O fio e os rastros, por Diogo Bercito
Diogo Bercito compartilha suas pesquisas e o contato com a natureza que marca "A solidão das aranhas".

FOTO: Unsplash
Com muita alegria, a Companhia das Letras vai publicar sete obras de Caio Fernando Abreu, escritor que retratou, com verve e sensibilidade, a efervescência cultural e política das décadas de 1970, 1980 e 1990. O primeiro lançamento, previsto para julho, será a reunião dos seis livros de contos do autor e de dez textos avulsos, com posfácios de Ítalo Moriconi, Alexandre Vidal Porto e Heloisa Buarque de Hollanda. Este volume vai trazer para o leitor, pela primeira vez, a chance de percorrer todo o trajeto de Caio F. no gênero da prosa breve.
Ao tratar da vida sem ornamentos, com toda a carga de desespero, medo, angústia e desilusão, Caio F. constrói personagens absolutamente profundos e complexos, intensos em cada detalhe. A contracultura se revela, em seus livros, não como pano de fundo, mas como o cerne de seu projeto existencial.
Não é exagero dizer que o autor – que ganhou a alcunha de “o escritor da paixão” por Lygia Fagundes Telles – retratou como ninguém sua geração. Vida e obra se misturam e compõem um mosaico fascinante ao combinar loucura e lucidez, sombra e claridade, num estilo provocador que ganharia forma em contos, novelas, peças, poemas, romances e em uma vasta produção epistolar. Com franqueza reveladora, posicionamento combativo e talento inconfundível, a voz de Caio F. segue ecoando, ainda mais viva, ainda mais atual.
“Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada.”
Trecho do conto “Os dragões não conhecem o paraíso”.
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