O fio e os rastros, por Diogo Bercito

10/02/2026

Quando tinha oito anos, levei André, meu melhor amigo, para passar alguns dias em nossa casa no interior. Era o refúgio da família nos finais de semana e nas férias escolares, em uma cidadezinha de poucos mil habitantes na fronteira de São Paulo com Minas. 
 
Minha mãe tranquilizou a dele dizendo que não havia risco nenhum. Sem saber daquela promessa, saímos pela estradinha de terra fuçando debaixo das pedras. Encontramos uma cobra esverdeada e a levamos de volta para casa em um galho seco. Quando ela se enrolava perto demais da mão de um de nós dois, o outro pegava pelo lado oposto. 
 
O que eu vou dizer à mãe desse menino? - Minha mãe quis saber. 
 
Para me encontrar naqueles tempos, precisaria procurar no meio do mato. Eu me espalhava pela natureza com a curiosidade que tinha herdado do meu pai. Intrigavam-me, em especial, as cidades angulares que as aranhas suspendiam no ar. 
 
Cuidei, por algum tempo, de uma caranguejeira chamada Brunilda. Ela se escondia dentro de uma casca de tatu abandonada. Observava também a maria-bola que vivia debaixo do telhado da varanda e vibrava a teia quando se sentia ameaçada, borrando sua imagem. Dela, já me esqueci do nome. Recentemente, uma armadeira se enfiou dentro da bota do meu pai e ferroou o dedão dele. 

A imagem mostra Diogo Bercito, um homem branco, sentado na grama, segurando o próprio nariz. Ele veste uma camiseta azul e uma calça jeans, e se apoia em um longo galho. Acima de sua cabeça, há um crânio de um animal.

Quis que meu romance A solidão das aranhas expressasse essa sensação exuberante diante da natureza. O desafio é que nem todo mundo tem a mesma admiração pelas aranhas. Aprendemos a ter medo delas, ainda que raros sejam os casos de envenenamento. 
 
Debaixo das pedras e das folhas secas no chão, os nove capítulos do livro buscam a poesia das aranhas. Fiz questão de respeitar também sua ciência. Li os trabalhos dos grandes naturalistas do século dezenove — Eugène Simon, Carl Koch, Eugen von Keyserling — para descrevê-las. Contei também com a generosa ajuda do aracnólogo Antônio Brescovic, que me recebeu no Instituto Butantã e leu um rascunho do livro. 
 
Também por conta da verossimilhança, tomei o cuidado de não consultar nada publicado depois dos anos 1930, período em que se passa a história. Quis, assim, evitar que Domingos soubesse de coisas que extrapolassem seu tempo. Isso explica por que o nome científico de algumas aranhas está defasado no romance (o gênero Nephila foi recentemente atualizado para Triconephila, por exemplo). 
 
Nesse processo, fiz ainda um curso virtual do Butantã, a que tive de assistir em um aeroporto nos Estados Unidos enquanto voltava de uma conferência acadêmica. Os demais passageiros espiavam a tela do meu celular, onde, às vezes, apareciam fotografias de membros necrosados, envenenados pelas picadas de aranhas-marrom. Eu fantasiava que um deles me denunciaria à polícia migratória por algum crime mórbido. 

A imagem mostra espécies de aranhas.
 
A pesquisa é uma das partes mais prazeirosas da escrita. É o que a literatura compartilha, aliás, com minhas outras duas profissões: jornalismo e história. Também compartilhamos algo com as aranhas: o ato de enredar. Penso bastante no título do livro do micro-historiador italiano Carlo Ginzburg, O fio e os traços, que trata justamente das fronteiras entre o fato e a ficção. 
 
Durante o trabalho, pude me reconectar com aqueles dias da infância, perdido no mato. Visitando meus pais no interior, voltei a revirar pedras e procurar aranhas. Dessa vez, tirando fotos e publicando na rede social iNaturalist. Gosto de me gabar de que cheguei a ser uma das pessoas que mais registraram aranhas-armadeiras no mundo, no aplicativo. Fotografei também caranguejeiras, viúvas-marrons, aranhas-de-grama, aranhas-de-prata, aranhas-do-cerrado e aranhas-de-flor, entre outras, construindo meu próprio catálogo natural. 
 
O romance A solidão das aranhas homenageia esse mundo mais-do-que-humano, fazendo votos de que os leitores passem a olhar menos para o concreto e mais para os fios das teias — que, aliás, são bastante mais resistentes. 
 
André, o amigo de infância, passou bem naquela primeira viagem. Seu maior dissabor foi quando minha mãe lhe serviu o jantar. Ela preparou justamente um cachorro-quente, o quitute pelo qual ele tinha, e ainda tem, um ódio primitivo. 
 
Da cobra esverdeada, lembramos com um carinho doído. 

 

——

Conheça A solidão das aranhas

Capa de A solidão das aranhas.

Capa de A solidão das aranhas por Mariana Metidieri com imagem da capa de Marianne North

"Existem vários jeitos de entrar em uma construção desmoronada", começa assim A solidão das aranhas, romance sensível e sutil sobre perdas. Gabriel cresceu com pavor de perder os pais. Quando recebe a notícia de suas mortes, viaja até o povoado de São Jorge do Pomar. O que ele encontra ao passar pelo limiar são ruínas agora ocupadas pelas aranhas, pacas e lagartixas, dentre várias criaturas misteriosas soltas pela mata. E também encontra Domingos, um jovem cientista de passagem pelo interior que captura e coleciona aranhas em caixas de fósforo. Gabriel e Domingos têm mais em comum do que pensam a princípio e desenvolvem uma nova intimidade enquanto desbravam juntos as terras do sítio, à procura de pistas e verdades na natureza que toma conta de tudo ao redor.

——

Conheça Diogo Bercito

Foto de Diogo Bercito, homem branco com o cabelo longo e vestindo uma camiseta vinho.

Foto de Diogo Bercito por Rachel Lincoln Photography

Diogo Bercito é jornalista e escritor. Foi correspondente da Folha de S.Paulo em Jerusalém e Madri. É mestre em estudos árabes pela Universidade Autônoma de Madri e pela Universidade Georgetown, onde atualmente cursa doutorado na mesma área. É autor do romance Vou sumir quando a vela se apagar e de duas obras de não-ficção sobre imigração sírio-libanesa: Brimos e Brimos à mesa.

Compartilhe:

Veja também

Voltar ao blog