Precisamos falar sobre misoginia - e a literatura pode ajudar
Desconstruir a misoginia passa, inevitavelmente, por refletir: o que é ser homem?
Pensar em um mundo com menos misoginia e mais igualdade entre homens e mulheres passa por redefinir o que se entende por papéis de gênero. Esse conceito se refere ao conjunto de expectativas, normas e comportamentos socialmente construídos que uma cultura determina como adequados para homens e mulheres. Ou seja, o que socialmente, por meio de uma construção, entendemos que é ser homem ou ser mulher. O que é vestir-se, comportar-se, querer e sonhar sendo de um gênero ou de outro. Hoje, por exemplo, as mulheres ainda são as grandes responsáveis pelo cuidado - da casa, dos filhos, dos idosos. Um trabalho que não é reconhecido, nem remunerado, mas que ainda é visto como uma “função feminina”, porque as mulheres supostamente seriam mais cuidadosas e empáticas…
É claro que não faltam exemplos incríveis na literatura de obras que abordam explicitamente questões de gênero, rompendo paradigmas sobre esses papéis tradicionais. Em Celeste, a skatista (Companhia das Letrinhas, 2024), de Rachel Katstalle, vemos uma menina se arriscar em um esporte radical que sempre foi território masculino. Em Bela, a fera, e Fernão, o belo (Companhia das Letrinhas, 2023), da Coleção Canoa, de Janaina Tokitaka e Flávia Borges, a princesa Bela é fortona enquanto Fernão, a fera, é todo delicado.
Mas há muitos outros livros que abordam essas questões de gênero de formas bem mais sutis. São histórias que, nos detalhes, nos convidam a olhar com mais atenção e a refletir: poxa, não é que poderia mesmo ser assim? Abaixo, listamos algumas delas, mostrando como grandes revoluções podem ir acontecendo livro a livro, página a página, de personagem em personagem. Confira:
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Kevin é um garoto que quer se vestir de princesa para a festa da escola - e ele não liga para o que os outros vão pensar. Kevin é uma princesa e ponto. Os meninos vestidos de cavaleiro podem até não querer fazer par com ele… Mas Kevin não se importa. Além da mensagem explícita sobre o que um menino pode ou não vestir, a história carrega ainda outras sutilezas que podem fazer pensar nos papéis de gênero. Por exemplo, a fantasia de Chlóe, a amiga de Kevin, que foi feita pelo pai dela. O livro conta que é o pai quem cozinha na casa dela - e que faz uma torta de legumes “daquelas”!
Acompanhamos um dia na rotina do bebê sob o ponto de vista dele. Entre momentos de cuidados, de brincadeira e de descanso, vamos reparando que o cuidar, que ainda pesa tanto sobre a esmagadora maioria das mães, não depende só dela. Há uma aldeia de braços para acolher o bebê. Já pensou em um mundo em que a responsabilidade e o cuidado é compartilhado igualmente entre homens e mulheres?
Se você fechar os olhos, como imagina que seja uma sereia? Delicada, com cabelos longos, uma voz macia e olhos brilhantes? Pois a sereia que habitava o sonho do pirata deste livro é bem diferente disso. Sutilmente, esses estereótipos ligados à feminilidade são desconstruídos com uma figura meio roqueira, de óculos escuros, que parece até um ser meio andrógino. E por que uma sereia não poderia ser assim?
Quem nunca escutou aquela história de “ai, o bebê só dorme com a mãe?” Neste livro, não é assim que acontece. Enquanto o bebê se prepara para fazer uma grande viagem - para a terra dos sonhos - a mãe e o pai compartilham os cuidados. Assim, não apenas o bebê, mas todos podem descansar.
Delicadas. Belas. Sensíveis. As flores são comumente associadas à figura feminina. Há Rosas, Violetas, Camélias… Mas quantos Gerânios ou Lírios você conhece? Que menino ganha flores de presente? Pois Davi, o protagonista deste livro, tem seu próprio canteiro florido sobre a cabeça. Mas não é só isso, ele é "doce e gentil assim como suas pétalas".

No relato sobre a convivência com a avô a sensibilidade do menino é evidente. Ele repara nos pequenos gestos da matriarca. Na forma como ela se ajoelha para catar minhocas na lata. Em como sussurra enquanto cozinha. A avó cuida dele, mas ele também está lá para ela.
(Texto: Naíma Saleh)
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Nem os animais de uma mesma espécie são exatamente iguais.... é com esse pretexto que 'Nem Todo', novo livro de Marcelo Tolentino, convida a quebrar estereótipos
O novo lançamento de Julia Donaldson, célebre autora de O Grúfalo, não vemos apenas como uma família pode se formar nas circunstâncias mais improváveis. Mas também como ela pode se expandir e ir além do núcleo, criando uma rede de cuidado