A escrita à beira do abismo, por Fabiane Secches

10/02/2026

Em 2021, escrevi as primeiras linhas de Ilhas suspensas, que agora chega às livrarias. Desde o início, estava lá a protagonista, que foi ganhando contornos conforme a escrita avançava, assim como seu companheiro inseparável, o cachorro Quincas, e a personagem Florence, a abelha rainha. A princípio, Mariana se chamava Joana e não era imigrante. Mas a imigração já era um dos temas do livro, antes ligado apenas a Florence — que teve esse nome desde sempre, bem como Quincas. 

O que me levou à escrita foi o desejo e talvez a necessidade de investigar literariamente o que seria o sentimento de deslocamento, em suas mais diversas expressões. Mostrei as primeiras páginas para Socorro Acioli, escritora e amiga que tem o olhar afiado para a literatura. Ela me disse: você está escrevendo um romance. Eu só pude acreditar e seguir adiante.

Escrever Ilhas suspensas foi uma mistura de pesquisa, rigor, planejamento, técnica e transe. Esse último, principalmente quando eu mesma me tornei imigrante, ao me mudar para a Alemanha em 2023. O romance acompanhou minhas curvas pelo caminho, e fez as suas curvas próprias. Escrevemos literatura com todo o nosso corpo, levando conosco tudo que nos constitui. Assim, acredito na dimensão inconsciente da escrita literária: de repente, relemos algo que escrevemos e é um espanto. O livro se revela tanto para quem lê quanto para quem o escreve.

 

 

Talvez no início tenhamos um projeto em mente, mais ou menos com início, meio e fim. Mas, ao menos para mim, não é bem assim que funciona. Minhas experiências vão interferindo na escrita e a escrita, por sua vez, nas minhas experiências. 

Ficamos entre mundos: o da rotina cotidiana com seus afazeres e programas, e o mundo imaginário povoado de pessoas e situações inventadas. Algumas levemente inspiradas em pessoas e situações que de fato conhecemos, mas que são recriadas pela linguagem. Há condensações, metáforas, metonímias, alguns dos mecanismos que o psicanalista Sigmund Freud descreveu para falar do trabalho dos sonhos. Quem escreve ficção é um pouco como quem sonha, quando o sonho continua misterioso também para quem o sonhou.

Parte da estrutura do livro, como sua característica híbrida — algo entre a narrativa e o ensaio —, foram decisões que tomei de antemão. Outras emergiram da própria escrita, algumas a serviço dela e outras, não. Sabemos que escrever é cortar palavras. Cortei frases e capítulos inteiros e recomecei algumas vezes, mantendo os elementos centrais, e o livro que publico agora é diferente daquele que comecei a escrever há cinco anos. Se a gente se transforma, o mesmo acontece com as personagens, com o enredo e até mesmo com a estrutura, e tenho fé de que é importante estarmos abertos à influência do acaso na arte.

Embora o romance tenha sido escrito com hiatos longos, no final transcorreu sem pausa. Os últimos meses, em especial, foram de uma imersão quase completa, algo à beira do abismo. Comer, escovar os dentes, tomar banho se tornaram tarefas autômatas, que me separaram do que era urgente, Dessa imersão, saiu a sua unidade. Quando o tomei do início ao fim e escrevi, escrevi, reescrevi, refinei, revisei, editei. No momento em que acreditei que a montagem do romance estava mais ou menos sólida, passei a compartilhar com poucas amigas escritoras e também com um escritor, tradutor e editor que admiro, Daniel Galera, que, encontrando a expressão “ilhas suspensas” duas vezes no livro, uma com conotação um pouco negativa, outra com com conotação bastante positiva, me soprou o título. Gostei da ambivalência e assim ficou. Ele criou uma das melhores personagens caninas da literatura contemporânea: a Beta, de Barba ensopada de sangue.

As outras leitoras que acompanharam de perto o processo de escrita, com suas hesitações e entusiasmos, foram minha irmã, Camila Secches, que leu capítulo a capítulo conforme iam saindo do forno e foi quem mais me incentivou a continuar: eu sabia que teria ao menos uma leitora, e uma leitora exigente, com quem tive trocas preciosas. Depois dela, quatro outras pessoas tiveram acesso ao texto inacabado: Carola Saavedra, Flavia Stefani, Helen Beltrame-Linné e Natalia Timerman, que menciono em ordem alfabética e não de importância. 

Elas foram todas fundamentais para que eu tomasse a decisão de publicar o livro, que foi acolhido desde o começo pela editora Stéphanie Roque. Stéphanie acompanhou tudo de perto, guiando o caminho sem interferir demais no meu próprio passo. Sem esse cuidado, o livro teria se tornado outra coisa, um remendo qualquer. Eugênia Ribas-Vieira, da Agência Riff, também leu antes e gostou do livro de imediato, o que me trouxe alegria e mais confiança.

Escrevo ficção desde a infância, todo tipo de texto, e com muita frequência. Mas publicar é uma história diferente e apresentar Ilhas suspensas ao mundo me tornaria oficialmente uma romancista. Não sabia se estava preparada para dar esse passo. Ainda não sei se estou, mas aqui vou mesmo assim. 

Duas traduções que fiz nesse meio período também foram influências importantes, embora sejam radicalmente distintas: A corneta, de Leonora Carrington, escrito com uma liberdade radical; e Frio o bastante para nevar, de Jessica Au, escrito no passo que eu procurava, com um tempo distendido e atenção detida aos detalhes. No primeiro, o enredo é exuberante. Tanta coisa acontece, coisas insólitas, que às vezes se torna difícil acompanhar se tentarmos lê-lo obstinados em compreendê-lo, interpretá-lo. No segundo, o ritmo é lento e pede atenção de quem lê para que note cada pequeno gesto. Um pouco como acontece nos livros de Sigrid Nunez, autora de quem tanto gosto, e de Natalia Ginzburg, no lindo As pequenas virtudes.

De cada um fiquei com uma parte, e elas se misturaram a muitas referências da literatura, do cinema, da arte e da vida. Sobre essa mistura, nem mesmo quem escreveu tem as respostas sobre o próprio livro. Pode ter algumas ideias, mas a interpretação que vale agora é a de quem lê. Para cada pessoa, um romance diferente, ainda que o mesmo.

Sou uma leitora atenta à escolha das epígrafes dos livros e acho que quando são bem-sucedidas, funcionam como um condensado poético do que vamos encontrar a seguir. Para Ilhas suspensas, escolhi um dos meus poemas contemporâneos favoritos, da extraordinária Ana Martins Marques, retirado na íntegra de sua antologia O livro das semelhanças. Se isso não trouxer boa sorte ao livro, não sei o que poderia trazer.

Um livro leva o nome de uma pessoa na capa, mas também é um trabalho coletivo. Ilhas suspensas passou por edição, preparação e ao menos duas revisões de texto. A cada etapa do processo, o romance se esmerava um pouco mais. Meu marido, Thiago Thomé Marques, teve a paciência de reler muitas vezes os capítulos em voz alta, para que eu pudesse aferir se o ritmo que eu gostaria de empregar às frases estava funcionando bem. 

Ter consciência dessa comunidade que se forma ao redor do livro é diferente de viver a experiência na prática. A atenção que cada pessoa dedicou a ele me comoveu e me fez ter ainda mais certeza de que um livro é feito a muitas mãos. 

A maior parte disso aconteceu dois anos depois da minha mudança para a Alemanha. Agora vivo na Espanha e tenho certeza que seria outro romance se eu o tivessse escrito inteiramente daqui.

Quanto à capa do livro, foi criada pela designer Elisa v. Randow a partir de uma pintura de Nina Horikawa que eu já conhecia e sonhava para o romance. Deu certo: a editora aceitou minha sugestão, me deixando feliz da vida. Depois, Nina fez uma segunda pintura já pensando em Mariana e Quincas, e é ela que deixo aqui, ilustrando esse breve texto em que compartilho os bastidores de criação de Ilhas suspensas tanto quanto é possível descrever uma  jornada sem igual.

Pintura de Nina Horikawa para

Pintura de Nina Horikawa inspirada nos personagens de "Ilhas suspensas".

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Conheça Ilhas suspensas

Arte da capa de Ilhas suspensas com pintura de Nina Horikawa

Capa de Ilhas suspensas por Elisa von Randow com pintura de Nina Horikawa

Mariana tem encarado a maternidade sob diferentes formas: primeiro, com a morte de sua mãe; depois, com a frustração de várias fertilizações in vitro malsucedidas; por fim, com o distanciamento da própria língua materna, quando se vê migrando com o marido para um país cujo idioma, "composto de fonemas desconhecidos", ela não compreende. A dinâmica de constantes perdas leva Mariana a um quadro depressivo que só é aliviado pela companhia dos livros e de seu cachorro, Quincas.

Entre se adaptar ao novo bairro, acostumar-se ao clima estranho e se moldar à atual rotina do marido — que, devido ao trabalho, se ambientou às mudanças com muito mais facilidade —, Mariana se dedica à escrita de sua tese de doutorado, sobre a presença de animais na literatura, enquanto coleciona trechos das obras de Donna Haraway, Susan Sontag e Carola Saavedra, na tentativa de encontrar algum tipo de resposta para as suas inquietações. De fato, é na literatura que ela experimenta esse acalanto, mas é ao lado de um grupo de amigas imigrantes que a possibilidade de recomeçar se apresenta.

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Conheça Fabiane Secches

Fotografia de Fabiane Secches. Uma mulher branca, de óculos, com o cabelo castanho com as pontas loiras. Ela veste uma camisa social verde musgo. O fundo é um gradiente preto e cinza.
Foto de Fabio Audi

Fabiane Secches nasceu em Minas Gerais, em 1980. Psicanalista, tradutora e pesquisadora, fez mestrado em teoria literária e literatura comparada na Universidade de São Paulo. É colaboradora dos jornais Folha de S.Paulo e das revistas Cult e Quatro cinco um, entre outros veículos. Ilhas suspensas é seu primeiro romance.

 

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