Cartas em Língua Portuguesa: uma prática para além do texto

06/07/2026

Envelope, selos, destinatário, remetente.

Em tempos de e-mail e Whatsapp, quem recebe um mísero postal pelo correio é rei.

Não é segredo que a correspondência mais frequente de um adulto contemporâneo costuma se resumir a notificações de infração de trânsito e  boletos de IPTU. Mas, nas escolas, a carta nunca saiu de moda. E continua sendo um gênero textual trabalhado no Ensino Fundamental. Ao lado de bilhetes e cartões de felicitação no primeiro ano, passando por cartas de leitor, de solicitação, de reclamação, até chegar a cartas abertas e de argumentação nos anos finais desse ciclo.

 

Cartas para um monstro

Em Cartas para um monstro (Brinque-Book, 2026), acompanhamos uma troca de cartas improvável: entre uma menina e o monstro que vive debaixo da cama dela!

 


E na literatura as cartas também continuam em alta. Depois do clássico O carteiro chegou (Companhia das Letrinhas, 2007), com texto de Allan Ahlberg e ilustrações de Janet Ahlberg, e de A carta do Gildo (Brinque-Book, 2018), de Silvana Rando, que são queridinhos nas escolas, acaba de ser lançado Cartas para um monstro (Brinque-Book, 2026), com texto de Patricia Forde, ilustrações de Sarah Warburton e tradução de Gilda de Aquino. Nesta história terna e surpreendente, a troca de correspondências acontece entre Sofia e o monstro que vivia debaixo de sua cama. Não, você não leu errado. Tudo começou em uma noite, quando a menina tinha certeza de que havia um monstro escondido ali. E havia mesmo. Mas em vez de chorar, gritar ou chamar a mãe, Sofia tem uma ideia melhor e resolve escrever uma carta para o tal. 


“Querido monstro,


Eu sei que você está escondido debaixo da minha cama.

Eu escuto você respirando.


Este é meu último aviso.

Vá embora agora ou eu vou chamar a POLÍCIA DOS MONSTROS. Tenho o número deles. 


Atenciosamente, 


Sofia”


E não é que o monstro responde?

A conversa por cartas engata e logo uma amizade pouco provável começa a surgir… De forma divertida, o monstro vai narrando suas aventuras em uma obra que fala de medos infantis com leveza.

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A importância do trabalho com cartas na escola

Para a professora Vitória Oliveira Scala, do Colégio Sidarta, de São Paulo (capital), a carta é um gênero tão trabalhado na escola porque materializa a comunicação de uma forma única. “É o primeiro contato da criança com a função social da escrita. Na carta, é muito importante que a criança pense para quem ela está escrevendo. Que o que ela escreve precisa fazer sentido para quem vai ler. Isso desenvolve uma intencionalidade na comunicação e até uma empatia. O ato de escrever vira algo acessível e palpável, que tem um significado”. 

Vitória desenvolve um projeto com cartas para a turma do G5, correspondente ao último ano da Educação Infantil, a partir do livro O carteiro encolheu! (Companhia das Letrinhas, 2020). “A ideia é que a criança perceba que esse é um gênero que faz – ou fazia – parte da vida no dia a dia”, explica a professora. Na Base Nacional Comum Curricular, a BNCC, a carta é um gênero presente no Campo da Vida cotidiana. E embora a habilidade de planejamento e produção de cartas esteja prevista só a partir do 2º ano, já é possível, sim, trabalhar esse tipo de texto antes dessa fase. Neste primeiro momento a ideia é apresentar a estrutura de uma carta e também trabalhar com os nomes próprios.

O planejamento do trabalho inclui algumas práticas integradas. A primeira foca no gênero textual em si, a partir da pergunta norteadora: “Para que serve uma carta?”, como uma forma de verificar conhecimentos prévios. É um momento para que as crianças tragam conhecimentos anteriores e compartilhem experiências pessoais. “Muitas crianças contam que já escreveram uma carta para o Papai Noel, que já receberam uma correspondência de um parente que mora fora do país, que normalmente é um cartão postal”, relata Vitória. Nessa hora, é importante acolher as hipóteses que as crianças trazem sobre o que é uma carta, e para que ela serve, e também trazer perguntas, como: “Como essa carta chega em casa? Qual é a diferença entre uma carta e um bilhete?”, exemplifica a professora. “Muitas vezes a gente pergunta para as crianças: ‘Quem já viu o carteiro?’”, conta Vitória. E muitas delas respondem que viram entregadores de compras de grandes lojas de varejo online.

A segunda prática apresenta o livro O carteiro encolheu! por meio de uma leitura compartilhada, cada criança com o seu livro, com foco no trabalho do comportamento leitor. “Usamos o dedo indicador para ir acompanhando as linhas e chamamos atenção para os outros tipos de texto que aparecem na obra além da carta, como o bilhete, o cartão postal, o telegrama e folheto”.  Ela destaca para a escolha do livro, que tem pistas gráficas e pistas textuais que também vão aparecendo nessa prática de leitura.

O terceiro momento envolve o contato com cartas reais. A coordenadora da escola, Camila Castilho (que já conversou com o Blog Letrinhas neste texto) empresta para as crianças manusearem algumas cartas que ela enviou e recebeu. Este é o primeiro contato das crianças com elementos que fazem parte da carta como o endereço e o nome completo, entendendo por que eles são importantes, e qual é o local correto para inseri-los. 

Em seguida, a turma faz uma lista dos materiais necessários para se escrever uma carta - envelope, selo, papel de carta, o endereço de quem vai receber. “E é nesse momento que a gente traz uma caixa de correio física para a classe, daquelas antigas. Essas caixas se tornam um ponto de comunicação. As crianças começam a escrever bilhetes, fazer desenhos, muitas usam envelopes para escrever nomes e remetentes. Eles mesmos vão se instigando a escrever uns para os outros”, conta Vitória. Mesmo que as crianças ainda não tenham construído autonomia para escrever sozinhas, nesse momento o que vale é a intenção de se comunicar. No final do dia, a professora estimula as crianças a conferir a caixa para checar se alguém tem correspondência para abrir. 

O próximo passo é produzir uma carta de forma coletiva, com a professora como escriba. “Nós a enviamos para alguém ou para alguma instituição. Normalmente fazíamos para o próprio colégio, perguntando quem fundou a escola, quem é o diretor. São informações que as crianças gostam de saber”, explica Vitória. 

Em uma última prática, as crianças se dedicam a produzir cartas de forma autônoma. Normalmente a partir de um sorteio entre as crianças, que decide quem vai escrever para quem. “Tudo o que é moldado no exercício da produção coletiva, eles fazem de uma forma mais simples, mas ainda, sim, muito significativa. Pensar quais são os lugares em que eles precisam escrever, pensar a saudação, o corpo do texto, a despedida, assinatura. Normalmente eles vão colocar no corpo do texto um desenho, o que também é legal, porque vai deixando as coisas com a carinha deles”, explica. 

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O trabalho com cartas para além do texto

Cartas para um monstro

Em Cartas para um monstro (Brinque-Book, 2026), acompanhamos as cartas que Sofia troca com o monstro debaixo de sua cama

 

A professora chama atenção para a possibilidade de ampliar repertório e de trabalhar conceitos importantes para outras disciplinas por meio da carta. No âmbito da literatura, há possibilidade de trabalhar a intertextualidade com contos tradicionais ou  que aparecem em O carteiro encolheu, como João e o pé de feijão, Alice no país das maravilhas e O Mágico de Oz.

Em um diálogo possível com Geografia, as cartas instigam investigações sobre a casa e o território, como: onde fica a caixa de correio?  Onde essa pessoa que vai receber a carta mora? Qual é o endereço? Em que bairro as crianças da turma moram? Qual é o trajeto físico que essa carta vai percorrer para chegar ao seu destinatário? Práticas associadas a Artes, em produção dos selos postais, observando a estética, as figuras e monumentos históricos representados. 

Outro ponto do trabalho com carta que merece ser olhado com atenção é a materialidade. “No colégio, trabalhamos com o princípio de que a criança aprende pelo corpo e isso passa pelo tato. “Por isso, os selos, os envelopes, toda essa materialidades faz parte da educação infantil e ativa o pensamento de investigar. O manuseio com as cartas reais, de envelopes, a leitura de pistas gráficas… tudo isso faz parte da rotina. E torna a alfabetização um processo vivo”, conclui. 

(Texto: Naíma Saleh)

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