Neste romance sobre retornos e desencontros e falsos fins e recomeços, Calila das Mercês constrói a história de várias mulheres em movimento, mas que permanecem -- das mais diversas formas -- ligadas umas às outras.
Nódoa é narrado por duas personagens: Regina, que sobrevive a um quadro de catalepsia, e Lurdes Maria, com quem a Regi partilha um complexo vínculo fraternal. Neste interior de mundo bastante particular, nos anos 1960, elas fazem parte de uma família unida por laços que extrapolam o sangue, são marcados por afeto, cuidado e tradições.
As várias mulheres que povoam essas páginas estão em constante deslocamento, em travessias que as põem diante do custo das partidas, da expectativa das chegadas e dos mais variados desafios de ser uma mulher migrante. A personificação deste movimento é Dona América, figura misteriosa e quase mítica, cuja trajetória funciona como fio que conecta as demais personagens -- inclusive uma que surgirá décadas depois.
Em seu romance de estreia, Calila das Mercês constrói um palimpsesto de histórias femininas que se entrelaçam ao longo de gerações. Em uma prosa que explora a forma e a própria materialidade da escrita -- outro tema central para a autora --, coexistem vozes, tempos e registros distintos, como lembranças, notícias, relatos orais, legendas de exposição, cartas e fragmentos de caderno. Por meio desta engenhosa trama subterrânea, o livro desperta uma reflexão a respeito do que são feitos os nós que nos unem, nos sustentam e nos mantêm vivos ao longo do tempo.
"Calila das Mercês vem da poesia. E a poesia nasce dela. Nódoa é feito de pano, de nós, agulhas e linhas que se costuram alfabeticamente, um relato de rendas e remendos para consertar o rasgão sempre mal-acabado entre a vida e a morte. Calila sabe que, entre gente que nunca viu o mar nem terra nenhuma, o mesmo tecido serve de enxoval e de mortalha, serve de barco e de raiz, serve de carícia desatando açudes. A sua escrita fala dos que morrem e não deixam nunca de viver e dos que vivem sem jamais terem habitado a vida. Um bordado de livros dentro de livros, de personagens sobrepostas como bonecas russas que se revelam e se escondem." Mia Couto
"A escrita sinestésica de Calila das Mercês nos presenteia com maestria uma narrativa de envolvimentos. No encanto de sua literatura, a trama, tão sensível quanto firme, ata, desata e fabula memórias singulares e coletivas." Geni Núñez
"Uma mulher acorda dentro da própria morte. É aí que a vida começa a exigir explicações." Kalaf Epalanga