Pertencimento, vínculo, um lar: livro “Uma casa” nos inspira a olhar para os detalhes de onde moramos

15/07/2026

O que é uma casa salvo o que fazemos dela? O que vivemos e deixamos nela. Nossos pertences e nosso sentir. Um pouco do que somos e muito do que queremos ser. Nossas regras e contrarregras, espelhadas em bagunças e brincadeiras. São estes detalhes que fazem de uma casa o livro Uma casa (Companhia das Letras, 2026), nova obra da escritora Alice Sant’Anna, com ilustrações de João Kammal. A história faz perceber, de forma lúdica e curiosa, pequenos fazeres e objetos do dia a dia que transformam nossa casa em um lar único. 

 

Uma casa

A lista de compras presa à geladeira, a bola de tênis infiltrada entre os ovos... são pequenos sinais que mostram: esta casa tem gente!

 

Uma morada sem ninguém dentro seria somente tijolo, taco e cimento?, questiona a autora. Não teria travesseiro tomando sol, brinquedos no chão da cozinha, escova de dente a postos ou barulho de garfo no prato. O gato não estaria no sofá e a TV não estaria ligada. O balde não conteria as goteiras e a lista de compras não estaria na geladeira. São elementos do cotidiano que revelam a vida pulsante em cada casa, intensificados pela infância. 

Para as crianças, o lugar em que se vive é muito mais do que um espaço físico. É o lugar onde tudo pode acontecer. É segurança, experiências. “Mais do que um abrigo físico, a criança tem a casa como uma conexão de amor e emoções; uma mistura de memórias e significados, muitos criados a partir da imaginação e do brincar dentro de casa, com objetos simples, criados e transformados”, observa a educadora física Maria Eugênia Setim, da Brinksim, empresa que oferece serviços de recreação infantil. 

Especialista em brincar, ela destaca a alegria de uma família que dá condições para uma “casa viva”, onde se permite às crianças serem ouvidas. A escuta traz conexão em família, cria vínculos importantes. Todos fazem parte. As emoções são interpretadas e expressadas. Os dias simples passam a ter significado por meio das memórias e das descobertas. “Elas criam cabanas e monstros com lençóis, castelos com baldes, heróis com cabos de vassoura, labirintos com as roupas no varal, lembranças com as sombras na parede”, diz. “O lar transforma-se em um universo criativo por meio do brincar e da exploração do que nele existe.”

LEIA MAIS: 9 livros sobre casa para pensar do que se faz um lar


Deixe a arrumação para outra hora!

E assim, pequenos objetos, que podem parecer fora da ordem para os adultos, fazem a ordem da brincadeira para as crianças e dão vida a um apanhado de tijolos com cimento. “É um brinquedo jogado no chão, um jogo de pratos esquecido pela avó, um esporte que se pratica em família. São os detalhes do ambiente que constroem uma casa viva, autêntica, repleta de descobertas, memórias e pertencimento.”

Uma casa capa

Para isso, não é preciso uma casa chique, super organizada, nem brinquedos modernos à disposição. “Não é o valor dos objetos que faz da casa um lar; é o valor do que se pode fazer com estes objetos em família. Pode ter bagunça, marcas na parede, roupas sujas do doce preferido. O que importa é estar junto e sentir a vida pulsar.”

Maria Eugênia ressalta o papel do lar como instrumento em três áreas do desenvolvimento infantil: físico-motora, sensorial-cognitiva e socioafetiva. Os filhos precisam de uma casa onde se sintam seguros para construir vínculos e explorar a imaginação. “Quando encontram um ambiente propício, eles participam ativamente, interagem entre os espaços, envolvem-se com os adultos, independente da idade.”

É nesta interação, nesta mistura de espaços da casa, que se compõem em diferentes formas no universo infantil, que os objetos acabam “viajando” de um lugar para o outro. “A bagunça abre espaço de criação, inventividade, faz parte da brincadeira, dos processos, do uso da casa”, explica a pedagoga Elisa Lunardi, idealizadora do projeto ‘Infância sem Excesso’, e especialista nas relações entre infância e natureza pelo Instituto A Casa Tombada. 

“A reorganização, o tirar, o colocar no lugar ou em um lugar qualquer, é um jeito das crianças colocarem luz no que lhes interessa, de dizer que aquilo é importante”, fala Elisa, lembrando que o brincar é o existir da criança. “Os objetos contam de nós; as miudezas segredam verdades. E, ao brincar e se relacionar com esses detalhes, a criança se constitui. Há uma construção de si.”

LEIA MAIS:  Sobre narrar um exílio na infância: as escolhas de Eva Uviedo em 'A mala vermelha' 


Vínculo e (é) pertencimento

Assim, atenta a pedagoga, é importante evitar que a cultura do consumo e do excesso de organização e limpeza sejam limitadores do cotidiano no lar. A casa não pode seguir a lógica do ter, da comparação, da perfeição. “Quando ela permanece impecável, intocável, perfeita, é reduzida em sua imensidão. O estar em casa envolve fazer parte, pertencer a ela. Entrar e sair fluido, sem segregação, sem separação por ambientes. Casa é um lugar só, de todos.”

Casa é a paisagem da infância, uma amostra do que a família prioriza e disponibiliza para o repertório infantil, reforça. “É o campo relacional da infância, é o lugar da criança. Cada casa narra uma história. É singular, única, um mundo. Casa é um mundo que se cria junto, diariamente.”

Nesta casa-mundo, valorize os detalhes, sugere Elisa. “Um desenho colado na parede. Um rabisco no vidro. Um tênis com meia ao lado da porta. Um cheiro de pão feito na hora. Um ventinho vindo pela fresta do vidro. A música do vizinho. A campainha tocando. O lixo saindo, a comida entrando. O cachorro estirado na porta do quarto esperando a saída do dono. Um bilhete na minha cabeceira. Fotos impressas em locais inusitados. As minhocas vistas como bichos de estimação. O prato indo e vindo. Os infinitos chamados ‘Mãe!!’”.

É cuidado e autocuidado puro!

(Texto: Mauren Luc)

 

Compartilhe:

Veja também

Voltar ao blog