Plantar, colher, salvar o planeta: “Maya a e turma da terra” fala de saberes que se perderam sobre a natureza - e sobre nós mesmos

29/06/2024

“— Vocês não ouviram as notícias sobre os incêndios? O mundo está em chamas, a temperatura do planeta não para de subir, e nós vamos continuar sem fazer nada?

— Calma, filha, os bombeiros já estão chegando lá no cerrado… Acho que na Amazônia

também e…

— Coitados dos bombeiros, pai! Não estou falando apenas de apagar o fogo… nós é que temos que mudar! Agir! Agora! Já!”


Maya é uma garota de 12 anos, que adora pintar pedras e roupas antigas, gosta de tocar gaita e nadar. Mas sabe o que ela não suporta? Ficar sem fazer nada enquanto o planeta avança para um ponto de não retorno. Maya não aguenta mais tantas notícias atestando a emergência climática, nem está disposta a ficar esperando as autoridades agirem. E nessa conversa com seus pais, que abre o primeiro capítulo do livro Maya e a turma da terra (Pequena Zahar, 2026), da amada autora Flávia Lins e Silva, dá para sentir toda a indignação dela – impossível comer batatas fritas em paz sabendo que a Terra precisa urgentemente de ajuda!

 

 

Maya a e a turma a da Terra

Mas Maya não está sozinha. Junto com seus amigos da Turma da Terra, Nina, Tuca e Delay, a menina vai tentar implementar uma solução transformadora, que resolva de vez o problema do aquecimento global no longo prazo: plantar árvores. 


Os amigos só encontraram um grande problema: quem sabia plantar? Como será que se faz uma muda?

 

Como era que tínhamos chegado ao sétimo ano sem saber plantar nada? Que tipo de formação tínhamos se não aprendíamos o básico sobre nossa interação com a natureza? Como podia não haver uma horta na escola? Pensavam que os alunos eram só uma coleção  de cérebros onde deviam enfiar conteúdo?! Maya e a turma da Terra (Pequena Zahar, 2026)

 

Neste novo livro de Flávia Lins e Silva, autora de Os Detetives do Prédio Azul e da série Diário de Pilar, com ilustrações de Lídia Farias, vamos nos deparando com as pequenas fissuras que vão criando um abismo entre nós e a natureza. Não saber plantar, parar de comer fruta direto do pé, ter um certo nojinho de mexer na terra sem luvas… Conhecimentos e práticas que foram passados para os humanos de geração em geração durante milênios parecem não ter chegado à nossa vez, especialmente nos espaços mais urbanizadas.

No livro, Maya e sua turma recorrem à avó de Nina para resgatar esses saberes sobre a terra e o plantio que se perderam pelo caminho. E levantam a pergunta: como podemos recuperar esses conhecimentos?  E, com eles, encontrar um caminho para preservar o planeta e para voltarmos a nos sentir parte da natureza?

Foram exatamente estas questões que o Blog Letrinhas fez às entrevistadas desta matéria: Marcia Kambeba e Ana Carolina Thomé. Marcia é escritora, geógrafa pela Universidade do Estado do Amazonas, doutora em linguística pela Universidade Federal do Pará e autora de Maqueira de Tucum (Pequena Zahar, 2025). E Ana Carolina Thomé é pedagoga, especialista em Educação e Natureza, e criadora do projeto Ser criança é natural, que se dirige a famílias e educadores, estimulando que os adultos responsáveis pelas crianças possam fazer boas escolhas a partir de uma premissa: “criança e natureza crescendo juntas”. 

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Os saberes que se perderam

Marcia, que nasceu na aldeia Belém do Solimões, do povo Tikuna, no estado do Amazonas, conta que entre os indígenas, a transmissão dos saberes acontece dos anciãos para as crianças. “Ancião para nós não é necessariamente uma pessoa velha, mas uma pessoa que detém sabedoria, independente da idade”, explica. Ancião é uma posição dentro do território - um jovem também pode ser um ancião, se as pessoas o reconhecem como tal e procuram sua ajuda. É com os anciãos, e no dia a dia, que as crianças aprendem a cultura e as habilidades que garantem a sobrevivência: as músicas, os grafismos que fazem parte das pinturas corporais, e também  lavar a roupa, preparar uma comida, caçar. “Na sociedade não-indígena, a dinâmica é diferente. Na cultura indígena, temos duas formas de educação: a educação indígena, que é aquela que acontece dentro do território, com os anciãos, os contadores de história. E temos a cultura escolar indígena, que está ligada ao currículo formal mas considera os saberes dos territórios”, explica. 

A cultura indígena obedece à circularidade do tempo. E fazendo um círculo com os dedos, Marcia explica, apontando para um ponto no contorno do círculo: “Se eu estou aqui, você precisa estar aqui [e aponta um ponto na outra borda do círculo, seguindo a linha de simetria], porque assim eu te vejo. E você vê o seu vizinho, e assim a gente vai se vendo”. A  circularidade representa afeto, construção coletiva, memórias e saberes, esse elo que conecta todos, sem começo nem fim. E esse círculo não contempla apenas a nossa espécie. “Nós aprendemos também com o não-humano: com o rio, os animais e os encantados. Hoje a cidade perdeu - ou nunca se encontrou - nesse entendimento de que é o ‘eucentrismo’ que vem destruindo a humanidade. Na aldeia, todos nós somos mestres um do outro. Meu filho, na aldeia, não é ensinado só por mim, mas pelo coletivo”, explica, ressaltando essa ideia de educação e transmissão de saberes como algo que acontece na partilha. Bem na contramão da nucleação do cuidado, que sobretudo nas grandes cidades tem recaído sobre pais e mães, que não têm com quem dividir essa função além da escola.

 

Maya e a turma da terra - capa

 

Para Ana esse entendimento de que nós somos natureza é uma relação que não deveria nunca ter sido rompida. “A gente se entender como natureza é entender o nosso desenvolvimento e o desenvolvimento do nosso entorno como algo integral, que acontece junto. Quando falamos de criança e natureza crescendo juntas, quer dizer se desenvolvendo juntas. Não é algo externo”, explica. 

Para ela, o primeiro passo para resgatar essa relação é não pensar mais em criança e natureza como coisas separadas. E reformular o próprio conceito que temos sobre a natureza, para que ela não seja vista apenas como um lugar. “É preciso pensar a natureza como um ser de interação, como potência, como condição básica para o desenvolvimento integral das crianças”, explica Ana. E para resgatar essa relação entre criança e natureza com plenitude e profundidade não é preciso necessariamente renunciar à vida nas grandes cidades e voltar para o meio da floresta. E a própria Ana é um exemplo disso. 

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Brincar lá fora é sempre mais legal


“Muita gente pensa que eu cresci em uma chácara, ou nas montanhas de Minas Gerais. Mas eu cresci no meio de um condomínio cimentado, mas mesmo assim a gente brincava muito fora, todos os dias. A gente brincava de pular em poça d’água, de cavar nos canteiros, juntar pedrinhas, de estar ao ar livre o tempo inteiro, no sol, à noite”. Ana Carol, como tantos pais da geração atual de crianças, nasceu na década de 1980, no boom dos condomínios com muitas torres. Como ela era a criança mais velha no condomínio em que morava, logo de manhã ela ia batendo de porta em porta, perguntando para as mães se as crianças poderiam sair para brincar. “A gente tinha um grupo de 20 crianças que brincava muito. Acho que o Ser Criança é natural nasceu ali, porque eu continuo batendo na porta das pessoas, mas agora uso outros recursos”, brinca. O projeto surgiu de uma forma mais concreta em 2011, quando Ana estava fazendo uma pós-graduação cujo projeto abordava a relação entre as crianças e a natureza. E seus estudos coincidiram com a publicação do livro A última criança na natureza [lançado no Brasil em 2016 pela editora Aquariana], de Richard Louv, fundador do Movimento Criança e Natureza.  

Quando a gente cuida de um espaço para que as crianças tenham um bom desenvolvimento com o planeta, nós estamos garantindo um bom desenvolvimento da biodiversidade. E não estamos falando apenas de conservar áreas de preservação, mas de cuidar de todos os lugares em que a natureza se faz presente", Ana Carolina Thomé 


Embora a ideia de uma vida mais pacata, em meio à natureza, em cidades mais interioranas ou perto da praia, possa seduzir muitas famílias, nem sempre essa é uma possibilidade para todos. E nem é necessário. É possível, sim, desenvolver uma relação com a natureza e se enxergar como parte desse todo sem precisar mudar de CEP nem renunciar a todos os confortos da vida moderna.

Mas é preciso estar aberto. Desacelerar. Parar para ouvir, ver e sentir.

“Em um ambiente em que há uma biodiversidade presente, há muitos motivos para ser curioso pelo mundo, para investigar. Quando a gente dedica nossa atenção ao mundo, a gente começa a perceber as relações visíveis e invisíveis que estão ali presentes”, reflete a educadora. Estar na natureza é nutrir a curiosidade das crianças pelo mundo. E não é preciso ir longe. 

Apenas estar ao ar livre, perto de pedacinhos de natureza, de uma praça, de um jardim. “Ver o vento movendo as folhas. Um caminho de formigas. As diferenças entre os troncos das árvores ou mesmo os bichinhos que vivem ali. A forma como a luz do sol projeta as sombras. Se a gente for avançando mais, podemos ir conhecendo as espécies que vivem ali”, explica Ana citando alguns exemplos. A especialista destaca que o estreitamento dessa relação com a natureza traz diversos impactos positivos no desenvolvimento e na aprendizagem nas crianças, entre eles a melhora da atenção, da concentração.


Mas como fazer isso na prática de uma vida corrida? Veja algumas dicas:


Linguagem é importante. Se a gente se refere a todas as aves como “passarinho” está perdendo a oportunidade de reparar nas características de cada espécie e perde um tanto de vocabulário. Isso serve para tipos de árvores, de flores, de bichos. “Quando a gente sabe sobre essas diferenças a gente já está lendo o mundo como dizia Paulo Freire”, reflete Ana. 


Brincar com a lama, mexer com a terra - Grama sintética, piso de EVA, trilha sonora de sons de passarinho gravada, tudo isso nos afasta de uma experiência real, de conexão. É preciso sentir o mundo, ter um contato direto com o mundo. É assim que a gente aprende e se conecta como parte da natureza. 


Aproveitar qualquer respiro de natureza - quintal, parques, jardins. O céu, o vento, pisar na grama. Isso também faz parte da cidade. Mas a gente só aproveita se estiver do lado de fora. Quanto mais tempo ao ar livre, melhor!

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