Marilda Castanha dá nome ao indizível em seu novo livro
Em ‘Meu nome’, novo livro da autora mineira, a guerra da Palestina é propulsora para um manifesto pela infância das vítimas de conflitos
Chegar em casa da escola, encontrar seu quarto, suas coisas preferidas, a bicicleta ganhada no último Natal, e o reencontro com o bicho preferido: o Senhor Lobo. É o que vemos à primeira dupla de páginas de A mala vermelha (Companhia das Letrinhas, 2025), que a autora argentina Eva Uviedo acaba de lançar. Vamos conhecendo mais detalhes daquele lar, onde o cenário, os detalhes e as pessoas têm um tom amarronzado com traços em branco e preto, mas um vermelho movimenta-se diferente. Mulheres cochicham e a rotina tranquila do que está escrito em texto cria um contraponto com uma certa tensão que sentimos nas imagens. O prato é o favorito dela e do pai. Mas ele não está ali. E então a menina – e o leitor – começa a ver que tem algo mexido ali e ouve da mãe que é hora de fazer uma viagem.
A menina ama chegar em casa... mas é obrigada a deixar sua lar, levando apenas uma mala vermelha
O livro é sobre essa certeza de que algo vai mudar, mas a absoluta dúvida do como vai ser. Há angústia, tensão, medo. Mas há também carinho, tortas fritas da vovó e tudo que cabe em uma mala vermelha especial.
Confira alguns trechos de nossa conversa com Eva exclusiva para o Blog Letrinhas:
Eva Uviedo: Em primeiro lugar, adoro a Carolina e Odilon. Ele é o responsável por eu ser ilustradora de livros. E com a Carolina eu trabalhei em um projeto com ela e ela sempre traz quela coisa bem pontual para gente perceber na criação e é maravilhoso. Porque o livro infantil tem disso: as possibilidades para criar são enormes. São variadas. E a gente precisa às vezes que alguém te bote no trilho, um olhar de fora para se localizar.
Eva Uviedo: Isso! Ela nasce de uma vontade de falar sobre o assunto, que impactou muito a minha infância e a minha formação política, minha formação ideológica. Que é ter passado por uma situação de exílio de ditadura, de ter pais atuando politicamente, artisticamente. Ou seja, esse é o contexto de alguém que meio que escapou dessa história durante, sei lá, quarenta anos...
Eva Uviedo: Faz uns dez anos rolou esse questionamento do “por que que você não fala dessa história? Na sua arte...?” Eu era ilustradora de revista, especialmente, artista visual. Mas eu não tratava desse tema nunca. Ficou essa coisinha escondida de falar sobre esse assunto. E aí, durante a pandemia que eu tive a inspiração depois que eu li o livro do Sebastián Santana Camargo, maravilhoso, Meu Tio Chega Amanhã (Livros da Matriz, 2020), que fala sobre desaparecimento. Eu falei: bom, se dá para falar de desaparecimento para um livro infantil, eu acho que eu consigo falar de exílio para um livro infantil.
Eva Uviedo: E é muito louco porque a gente fala muito em “literatura infantil”, e eu comprei esse livro já adulta e para mim. Meus filhos são adultos também. Eles me presenteiam livros infantis.
Eva Uviedo: Para um público infantil, mas assim são tocantes, maravilhosos.
Eva Uviedo: Tomara! Então era assim essa vontade de falar do assunto e da perspectiva do “como falar”. Me deu a ideia desse personagem... A verdade é que a coisa de trabalhar com ilustração infantil é muito recente para mim. Eu sou ilustradora desde 2007, e o meu primeiro livro infantil foi em 2020, na pandemia. Então não é que eu venha do mercado de trabalhar com criança. Às vezes me fazem perguntas sobre o lugar da criança nessa criação. E eu não tenho essa resposta, porque quando eu comecei a trabalhar com livro infantil, meus filhos já eram adultos e eu não tenho nem formação pedagógica nem nada... Entendeu? Mas eu quis contar a história do ponto de vista da criança. E esse ponto de vista foi o que eu resgate, principalmente de entender como é que eu tinha me sentido em relação a isso. Eu sempre fui confrontada com o ponto de vista do trauma, sabe? “Meu Deus, você veio, criança! Que horror!”. E eu não conseguia encontrar em mim um drama, mas que eu tinha passado por um processo de ruptura. Mas eu encontrei um país muito acolhedor. Eu encontrei uma realidade muito. Não foi um horror. Mas eu precisava falar do horror que é a ditadura, do horror que é o exílio, do horror que são as coisas. Então, conjugar essas duas linguagens, esses dois sentimentos no livro se manifestou dessa forma, que eu acho que é o melhor do livro ilustrado: quando o texto te conta uma coisa, a imagem te conta a outra.
Eva Uviedo: A voz da criança, não vou dizer que é a minha, porque as coisas não aconteceram exatamente dessa forma... Condensei vários fatos. O fato, por exemplo, da revista dos militares feita em casa, eles entrando para revistar coisas, bagunçando, jogando papéis no chão, marcando tudo com a sujeira das botas. As botas são muito marcadas na minha memória. Isso tudo é real. A minha avó, a despedida, a viagem de ônibus, o meu pai ter vindo na frente... Essas coisas são verdade, mas isso aconteceu ao longo de um período que eu não sei precisar. Eu não converso muito disso com a minha mãe. Ela não lembra direito. E durante muito tempo eu não toquei muito nesse assunto com ela. Sabe aqueles acordos tácitos tipo “deixa isso para lá e a gente segue em frente?”. Mas essa visão minha, vamos dizer, do fenômeno está no texto, a menina e um “sei muito pouco sobre o que está acontecendo”. E a visão real das coisas que eu sei que aconteceram num período histórico estão no desenho. O medo, as notícias que vêm por telefone. As mulheres preocupadas, principalmente as mulheres...
Eva Uviedo: Em grandes momentos da história, elas tentando fazer a manutenção da paz, da calma, da segurança. Nesses momentos, acabam sendo do cuidado doméstico. Então, como que isso se refletia nesse ambiente doméstico? Isso aparece muito no desenho. Então essa junção tem muito de real. Mas a construção dela, não.
O vazio que fica em A mala vermelha
Eva Uviedo: Sim, como narrar. Estava claro desde o início. O que acontece no livro do Sebastián? Ele é um personagem que está terrivelmente sorridente, esperando que alguém chegue. E a gente sabe que ele não vai chegar. Essa lógica de que o leitor sabe alguma coisa que o personagem não sabe.
Eva Uviedo: Eu decidi tudo meio que assim na minha cabeça, antes de colocar no papel: o tempo narrativo vai ser esse o momento da partida. O momento da partida é esse aqui. Agora, eu lembrei uma coisa. Eu já tinha tentado falar sobre isso em formato de história, em quadrinhos.
Eva Uviedo: Não funcionava... o ônibus já tinha, alguns elementos já estavam nessa história, mas não estava resolvido. A partir do momento que eu encontrei o recorte, foi. Os meus papéis de rascunhos têm a cena no quarto, a cena da criança com a avó. A cena da criança almoçando. E resolver o final, que era o mais difícil para mim. Onde acaba essa história?
Eva Uviedo: Mas ela veio de um ditado que, de fato, meu pai falava sempre da hora mais escura do dia ser quando vai amanhecer, pouco antes. Aí fui escrever, fui para a consultoria com a Dani Gutfreund (especialista em acompanhar projetos de livros ilustrados) no Lugar de Ler. Foi uma ajuda profissional, eu quero um diagnóstico (risos).
Eva Uviedo: Essa coisa viva do vermelho é em mais simples do que parece: a mala era vermelha, mesmo. (risos)!
Eva Uviedo: Sim, o forte é o vermelho. Mas a minha primeira versão imaginária dele seria inteira preta e branco e só o ponto de cor ser a mala. E aí, quando eu comecei as ideias para a linguagem visual, achei que faltava um pouquinho esquentar as cenas iniciais. Eu trabalho muito com o. café como pigmento. Então ele é meio que assim: já são as coisas que eu trabalho. O chão era meio marrom na época na Argentina, nos setenta. Nas anotações no meu caderno, coloquei: começar com tudo organizado e aconchegante; livros estão muito organizados. O ponto de cor vermelho, para além da realidade, ele traz esse movimento que precisa que aconteça: o que vai ser levado de um lugar para outro.
Eva Uviedo: É verdade... Tem coisas que a gente não consegue explicar, né?
Eva Uviedo: Isso, a criança está contando algo para um interlocutor imaginário, que é o leitor. Algo como: “a minha casa é legal”, “eu sempre fico com a minha avó” “É sempre assim”. Fiz questão dessa repetição para marcar o tempo do na linguagem, marcar o tempo do cotidiano.
Eva Uviedo: Sim. Tudo muito certinho. Aí muda a linguagem, vem bagunça a e a linguagem para o tempo presente. Ela não sabe mais o que vai acontecer. Então é presente, “nossa, passei uma noite em claro”, “nunca tinha passado uma noite em claro”...
Eva Uviedo: Minha mãe! Maravilhosa! Eu estava com muito medo de mostrar esse livro para ela. Pensei: estou contando uma história, estou colocando ela na história, não sei se ela vai gostar desse papel ou se ela não vai gostar. Como que ela se vê em relação a isso. Foi como o Odilon, maravilhoso, disse para o pai aquela vez: “pai, não é você, isso é um livro” (Eva refere-se sobre o pai dele ter lido o livro Papai Pintava - Jujuba, 2024 - , quando o pai o “corrigiu” sobre uma determinada cena). Minha maior preocupação é não querer transparecer que isso foi um trauma e só. A gente já tem problemas demais na vida para ficar com culpa a respeito de alguma coisa sobre a qual a gente não tinha a menor condição de fazer diferente. Então ela fez o melhor que ela pôde.
Eva Uviedo: Eu mostrei para ela sem o texto, fui mostrando os desenhos para ela e dizendo o que estava acontecendo na cena, e fui contando história, contando história. E ela falou assim: muito bonito. E que bom que não ficou um drama.
Eva Uviedo: Fiquei aliviada!
Eva Uviedo: Ele é o sujeito oculto. Ele é o, digamos, o causador da ação. Claro, o causador mesmo é a repressão. Ele é o sujeito oculto que não está na cadeira, que não está no escritório, que não está nos lugares. Ele está nos retratos. Ele está no relato. Ele está nas coisas, mas ele é o que a gente está indo atrás da história dele. E eu acho que ele está suficientemente homenageado. Eu acho que a grande personagem ali, para além da menina e da sua história, é a mãe, por ter conduzido a coisa toda com calma, uma altivez. Especialmente de guiar uma criança para o desconhecido.
Eva Uviedo: E essa situação: “sim, a gente vai embora”; “Mas a gente vai voltar?”; “Não sei”.
Eva Uviedo: Quando não se tem a resposta. Exatamente isso.
(texto: Cristiane Rogerio)
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