de bondade mesmo quando tantas escolhas cruéis foram feitas, nos ajude a enxergar e aceitar nossas próprias ambivalências - e as ambivalências daqueles que nos cercam. "Para mim, Este é o Lobo não faz uma redenção do Lobo Mau clássico das històrias. É mais uma mudança da nossa perspectiva. É trazer um olhar novo para um personagem que é reconhecido como mau. É uma discussão mais sobre as nossas expectativas, é um olhar que está em outro lugar. Implicar mais em tentar entender como a gente acaba pré-jugando a partir de uma concepção equivocada".

Quando vilões revelam suas dores e fragilidades nos lembram que sempre há mais do aquilo que imaginamos ou que conseguimos enxergar.

E olhando para eles, podemos encarar as limitações dos nosso próprios pontos de vista.

(Texto: Naíma Saleh)

 

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