Novo livro de uma das vozes mais instigantes da poesia brasileira contemporânea, autora dos elogiados Relógio de pulso e Preocupações.
As cenas descritas nos poemas de Ana Guadalupe surgem como paisagens emolduradas pela janela do ônibus, embaçadas ou distorcidas pelo movimento, e servem para lembrar que a vida imaginada pouco ou nada tem a ver com a vida que se leva: "a única condição/ para que esta cidade exista/ é que você não insista".
A miopia, aqui, é ao mesmo tempo lente e metáfora. É por meio dela que a poeta descreve o que vê, entre confusões, estranhamentos e falsos cognatos, como se ser estrangeira fosse uma condição permanente. "se o olho é capaz/ de confundir o feixe/ de luz// imagine o que mais/ o corpo pode tramar/ contra nós", escreve Ana, mostrando que em seus poemas a falha da visão ganha um sentido mais profundo.
Com humor inquieto e mordaz, sua poesia explora neuroses, ansiedades, paranoias e angústias, mas trata também de paixão e desejo, com ar melancólico e por vezes insólito.