A escrita à beira do abismo, por Fabiane Secches
Fabiane Secches apresenta os bastidores da escrita de "Ilhas suspensas", seu romance de estreia.
Quando tinha oito anos, levei André, meu melhor amigo, para passar alguns dias em nossa casa no interior. Era o refúgio da família nos finais de semana e nas férias escolares, em uma cidadezinha de poucos mil habitantes na fronteira de São Paulo com Minas.
Minha mãe tranquilizou a dele dizendo que não havia risco nenhum. Sem saber daquela promessa, saímos pela estradinha de terra fuçando debaixo das pedras. Encontramos uma cobra esverdeada e a levamos de volta para casa em um galho seco. Quando ela se enrolava perto demais da mão de um de nós dois, o outro pegava pelo lado oposto.
O que eu vou dizer à mãe desse menino? - Minha mãe quis saber.
Para me encontrar naqueles tempos, precisaria procurar no meio do mato. Eu me espalhava pela natureza com a curiosidade que tinha herdado do meu pai. Intrigavam-me, em especial, as cidades angulares que as aranhas suspendiam no ar.
Cuidei, por algum tempo, de uma caranguejeira chamada Brunilda. Ela se escondia dentro de uma casca de tatu abandonada. Observava também a maria-bola que vivia debaixo do telhado da varanda e vibrava a teia quando se sentia ameaçada, borrando sua imagem. Dela, já me esqueci do nome. Recentemente, uma armadeira se enfiou dentro da bota do meu pai e ferroou o dedão dele.
.jpg)
Quis que meu romance A solidão das aranhas expressasse essa sensação exuberante diante da natureza. O desafio é que nem todo mundo tem a mesma admiração pelas aranhas. Aprendemos a ter medo delas, ainda que raros sejam os casos de envenenamento.
Debaixo das pedras e das folhas secas no chão, os nove capítulos do livro buscam a poesia das aranhas. Fiz questão de respeitar também sua ciência. Li os trabalhos dos grandes naturalistas do século dezenove — Eugène Simon, Carl Koch, Eugen von Keyserling — para descrevê-las. Contei também com a generosa ajuda do aracnólogo Antônio Brescovic, que me recebeu no Instituto Butantã e leu um rascunho do livro.
Também por conta da verossimilhança, tomei o cuidado de não consultar nada publicado depois dos anos 1930, período em que se passa a história. Quis, assim, evitar que Domingos soubesse de coisas que extrapolassem seu tempo. Isso explica por que o nome científico de algumas aranhas está defasado no romance (o gênero Nephila foi recentemente atualizado para Triconephila, por exemplo).
Nesse processo, fiz ainda um curso virtual do Butantã, a que tive de assistir em um aeroporto nos Estados Unidos enquanto voltava de uma conferência acadêmica. Os demais passageiros espiavam a tela do meu celular, onde, às vezes, apareciam fotografias de membros necrosados, envenenados pelas picadas de aranhas-marrom. Eu fantasiava que um deles me denunciaria à polícia migratória por algum crime mórbido.

A pesquisa é uma das partes mais prazeirosas da escrita. É o que a literatura compartilha, aliás, com minhas outras duas profissões: jornalismo e história. Também compartilhamos algo com as aranhas: o ato de enredar. Penso bastante no título do livro do micro-historiador italiano Carlo Ginzburg, O fio e os traços, que trata justamente das fronteiras entre o fato e a ficção.
Durante o trabalho, pude me reconectar com aqueles dias da infância, perdido no mato. Visitando meus pais no interior, voltei a revirar pedras e procurar aranhas. Dessa vez, tirando fotos e publicando na rede social iNaturalist. Gosto de me gabar de que cheguei a ser uma das pessoas que mais registraram aranhas-armadeiras no mundo, no aplicativo. Fotografei também caranguejeiras, viúvas-marrons, aranhas-de-grama, aranhas-de-prata, aranhas-do-cerrado e aranhas-de-flor, entre outras, construindo meu próprio catálogo natural.
O romance A solidão das aranhas homenageia esse mundo mais-do-que-humano, fazendo votos de que os leitores passem a olhar menos para o concreto e mais para os fios das teias — que, aliás, são bastante mais resistentes.
André, o amigo de infância, passou bem naquela primeira viagem. Seu maior dissabor foi quando minha mãe lhe serviu o jantar. Ela preparou justamente um cachorro-quente, o quitute pelo qual ele tinha, e ainda tem, um ódio primitivo.
Da cobra esverdeada, lembramos com um carinho doído.
——
.png)
Capa de A solidão das aranhas por Mariana Metidieri com imagem da capa de Marianne North
"Existem vários jeitos de entrar em uma construção desmoronada", começa assim A solidão das aranhas, romance sensível e sutil sobre perdas. Gabriel cresceu com pavor de perder os pais. Quando recebe a notícia de suas mortes, viaja até o povoado de São Jorge do Pomar. O que ele encontra ao passar pelo limiar são ruínas agora ocupadas pelas aranhas, pacas e lagartixas, dentre várias criaturas misteriosas soltas pela mata. E também encontra Domingos, um jovem cientista de passagem pelo interior que captura e coleciona aranhas em caixas de fósforo. Gabriel e Domingos têm mais em comum do que pensam a princípio e desenvolvem uma nova intimidade enquanto desbravam juntos as terras do sítio, à procura de pistas e verdades na natureza que toma conta de tudo ao redor.
——

Foto de Diogo Bercito por Rachel Lincoln Photography
Diogo Bercito é jornalista e escritor. Foi correspondente da Folha de S.Paulo em Jerusalém e Madri. É mestre em estudos árabes pela Universidade Autônoma de Madri e pela Universidade Georgetown, onde atualmente cursa doutorado na mesma área. É autor do romance Vou sumir quando a vela se apagar e de duas obras de não-ficção sobre imigração sírio-libanesa: Brimos e Brimos à mesa.
Fabiane Secches apresenta os bastidores da escrita de "Ilhas suspensas", seu romance de estreia.
Anúncio do livro do líder político palestino Marwan Barghout pela Companhia das Letras
Errata no livro "Trincheira tropical", de Ruy Castro, que narra a Segunda Guerra Mundial no Rio