A literatura e as pequenas revoluções que ajudam a (re)definir papéis de gênero

22/05/2026

Pensar em um mundo com menos misoginia e mais igualdade entre homens e mulheres passa por redefinir o que se entende por papéis de gênero. Esse conceito se refere ao conjunto de expectativas, normas e comportamentos socialmente construídos que uma cultura determina como adequados para homens e mulheres. Ou seja, o que socialmente, por meio de uma construção, entendemos que é ser homem ou ser mulher. O que é vestir-se, comportar-se, querer e sonhar sendo de um gênero ou de outro. Hoje, por exemplo, as mulheres ainda são as grandes responsáveis pelo cuidado - da casa, dos filhos, dos idosos. Um trabalho que não é reconhecido, nem remunerado, mas que ainda é visto como uma “função feminina”, porque as mulheres supostamente seriam mais cuidadosas e empáticas… 

É claro que não faltam exemplos incríveis na literatura de obras que abordam explicitamente questões de gênero, rompendo paradigmas sobre esses papéis tradicionais. Em Celeste, a skatista (Companhia das Letrinhas, 2024), de Rachel Katstalle, vemos uma menina se arriscar em um esporte radical que sempre foi território masculino. Em Bela, a fera, e Fernão, o belo (Companhia das Letrinhas, 2023), da Coleção Canoa, de Janaina Tokitaka e Flávia Borges, a princesa Bela é fortona enquanto Fernão, a fera, é todo delicado. 

Mas há muitos outros livros que abordam essas questões de gênero de formas bem mais sutis. São histórias que, nos detalhes, nos convidam a olhar com mais atenção e a refletir: poxa, não é que poderia mesmo ser assim? Abaixo, listamos algumas delas, mostrando como grandes revoluções podem ir acontecendo livro a livro, página a página, de personagem em personagem. Confira:

 

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Princesa Kevin (Companhia das Letrinhas, 2020), de Michaël Escoffier e Roland Garrigue com tradução de Lígia Ulian

Princesa

Kevin é um garoto que quer se vestir de princesa para a festa da escola - e ele não liga para o que os outros vão pensar. Kevin é uma princesa e ponto. Os meninos vestidos de cavaleiro podem até não querer fazer par com ele… Mas Kevin não se importa. Além da mensagem explícita sobre o que um menino pode ou não vestir, a história carrega ainda outras sutilezas que podem fazer pensar nos papéis de gênero. Por exemplo, a fantasia de Chlóe, a amiga de Kevin, que foi feita pelo pai dela. O livro conta que é o pai quem cozinha na casa dela - e que faz uma torta de legumes “daquelas”! 


Berço, balanço, colinho, neném (Brinque-Book, 2025), de Tieza Tissi, Rafaela Deiab e Clara Gavilan

Berço, balanço, colinho, neném

Acompanhamos um dia na rotina do bebê sob o ponto de vista dele. Entre momentos de cuidados, de brincadeira e de descanso, vamos reparando que o cuidar, que ainda pesa tanto sobre a esmagadora maioria das mães, não depende só dela. Há uma aldeia de braços para acolher o bebê. Já pensou em um mundo em que a responsabilidade e o cuidado é compartilhado igualmente entre homens e mulheres?


Uma carta para o pirata (Companhia das Letrinhas, 2022), de Mari Bigio e Rodrigo Chedid 

Uma carta para o pirata

Se você fechar os olhos, como imagina que seja uma sereia? Delicada, com cabelos longos, uma voz macia e olhos brilhantes? Pois a sereia que habitava o sonho do pirata deste livro é bem diferente disso. Sutilmente, esses estereótipos ligados à feminilidade são desconstruídos com uma figura meio roqueira, de óculos escuros, que parece até um ser meio andrógino. E por que uma sereia não poderia ser assim?


Boa viagem, bebê! (Companhia das Letrinhas, 2025), de Beatrice Alemagna com tradução de Joyce Almeida

Boa viagem, bebê!

Quem nunca escutou aquela história de “ai, o bebê só dorme com a mãe?” Neste livro, não é assim que acontece. Enquanto o bebê se prepara para fazer uma grande viagem - para a terra dos sonhos - a mãe e o pai compartilham os cuidados. Assim, não apenas o bebê, mas todos podem descansar.


O menino com flores no cabelo (Pequena Zahar, 2023), de Jarvis com tradução de Julia Bussius

O menino com flores no cabelo

Delicadas. Belas. Sensíveis. As flores são comumente associadas à figura feminina. Há Rosas, Violetas, Camélias… Mas quantos Gerânios ou Lírios você conhece?  Que menino ganha flores de presente? Pois Davi, o protagonista deste livro, tem seu próprio canteiro florido sobre a cabeça. Mas não é só isso, ele é "doce e gentil assim como suas pétalas".


O jardim da minha baba (Pequena Zahar, 2024), de Jordan Scott e Sydney Smith com tradução de Paula Marconi de Lima

O jardim da minha baba

No relato sobre a convivência com a avô a sensibilidade do menino é evidente. Ele repara nos pequenos gestos da matriarca.  Na forma como ela se ajoelha para catar minhocas na lata. Em como sussurra enquanto cozinha. A avó cuida dele, mas ele também está lá para ela.

(Texto: Naíma Saleh)

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