"Bibliotecários e a mediação de leitura na escola": confira o que rolou no evento organizado pela Companhia na Educação

17/03/2026

No dia 11 de março, véspera do Dia do Bibliotecário, a Companhia na Educação realizou um evento ao vivo no YouTube para falar sobre o trabalho desses profissionais e sobre como acontece a mediação de livros na escola. O evento foi mediado pela pesquisadora Cristiane Oliveira (que já conversou com o Blog Letrinhas sobre sua trajetória na mediação de leitura). Cristiane tem experiência como professora na Educação Infantil e no Ensino Fundamental, é uma das mediadoras do Clube entre Livros e Leituras, um projeto pensado para professores, e também faz da mediação para a formação de leitores o foco de sua pesquisa de mestrado, na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). 

 

Evento Bibliotecários


Logo no início da conversa, ela destacou “o papel estratégico das bibliotecas na formação de leitores e no fortalecimento da leitura dentro da escola”. As convidadas foram Andrielle Macedo, que é bibliotecária formada pela Universidade de Brasília (UNB), especialista em estudos literários e estudos da Literatura, e trabalha com curadoria literária, projetos de literatura e formação de leitores, e Silvia Fortes, que é bibliotecária formada pela Universidade Federal Fluminenese,  atua há 15 anos como bibliotecária escolar, além de ser biblioterapeuta e mediadora de Leitura. Elas conversaram sobre a necessidade de fortalecer a relação entre a biblioteca e a comunidade escolar, pensando como integrá-la melhor ao próprio projeto pedagógico da escola, sobre estratégias que podem ser utilizadas para a formação de leitores e sobre os ossos - e as alegrias - do ofício. Confira a seguir um resumo dos melhores momentos - a transmissão está disponível na íntegra no Youtube da Companhia na Educação.


Biblioteca não é apenas espaço para guardar livros


Para dar início ao evento, Andrielle fez questão de conceituar o que se entende por “biblioteca” antes de discutir o papel do bibliotecário. “A biblioteca não é um depósito de doações indesejadas, não é apenas um lugar de guarda, organização e empréstimo de livros. (...) A biblioteca também não é uma sala de aula, nem uma extensão da sala de aula, e esse é um erro muito comum. Nem é um espaço ‘extra’ na escola”, defendeu. Ela lembrou ainda que a presença de bibliotecas é  garantida pela Lei 12.244, que universaliza as bibliotecas escolares, estabelecendo que todas as instituições de ensino básico possuam a sua, com pelo menos um livro por aluno matriculado. 


Não, a biblioteca não é um espaço extra. E a presença dos bibliotecários, profissionais formados para gestão e mediação de bibliotecas, não é um capricho. Ela também é determinada por lei como uma necessidade. “Na verdade, quando não tem um bibliotecário, nem pode ser chamada de biblioteca. É sala de leitura”, trouxe Silvia logo em seguida. Para ela, tão importante quanto ser espaço de formação e informação é que as bibliotecas tenham vida, sejam movimentadas por muitas atividades e que tenham “encanto”. Mesmo assim, muitas vezes, dentro das próprias instituições escolares, professores e coordenadores não valorizam a biblioteca ou não integram esse espaço de forma a explorar suas potencialidades.

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Mas qual é o papel do bibliotecário, afinal?


Para Silvia, passa justamente por promover esse encantamento pelos livros. “A criança percebe quando você não está encantado, quando não está vivendo aquilo [a história]. Também cabe ao bibliotecário lutar para que haja uma literatura de qualidade”, ela explicou, pensando na curadoria das obras que fazem parte do acervo. Ela também destacou a importância da parceria entre o bibliotecário e a escola, para que o trabalho na biblioteca flua e o profissional tenha autonomia para gerir bem esse espaço. Para complementar, Andrielle explicou o papel do bibliotecário como um “mediador”. “É ele que atua em diferentes frentes: entre a comunidade e a biblioteca; entre os estudantes e os livros”, resumiu. Ela ressaltou que o bibliotecário trabalha com a informação, não apenas com o livro. O livro é um suporte, mas a informação pode estar presente em múltiplos suportes. Sendo assim, a formação literária, que faz parte do escopo dos bibliotecários, com indicações de leitura e mediação, são atribuições importantes da função. Mas o fazer do bibliotecário não se limita à literatura.

 


Nosso trabalho é norteador para apresentar a literatura, a cultura e a informação para essa comunidade escolar que é formada não só de por estudantes, mas também por professores, por colaboradores. Hoje eu atendo o pessoal de serviços gerais, eu atendo aprendizes, estagiários. É uma gama muito grande: de faixa etária, de realidade de vida, onde eu posso trazer várias abordagens e várias estratégias para apresentar o meu trabalho e, consequentemente,  apresentar a literatura”, Andrielle Macedo, bibliotecária

 

A integração entre a biblioteca e o projeto pedagógico também foi pauta das discussões, com destaque para a importância de buscar uma parceria com os professores. É possível pensar, por exemplo, em projetos conjuntos entre bibliotecários e educadores, na elaboração de listas bibliográficas para a escolha dos livros que farão parte do planejamento anual de leitura. “Bibliotecário tem que ser enxerido, sim! Eu vou às reuniões pedagógicas a convite da diretora, troco muito com os professores. É importante estar ali”, contou Silvia. 


Quando o assunto foi mediação de leitura, Andrielle destacou o papel do bibliotecário muito além de indicar livros. “Há algumas estratégias que eu acho importantes, como estimular o manuseio das obras literárias, porque tem muita gente que acha que livro é um objeto intocável”, defendeu. As duas bibliotecárias abordaram o livro, no contexto da biblioteca escolar, como um objeto de uso, que precisa ser tocado, manipulado, investigado - mesmo que seja necessário fazer reparos com fita adesiva depois. Afinal, a interação com o livro é também e, principalmente, uma experiência afetiva. Estabelecer esse tipo de relação com o livro faz parte da formação de leitores realmentre apaixonados por ler.


A biblioteca pode ser esse espaço de exploração da literatura de uma forma mais livre, diferente do que muitas vezes acontece na sala de aula. “É por isso que a biblioteca precisa ser bonita, aconchegante.  A gente precisa se sentir em casa na biblioteca e o nosso público também”, conta Silvia.

 


A melhor propaganda de um livro é o boca a boca. Uma criança fala que leu, a outra quer ler também e o livro vai passando de mão em mão”, Silvia Fortes, bibliotecária


As bibliotecárias também reforçaram como estratégias que são aparentemente simples, podem ser efetivas em despertar o interesse pelos livros. Entre elas, organizar um empréstimo com o livro escondido – ele está embrulhado e é apresentada apenas uma pequena sinopse da história –, promover trocas de obras entre os estudantes, ou fazer uma resenha interessante da história, explicada de uma forma cativante, que desperte a curiosidade. 


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O letramento literário e o bibliotecário


O conceito de “letramento literário” diz respeito a estabelecer “uma relação significativa entre o leitor e a literatura, permitindo que ele desenvolva competências para interagir com as obras, para compreender e dialogar com esses textos literários”, como explica a mediadora, Cristiane. Desenvolver esse letramento literário exige um esforço constante, é um trabalho de formiguinha, no qual os bibliotecários e as bibliotecas podem exercer um papel importante. Sobretudo em tempos onde a tecnologia disputa a atenção das crianças, como lembrou Silvia. O descolamento entre a biblioteca e o projeto pedagógico da escola foi apontado por Andrielle como um obstáculo para desenvolver o letramento literário. “Isso gera uma baixa articulação entre a biblioteca e o currículo”, comentou a bibliotecária. 


Elas reconheceram que nem toda criança, assim como nem todo adulto, vai se tornar leitor(a). Talvez, o estudante não ache de primeira um livro que vai despertar sua atenção. Mas é papel (também) do bibliotecário continuar tentando. Atualizando o acervo, para aumentar o interesse dos estudantes, alimentando a cultura de circulação na biblioteca, pensando em estratégias de mediação com os livros e se integrando ao corpo pedagógico da escola.  E vale lembrar que, diferentemente da sala de aula, onde o projeto pedagógico precisa estar presente, a biblioteca é um espaço de exploração mais livre dos livros, sem ter um compromisso pedagógico. Há mais tempo e mais possibilidade de exercer a curiosidade. De fruir das obras. De folhear tipos diferentes de livros.

O encontro reforçou a importância de fazer da biblioteca um espaço vivo, cheio de gente, cheio de livros, cheio de encontros. Organizar livros pode ser bom. Mas ver uma biblioteca bagunçada por leitores de todo tipo é ainda melhor.


(Texto Naíma Saleh)

 

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