Precisamos falar sobre misoginia - e a literatura pode ajudar

18/05/2026


Quando um homem expressa suas opiniões, ele é forte e determinado. Mas se uma mulher faz o mesmo, ela é arrogante. Isso é misoginia. 


Quando um homem está em uma posição de comando, ele é um líder. Mas se é uma mulher ocupando o mesmo posto, ela é mandona. Isso é misoginia. 


Quando uma mulher é vítima de assédio ou de qualquer tipo de abuso sexual e a pergunta que se faz é “o que ela estava vestindo?” ou “será que ela não provocou?”. Isso é misoginia.


Quando o trabalho doméstico e de cuidado recai sobre mães, esposas e filhas porque “é coisa de mulher”. Isso é misoginia. 


Quando um homem realiza o mesmo trabalho que uma mulher, mas recebe um salário maior do que ela. Isso é misoginia. 


Quando uma mulher é morta por seu companheiro. Isso é também nasce da misoginia. 

A palavra misoginia nasce da junção de dois termos de origem grega: misein, que significa odiar, e gyné, que significa mulher. É uma palavra que designa literalmente “o ódio e o desprezo pelas mulheres”, sentimentos que podem se expressar de muitas formas. E que se exprimem desde muito cedo, ainda pelas meninas.

 

A fabulosa história de uma trupe de acrobatas

A fabulosa história de uma trupe de acrobatas (Companhia das Letrinhas, 2026) faz alusão à misogonia por meio da jornada de três irmãs lobas


A misoginia está presente não somente em atitudes isoladas e individuais que desqualificam, humilham e desvalorizam mulheres. Ela é parte de uma estrutura, que sistematicamente oprime mulheres, por meio de padrões culturais e de um corpo social que define quais espaços devem – ou não –  ser ocupados por elas. Para Nana Queiroz, ativista, jornalista e autora de Os meninos são a cura do machismo (Record, 2021) “a misoginia é o código ético que suporta o sistema no qual homens ocupam um determinado lugar e, as mulheres, outro”.

Embora a misoginia ainda não seja descrita como crime específico no Código Penal, há um movimento tentando fazer com que isso aconteça. Em 2026, o Projeto de Lei 896/23, que equipara a misoginia ao crime de racismo, como uma prática inafiançável e imprescritível, foi aprovado pelo Senado e, se for aprovado pela Câmara, deve seguir para sanção presidencial. O projeto, da senadora Ana Paula Lobato (PSB-MA,) tem o objetivo de estabelecer uma resposta penal específica para a injúria por misoginia. 

LEIA MAIS: Grandes e pequenas violências contra mulheres: como a arte literária pode entrar em combate desde cedo

Por que é difícil reconhecer comportamentos misóginos

A jornada de três irmãs lobas, as protagonistas de A fabulosa história de uma trupe de acrobatas (Companhia das Letrinhas, 2026) mostra por meio da literatura essa depreciação do feminino que a misoginia nomeia. E evidencia como ela se conecta a diversos tipos de opressão e de violência. Na história, embora as três lobas acrobatas fossem famosas no mundo inteiro, fora do picadeiro elas vivenciavam situações degradantes e eram exploradas de muitas formas – uma situação que, no mundo real, tantas mulheres conhecem bem. A pergunta que as três lobas fazem é: “Como viemos parar aqui?”. Embora elas claramente não vivessem em condições dignas e não pudessem colher os frutos do seu próprio sucesso, reconhecer como tantas pequenas opressões foram desenhando aquela prisão não é tão simples.

Embora não faltem exemplos de comportamentos misóginos, nem sempre é  fácil reconhecê-los. Seja porque eles são tão normalizados na sociedade patriarcal em que vivemos que aprendemos a tratá-los com naturalidade. Seja porque muitos podem parecer  “apenas opiniões” ou comportamentos isolados. Seja porque muitos mecanismos de inferiorização da mulher são ancorados em argumentos biologizantes, do tipo: homens são naturalmente mais agressivos. Ou mulheres não têm espírito de liderança. “O mais perigoso dessas crenças sociais é que elas se tornam profecias auto-realizáveis. Se você acredita que as mulheres não têm espírito de liderança, você nunca vai treiná-las para serem líderes; logo,  elas nunca vão ter espírito de liderança. Logo, haverá sempre menos mulheres líderes e assim por diante ”, explica Nana. É um ciclo que se retroalimenta. 

Nesse sentido, a literatura, com as histórias sobre mulheres e contadas por mulheres, pode ajudar a devolver às meninas os espaços que a misoginia tenta reduzir. Em Minha vó ia ao cinema (Companhia das Letrinhas, 2023), de Paula Marconi de Lima e Lumina Pirilampus, a pequena transgressão contada no título, o fato de uma menina ir sozinha ao cinema, representava algo grandioso em uma sociedade interiorana de mais de 50 anos atrás. Em Celeste, a skatista (Companhia das Letrinhas, 2024), de Rachel Katstaller, conhecemos uma menina que brilha em um espaço tradicionalmente ocupado por homens. Em Tayó em Quadrinhos (Companhia das Letrinhas, 2021), Kiusam de Oliveira e Amora Moreira narram diversas situações e reflexões e reafirmam, entre outras coisas, o poder que as mulheres têm para lutar por seus direitos. Em Faísca (Companhia das Letrinhas, 2026), de Ilustralu, a menina Didi ama festa junina, mas não quer se vestir com um daqueles vestidos cheios de babados… Ela também gosta de ver os fogos. Mas quando quer brincar de soltá-los com os meninos, eles dizem que não é brincadeira para ela. Mas Didi não se intimida, e vai mostrar que não existe isso de “não é coisa de menina”.

Só que não basta reforçar os espaços de poder que meninas e mulheres têm o direito de ocupar, alargando as possibilidades que cabem em ser mulher. Desconstruir a misoginia passa, inevitavelmente, por também refletir: o que é ser homem?

Faisca

Em Faísca (Companhia das Letrinhas, 2026), Didi quer realizar seu sonho explosivo. E não vai abaixar a cabeça para a negativa dos meninos


Ser homem é simplesmente não ser mulher?

Simone de Beauvoir (1908-1986), uma das grandes teóricas do feminismo, refletiu sobre como a sociedade impõe esse papel subalterno às mulheres, criando um ambiente de discriminação e aversão ao feminino que surge justamente a partir desse discurso de ódio contra as mulheres. Em O Segundo sexo, ela escreveu: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino.” A ideia de que a mulher é esse segundo sexo, esse “outro”, surge a partir da premissa social de ser homem é ser o sujeito, é o absoluto, o “primeiro sexo”. 

Mas, o que é ser homem? 

Recentemente, essa pergunta tem ecoado pelas redes sociais. O cantor Junior Lima já falou diversas vezes sobre ter crescido com especulações sobre sua masculinidade pelo fato de não corresponder a esse ideal de homem hétero. “Eu sempre fui um homem que viveu na arte, que viveu dançando, na música, compondo. É um ambiente extremamente feminino. E eu estava o tempo todo com a minha mãe e a minha irmã. Eu sempre tive uma sensibilidade muito aflorada, sempre fui muito empático e isso se voltou contra mim”, desabafou em entrevista ao programa Saia Justa. “Eu tive que ser muito corajoso para continuar sendo quem eu sou”, afirmou o cantor. 

O cantor e compositor João Lucas, trouxe um depoimento parecido durante uma entrevista ao programa Sem Censura, da TV Brasil, que também repercutiu bastante: “A gente não cresce ensinado a como ser homem. A gente cresce ensinado a como não ser mulher”, afirmou.  Assim como Junior, ele também foi alvo de muitas especulações sobre sua sexualidade por divergir do macho padrão.  “Mas o que é ser homem? É só não ser mulher? E aí a gente cresce evitando todas essas características femininas”, questionou João.

Na última e badalada edição do Big Broher Brasil, o integrante Juliano Floss surpreendeu a audiência não apenas por enfrentar a pecha antiga do menino que sonha em ser dançarino, mas da forma que ele se comportou durante o programa, num dia a dia sempre com desafios no trato às mulheres. Deveria ser uma surpresa?

Quando a masculinidade é construída sem referências positivas, querendo simplesmente que meninos se distanciem do que é dado como feminino – o sentir, o cuidar, o sensível – se aproximar dessas características é um risco para a masculinidade. E aí cresce ainda mais o ódio às mulheres. 

Uma pesquisa da Universidade de Duke (EUA), publicada em 2021, sugere que quanto maior a pressão social que um homem sente para ser masculino, mais agressivo ele pode se tornar. Os resultados foram colhidos a partir de dois estudos, um com 195 estudantes universitários e outro com um grupo de 391 homens com idades entre 18 e 56 anos. "Quando esses homens sentem que não estão à altura das rígidas normas de gênero, podem sentir a necessidade de agir agressivamente para provar sua masculinidade – para 'ser homem'”, explicou o autor do estudo Adam Stanaland.

 

Celeste, a skatista

Celeste, a skatista (Companhia das Letrinhas, 2024), desafia a ideia do que uma menina pode ou não fazer - e dos lugares que elas têm direito de ocupar

 

LEIA MAIS: Sensível demais: por que a sensibilidade não é sinônimos de fraqueza

Quem ganha com a misoginia?


Não é preciso explicar como a misoginia prejudica meninas e mulheres, chegando ao ápice no feminicídio. No Brasil, no primeiro trimestre de 2026, foram registradas 399 vítimas de feminicídio - um recorde, que representa um número 7,5% maior do que o registrado no mesmo período do ano anterior.

Mas Nana defende que nem os homens – ou pelo menos não a maioria deles – saem ganhando com a misoginia. “A gente costuma pensar na misoginia como ‘os homens ocupam um lugar privilegiado e as mulheres, um lugar subalterno’. Mas nem sempre é assim. Eu desafio essa lógica porque principalmente os meninos pequenos sofrem também com muita opressão nesse sistema patriarcal”. 

Ela conta que ouviu mais de 600 homens para escrever Os meninos são a cura do machismo para saber como a infância havia impactado os homens que eles se tornaram. “O que ficou muito claro é que a masculinidade é moldada com violência, principalmente através dos pais e de outros meninos” explica Nana. Para ela, enquanto o tipo de opressão que as meninas sofrem envolve uma série de proibições, e restrições de espaços que elas não devem almejar, para os meninos essa opressão acontece no campo de sentir. “Para se encaixar nessa visão masculina do patriarcado, um menino precisa abrir mão da própria identidade. Não cabe mais ao menino se perguntar quem ele é, o que ele pensa, o que ele sente, quais são os seus valores. Cabe a ele aceitar o que um homem é. O que um homem tem como valores, como obrigações, como desejos. É uma visão de homem construída em cima de castigos e punições, de agressões físicas, verbais e que deixa os meninos encarcerados”, explica. 

E essa falta de repertório emocional dos homens reduz todos os sentimentos à raiva. “Eles se tornam adultos incapazes de lidar com emoções complexas, como a frustração, a sensação de sentir rejeitado ou fora do controle. E a saída que eles encontram para lidar com isso é a violência. Para mim, a violência contra a mulher é um resultado direto de uma infância que nega aos meninos o direito de desenvolver a própria inteligência emocional”, defende Nana.

Em A vontade de mudar: homens, masculinidades e amor (Elefante, 2025), bell hooks (1952-2021), professora e teórica feminista, também afirma essa ideia de que o feminismo é capaz de libertar os próprios homens dessa opressão, mas que para isso, é preciso refletir sobre como se constrói a masculidade.  “De fato, mesmo a prática feminista radical de taxar todos os homens como ‘opressores’ e todas as mulheres como ‘vítimas’ era uma forma de desviar a atenção da realidade dos homens e de nossa ignorância sobre eles. Simplesmente taxá-los de ‘opressores’ e rechaçá-los significava que nunca precisaríamos dar voz às lacunas em nosso entendimento ou falar sobre masculinidade de maneiras mais complexas.”, escreve.

Para Nana, não dá para pensar que todos os homens ganham com a misoginia e o sistema patriarcal. “Os homens estao morrendo mais cedo, têm maiores taxas de suicídio, têm maiores taxas de violências, são os que menos buscam ajuda quando enfrentam problemas mentais”, explica.

Mas, então, quem ganha com a misoginia? Para Nana, ganha o Estado que manda homens para guerra. Ganham bilionários e grandes empreendedores, que contam com uma  força de trabalho que não questiona porque se coloca no papel de provedor – e, por isso, atrela seu valor como pessoa ao valor que gera com seu trabalho. “Quem ganha com isso são poucos indivíduos em pontos específicos desse sistema”, defende a ativista. 

Talvez, a nossa geração não consiga reverter os efeitos de uma masculinidade que reprime homens e que estimula a violência contra as mulheres. Afinal, são séculos de opressão. Mas é preciso acreditar que novos homens virão. Meninos que são, hoje, pequenos e que podem experimentar novas formas de ser e sentir. Que podem ajudar a reverter os efeitos de uma masculinidade que reprime homens e que estimula a violência contra as mulheres. Muitos já não usam a raiva como única expressão e experimentam novas formas de serem "meninos", "homens", "masculinos", sem temer sentimentos. Sem ter medo do que realmente são.

(Texto: Naíma Saleh)

 

Compartilhe:

Veja também

Voltar ao blog